Medos

“O medo é um mecanismo de aprendizagem, mas também evolutivo de sobrevivência da espécie, e do indivíduo particularmente. Veio de origem miedo, do alemão” – Wikipédia.
Segundo a definição acima, o medo faz parte do nosso aprendizado. Estudos mostram, também, que ele nos afasta do perigo e nos protege, bem como, em outras situações, nos leva a agir ou fugir de situações, impedindo até o nosso crescimento.

Como tirar então proveito desse sentimento tão ambíguo?

A sensação de medo, por incrível que pareça, é uma reação normal diante do inusitado, fazendo-nos refletir antes de seguir. No entanto, observando melhor o assunto, vê-se claramente que, o medo não é opcional. Toda e qualquer situação nova, pode gerar ansiedade e, consequentemente, fazê-lo surgir, e o que é pior, acompanhado de outros sintomas desagradáveis, causando, às vezes, problemas mais sérios.

Pensando bem, muitos são os medos que vivenciamos durante a nossa caminhada nesse plano: medo de dormir no escuro, de pessoas estranhas, de bichos, de altura, de se olhar no espelho em ambiente de penumbra, de nadar, de fogo, do primeiro dia de aula, do novo, do passado, do futuro, de perder algo importante, da velhice, da morte; enfim, medos…

Alguns desses medos vamos sublimando aos poucos no nosso dia a dia; no entanto, outros persistem durante uma vida inteira. Por exemplo: adoro atividades aquáticas, mas não consigo mergulhar a cabeça nem numa bacia com água. Fico apavorada com a ideia.

Você pode até não se lembrar, mas, com certeza, um dos primeiros medos sentido por você, pode ter sido na infância. Não aquele quando vieste ao mundo, nem daquele que resultou da primeira tapinha que é dado com intuito do bebê chorar e, com isso, abrir os pulmões, mas, enquanto bebê, já um pouco mais crescido.

Um dos muitos costumes dos adultos, e que acontece até os dias atuais, é ninar os seus rebentos, cantarolando canções não muito legais. Usualmente, as cantigas de ninar, falavam e falam de monstros que vão pegar os bebês, caso não durmam, tipo: a Cuca, Bicho Papão, Lobo Mau, Homem do Saco, e por aí vai… Ainda bem que Monteiro Lobato desmistificou a Cuca e outros personagem que tanto assustaram a minha infância!

Quantos seres não foram criados enquanto o “soninho” não vinha… Porque, diga-se de passagem, ninguém melhor do que as crianças para utilizar com facilidade a imaginação. Exercitei muito a minha! Aliás, até hoje eu faço isso!

Quantas vezes levantei as pernas e as coloquei sob o corpo em cima da cama, poltrona ou cadeira, com medo de que alguma mão sinistra pudesse puxar meus pés, enquanto ouvia dos adultos histórias de “medo”, que por sinal, sempre as adorei!

Os contos fantasmagóricos com aparições anímicas de seres de outro mundo… Ou então, quando me desesperava ao entrar em quartos ou em ambientes escuros. Fechar os olhos, nem sempre resolvia, pois a minha imaginação fértil conseguia materializar vultos e até ouvir vozes do além. E as gargalhadas? Essas nem gosto de pensar…

O real também me causava medos. Ainda causam…

Inúmeras foram às vezes em que fui para a escola com o coração acelerado e as pernas tremendo de medo, para enfrentar uma chamada oral dos “pontos da semana” ou da tabuada.

Quanto choro desperdiçado, quando praticava durante o dia, alguma “arte”, e minha mãe dizia: “Quando o seu pai chegar, você vai se ver com ele”. Nossa! As horas não tinha fim de passar. A angústia da espera era cruel. Ficava imaginando como seria o castigo que, às vezes, nem chegava a acontecer, mas o medo durante a longa espera causava-me pavor.

Um dos medos que assola a humanidade está relacionado com o destino após a morte. Sem a certeza de como será, as pessoas buscam, incansavelmente, nas diversas crenças religiosas, respostas plausíveis para esse grande mistério. Quando não encontram, ou não se contentam com os achados, entram em pânico.

O medo, embora necessário em algumas situações da nossa vida, de um modo geral, representa um dos grandes vilões quando se trata das nossas tomadas de decisões. Acometidos por esse sentimento negativo, deixamos de realizar muitos empreendimentos que poderiam tornar-se sucessos no dia a dia.

Às vezes é preciso enfrentar os medos e superar os temores. Que tal vez por outra dormir no escuro, olhar os relâmpagos sem fechar os olhos, olhar embaixo da cama, olhar-se no espelho, encarar as perdas como um processo evolutivo natural, e acima de tudo, viver o presente o mais presente possível. Só assim terá valido a pena ter caminhado nesse solo!

Vanda Jacinto
Pedagoga