Meus cheiros ainda tão presentes

Gutenberg Costa – Escritor, pesquisador e folclorista

Infeliz do miserável e imperdoável ‘esquecimento’ sobre o que se passou com a geração de um país. O intelectual Mia Couto sempre enaltece em seus textos o saber dos velhos africanos. Chama-os de verdadeiras bibliotecas ambulantes do saber. Ao contrário da cultura africana, aqui pelo nosso pobre e triste Brasil, a velhice é sinônimo de ‘caduco’, ‘mentiroso’, ‘conservador’. O termo classificatório de ‘folclorista’, nem pensar, para muita gente da nova geração. E muitos não gostam dos ditos ‘saudosistas’, como eu, com honras e glórias…

Bem, mas vamos aos meus cheiros do passado. Começando pelo meu pai Geraldo Costa, que desde jovem fora motorista de praça dos americanos que deitavam e rolavam aqui por Parnamirim e Natal, nos anos 40, da segunda guerra mundial. Segundo ‘seu’ Geraldo, o mesmo era obrigado a se apresentar todos os dias aos gringos, engravatado, calça escura, camisa social branca, sapatos pretos engraxados, com brilhantina nos cabelos, muito bem barbeado e até perfumado. Seu inglês de sua Macaíba era bem outro.

Com sua partida, fiquei de herança com seu velho estojo de barbear e ainda estão nas minhas ‘ventas’, como se diz nas feiras, o cheiro do creme, que fazia a espuma e impregnava de cheiro o terraço. Marca ‘Bozzano’, mentol. Como esquecer o cheiro de seu cigarro preferido, o ‘Continental’ sem filtro que eu comprava nas bodegas. Ao recebê-lo, esse era batido no seu isqueiro marca ‘Zippo’, o qual tenho aqui também em meio as tralhas herdadas. Comprar podia, mas fumar não deixava os filhos fazê-lo. Recebi dois ‘traumas’ nunca traguei e sempre enganei com cachimbos e charutos. Com o cheiro ou catinga do óleo e barro de seu caminhão velho, marca Chevrolet, que eu era obrigado a largar os livros e ir lavá-lo, nunca quis negócio com carros algum. Dirigi-los, jamais? Preferi o cheiro dos livros, das bibliotecas e redações de jornais… e diga-se, cheiros bons!

Já com minha mãe, dona Estela, os cheiros foram outros e muitos. Papai viajando sempre e esta em casa o tempo todo com seus sete filhos. Quando a mesma tomava seu banho, o cheiro saia logo do banheiro e se espalhava sobre toda a casa. O trio era o seu sabonete ‘Alma de Flores’, o talco ‘Cachemy Bouquet’, além do desodorante, ‘Leite de Colônia’. O perfume era qualquer um que a ocasião lhe desse para comprar, mas lembro de um deles, da Avon, marca ‘Cristal’. A dona Estela adorava ser presenteada com sabonetes e perfumes e quando em data de seu aniversário não recebia nada de ninguém, respondia as perguntas, com a inevitável resposta positiva ao seu modo: “Este ano, não recebi nem um sabonete da marca ‘Dorli’…”.

Uma noite, estando em meu computador digitando minhas coisas, eis que a minha biblioteca se enche de cheiro de seu perfume e talco. Parei o trabalho e fui conferir se alguém havia derramado algo cheiroso ali e aquela hora da madrugada. Demorou desaparecer o cheiro de minha genitora que já havia partido há anos. Contando esse fato estranho a um amigo espiritualista, esse acalentou-me e até alegrou-me com a explicação de que dona Estela teria estado ali naquele momento. Eu que não creio em minha coisa, não duvido de nada…

Um dia em uma feira e sentindo o cheiro de uma feijoada cozida na lenha vindo de uma barraqueira, me sentei pedi a tal iguaria e comecei a ‘soluçar de lembranças’, como repetiu tantas vezes, em suas geniais crônicas o grande Rubem Alves: “O que, pelo amor de Deus, está fazendo o senhor chorar aqui na minha banquinha?”. Ela, a pobre vendedora tão limpa, mestra da arte de cozinhar, não iria entender é que aquele cheiro de sua feijoada, lembrava a de minha mãe. Dona Estela colocava tudo que o dinheiro dava pra comprar e temperar a sua velha panela: pedaços de carne de sol, tripa fina, bucho, osso salgado… Mil milacrias, que quando recebia a primeira fervura, vinham as verduras, o alho e a pimenta, pilados com força, em um pequeno pilão de temperos. Há tempos, guardo esse pilão como grande relíquia de sua fortuna e o cheiro de sua feijoada, principalmente aos domingos, quando a mesa é cheia de familiares e netos.

E como estamos em um mês dedicado as tradições juninas, não podia deixar de citar os cheiros do milho moído em um moedor de metal que ficava seguro na mesa. Tenho alguns modelos aqui em casa. Cheiro bom das pamonhas, Mungunzá, canjicões, milho cozido e primordialmente da canjica que era colocada ainda quente nas tigelas e salpicadas de canela ralada. Confesso que minha mãe ficava numa grande aflição, pois como era difícil conter a briga de foice de seus sete filhos disputando o fundo do caldeirão, da sobra queimada da canjica. Haja cheiro e brigas. Até a colher de pau suja de canjica era lambida com felicidade por quem tivesse a sorte e a rapidez de tomá-la de posse.

