Memorial

As circunstâncias levaram-me a evocar memórias. As profissionais, somente essas interessavam para compor um documento rotulado “Memorial”, obrigatório em determinadas oportunidades, a exemplo daquela. Gosto de me contar, é bem verdade, gosto de declarar minhas paixões eternas, em parte vividas, em parte inventadas, sempre com a liberdade homeopática de diluir a realidade em oceanos de fantasia, protegido na licença poética das crônicas.

Aprendi com Drummond que o meu coração é muito menor que o mundo, pois “Nele não cabem nem as minhas dores”. Foi também o poeta de Itabira, ao receber de um anjo torto a missão de “ser gauch na vida”, quem me ensinou que por isso gostamos de nos contar, de nos despir, de nos gritar. “Por isso frequento os jornais”, diz ele, “me exponho cruamente nas livrarias: preciso de todos”, mas sem me descuidar da trama, das leis do imaginário.

As lembranças expostas à claridade, sem um tiquinho de autonomia criativa, perdem a mobilidade. Já dizia Saramago, n’O Ano de 1993: “Quando o sol se move como acontece fora das pinturas a nitidez é menor e a luz sabe muito menos o seu lugar”. Melhor a inquietude da luz em movimento, ressaltando pontos diferentes de imagens diversas, conforme o estado de espírito do observador, do que a palidez estática da nobre absoluta verdade.

Desenhei-me virtudes, pois o instante exigia tal postura. Não sem antes lançar mão de Neruda para alertar os três leitores da nefasta peça, sobre o fato de que “Estas memórias ou lembranças são intermitentes e, por momentos, me escapam porque a vida é exatamente assim”. Escapei por pouco de me dizer humano enquanto cumpria a trágica missão de me dizer super-homem, sem as marcas da noite enorme neste corpo e nesta alma pequeninos.

É preferível correr na inconstância do sol em sobressaltos do que fixar o passo nos trilhos da perfeição, qualidade inatingível, ilusão dos soberbos. Ah, meus amigos, que maravilha respirar a liberdade de me reinventar nas palavras, sem preocupação de sofrer constrangimentos acadêmicos. Eu sou a matemática inexata dos signos da irrealidade que me embriaga o sentido, e essa sensação me deixa altamente excitado, porque a sobriedade é um porre.