LIÇÕES DA PANDEMIA

Nilo Emerenciano - Arquiteto, escritor e articulista

O watsapp nos traz, diariamente, uma infinidade de informações, tais como pedido de orações, textos de Chico Xavier que ele nunca escreveu, a cura da diabetes, da impotência e também fórmulas de emagrecimento e o fim da calvície. Calendário (falso) de vacinação, memes, bonequinhos rindo, chorando, ou tristinhos, absurdos sobre a covid e seu tratamento, alguns até negando a vacinação como forma eficiente de combater a praga. Enfim, um mercado livre de ideias (ou da falta delas) onde vale tudo.

Em meio a esse bombardeio, dia desses vi uma nota que me chamou a atenção. Dizia que a pandemia nos ensinou que o vírus evolui e a humanidade não. Será? Podemos fazer um esboço de avaliação a partir da nossa experiência. O que aprendi nesses dias de isolamento que contribua para a minha evolução?

  1. Aprendi que a TV continua a mesma máquina de fazer doido de que falava Sérgio Porto. E que não há vida inteligente por ali. O BBB talvez seja a maior expressão dessa verdade, mas em geral a paisagem é árida, a não ser, talvez, para quem gosta de receita de bolos.
  2. Constatei a decadência do nosso futebol. Que atração há nesses espetáculos tristes, sem torcidas, sem novidades a não ser o corte e a cor dos cabelos dos jogadores? Sem falar dos nossos ABC e América, nessa hora jogando em algum lugar ermo do território brasileiro, enfrentando equipes como o Arranca Toco FC., lá em Riacho dos Cafundós.  E um tal  VAR que prende o grito de gol nas nossas gargantas e interrompe a todo momento o jogo, tornando o futebol um evento com hora de iniciar mas sem nenhuma previsão de conclusão.
  3. Fui obrigado a reconhecer que nem uma pandemia em descontrole, nem 300 mil mortos, nem a falta de oxigênio e vagas em UTIs são capazes de deter a sanha por poder e grana – ilícita – dos nossos representantes. E aí se trata de um vírus sem vacina, o vírus da ganância e insensibilidade. Enquanto contamos os mortos os caras contam dinheiro.
  4. Que, como dizia Belchior, continuamos os mesmos, pois apesar dos 3000 mortos diários achamos tempo para agredir e matar uns aos outros, sejam crianças, jovens, adultos; esposas, maridos e até filhos. É o que o noticiário diário nos mostra, para nossa tristeza e comiseração, sendo o caso do menino Henry Borel um triste exemplo. O nosso adiantamento se deu no campo da ciência e tecnologia, mas a nossa moral ainda engatinha. Nos textos da Comédia Latina e Grega, há mais de 2000 anos, Aristófanes, Sófocles, Plauto e Terêncio falavam de adultério, traição, intrigas, vingança, ambição. Os mesmos temas das novelas de TV que invadem nossas casas.
  5. Tive que admitir que Pelé estava com a razão quando disse, anos atrás, que nós, brasileiros, não sabíamos votar. É só dar uma olhada em derredor. Dois presidentes que não terminaram seus mandatos à força do impeachment, um que escapou por muito pouco, outro que está seguindo perigosamente o mesmo caminho. Governadores, senadores e deputados presos (e até em vias de serem libertados devido às idas e vindas da nossa justiça). Um festival de falcatruas realizado por criaturas colocadas ali por nós, por nosso voto, por nossa incúria, por nosso desconhecimento das ciências políticas.
  6. Cheguei à conclusão que Deus chama os bons. O vírus nos levou Daniel Azulay, Aldir Blanc, Nicette Bruno, Paulinho do Roupa Nova, Genival Lacerda, Evaldo Gouveia, Olga Savary, Sérgio Santanna, Antônio Bivar, entre muitos, para não citar os amigos da terrinha potiguar. Restam um vácuo e uma ausência dificilmente substituíveis.
  7. E deixa os maus, talvez lhes dando oportunidades de recuperação. Principalmente os maus pastores, homens que usam a religião como meio de enriquecimento, vendendo feijão milagroso, explorando a credulidade e boa fé dos fiéis, fazendo má política, trocando descaradamente o caminho do céu pela trilha dos ganhos fáceis em absoluta contra mão do que ensinou Jesus.

A lista vai ficando longa. Sei que resta muito tempo para novas descobertas, já que o fim dessa crise ainda ocupa um horizonte distante. Tomara que daqui pra lá eu possa, quem sabe, descobrir que se o vírus evolui, nós também evoluímos aos poucos, aos tropeços, ou, como dizia o velho Cafifa, aos trancos e barrancos.

NATAL/RN