“Meu ser ou não ser”

Quem nunca se deitou e  se deleitou nas mais fantásticas sensações?  Estou aqui, cafona no meu entender sobre tudo, nas coisas poucas e fracas que o homem já inventou. Estou aqui na praia que eu mesma construí, nos meus pensamentos errantes e cruéis, estou aguardando o pássaro sábio balançar suas asas. Ah amor! Perdoe se eu te esqueço, se eu te tenho tão perdido dentro de mim, estou desorganizada e atraída por um outro lado, um caminho seu que não me pertence. Sou tola bem sei, como se tivesse morrendo algo dentro de mim, feito algas que se agarram nas rochas da praia. E aos poucos sei que consigo me entender, me achar ou me perder de algum modo, de algum jeito torto. E mesmo torta nesta solidão que me aflige, esta solidão desmedida e ordinária, sou feliz. Feliz! Porque meu coração é acorrentado e vagarosamente pulsa meu pulso cansado. Estive somente tentando chorar, e ainda aqui virgem, com fome e frio, tento chorar, como se um choro forte me fizesse acreditar numa outra história ou me tirar deste medo, deste apuro em abrir meu baú, meu medo. Desencadeia minha corrente de imaginação, não mais me crio, não consigo esconder que estou me  desfazendo, cortando o elo que me mantém aqui, por aqui inteira. Minha praia imaginária está deserta, muitas conchas, ondas, brisa mansa e gélida. Já não poderei fazer minhas entranhas transparentes e consertáveis. Sou apenas uma Maria. Apalpando minhas palavras miúdas, minha despedida. A ampulheta está no seu tempo corriqueiro. Estou morrendo devagar numa linda noite estrelada. Queria mais tempo, tempo de um relógio moderno, tempo para um tic-tac de segundos. O jeito é rasgar de mim este sufocar macabro de uma criança perdida, uma moça mal dormida. Sinto-me agora um minuto, um momento tão curto, uma memória não definida, um fio em curto. O adeus acenado, a vida quebrada, a saudade infinita, o amor, um espírito, um voo rasante… Tudo é tão bem trancado, para uma alma apodrecida não tomar. Tem uma razão merecida para a coruja me vigiar, adivinhar minha morte com o seu piar? Talvez. Ah, o amor! Como ele é capaz de transformar assim? Alumiando-me estou, numa carência de mais tempo. Pareço gente! “Na silhueta do tempo, às vezes, são as avarias. Os poentes acinzentados e laivos de amaranto. Vindos a imagens brandas e esquivas dos dias. De olhares vítreos na esquina dos meus anos… No  árduo  das coisas idas, disposto nos aprumos. Das horas densas, no bojo, mago das auras serei. E desse tempo preciso, paladino dos meus rumos. O meu destino como um legado de desejos”. Serei o que me fizer mais feliz, serei até mesmo a própria ventania que me assusta ou uma breve corrente no meio do rio, serei o que me tornar livre. Nesse “meu ser ou não ser” em mim…