E tinha os cheiros urbanos também em Natal. Às vezes, andando pelo meu bairro do Alecrim, eu paro em transe e fico sentindo o cheiro forte do café da velha chaminé do ‘Café Vencedor’. Ainda estão no ar as fumaças e cheiros das carnes assando em brasas de ‘seu’ Toinho da Avenida 11 e de ‘seu’ Macaíba, da Avenida 2. Em todo lugar em que eu fui, trouxe inevitavelmente os seus cheiros bons. Vou citar apenas alguns aqui. A ‘panelada’ retirada com fumaceiro e servida no Mercado Velho de Mossoró. O ‘alfenim’ da velha e boa dona Laura de Pendências. As cocadas de rapadura ainda quentes do tabuleiro de dona ‘Xuxa’, também de Pendências. Essa Xuxa era uma negra magra e pobre, apelidada bem antes da famosa branca e chata. Toda vez que vou a cidade de Arez/RN, me chega o cheiro bom do ‘bobó de camarão’, o qual comi em um jantar na casa de dona Nadir Cunha Galvão. O melhor de toda a minha vida. Deixei de lado a vergonha ensinada por minha mãe e repeti o prato…

Quem não se lembra daquele biscoito delicioso que caia no chão e era apanhado rapidamente, sem chamar a atenção dos olheiros: “Pra não dá gosto ao cão!”. Ficava as vezes sem dinheiro, só para apreciar o cheiro do pão das padarias e das fábricas de doces, aonde eu estivesse durante a minha infância. De Salvador/BA, me acompanharam a admiração por Jorge Amado e Glauber Rocha, entre outros. Mais os cheiros das moquecas de peixe, caruru e vatapá, entre outras delicias gastronômicas, deixadas pelo bom gosto das antigas quituteiras africanas. Do Rio Grande do Sul, além dos livros de Mário Quintana e das cuias que trouxe, me veio o cheiro amargo do seu tradicional ‘Chimarrão’. Tomei, mas digo-lhes que prefiro um café bem quente, forte e coado no pano, como fazia minha mãe. Se possível, em bule e servido com pedacinhos de rapadura.

Da linda região de Goiás Velho, trouxe as poesias escritas pela brilhante Cora Coralina e os deliciosos e cheirosos doces de caju, sentido em seus velhos tachos. De seu quintal arborizado, trouxe de presente, dois cajus avermelhados. Em Teresina/PI, fiquei embriagado com o cheiro e o precioso líquido de sua Cajuína. Na região do Pará, fiquei encantado com o cheiro e o sabor de seu Cupuaçu. Só perdendo em um ponto para a Mangaba, de São José de Mipibu, aqui no RN.

Antigamente, ouvia-se como causa mortis de alguns defuntos gulosos: “Morreu feito peixe, pela boca”. Faltavam completar o diagnóstico: “e pelo cheiro”. Papai dizia quando espiava meu prato na mesa, que eu era daqueles que só ‘vivia para comer’ e não para ‘trabalhar’… e quem danado é nordestino e criado na feira do Alecrim, como eu, que vendo, comendo e sentindo os cheiros de picado, cuscuz feito em prato com pano, peixe frito em fogão de brasa e tapioca no coco de goma fresquinha, resiste aos pedidos tortuosos de sérios endocrinologistas e cardiologistas. Comida que não exalava cheiro forte, não era considerada boa. Os vizinhos sabiam o que lá em casa a panela estava fervendo. Não dava para negar nada a mulher buchuda e menino. Por falar em peixe e tapioca, pense em um casamento perfeito para meu café quando vou as ditas e abençoadas feiras. Santuários de cheiros e bondades humanas!

Confesso que sinto o cheiro de peixe de longe, quando minhas vizinhas o estão fritando. Gato perde pra mim. Tudo isso, minha paciente gente leitora, é parte de nossa grande herança cultural tão elogiada e estudada por nosso mestre Câmara Cascudo, em sua obra, ‘História da Alimentação no Brasil’. Sempre remexido para releituras e consultas quase que diárias.

E podem espalhar essas minhas besteiras para o mundo, que eu não me chamo Raimundo. Aqui aonde procurei viver ainda sinto cheiro de mata verde, cheiro de lagoa, de mar e de bosta fresca de vacarias, as quais lembram os currais de gado de meu materno avó ‘seu’ Hermógenes Medeiros, de Pendências…

O resto hoje é o fedor da poluição e lixões nas grandes metrópoles brasileiras e mundiais. Os urubus rodeando os aeroportos e as riquezas humanas, infelizmente! E como se dizia quando a gente por um azar pisava nas fezes dos gatos, que era o que mais fedia antigamente – ‘Eita bixiga taboca!’

Morada São Saruê/Nísia Floresta.