Lembranças de uma certa Peugeot

Sempre eu vejo pelas ruas os carrões da Peugeot, inevitavelmente me vem à lembrança da primeira vez que vi aquela marca. Eu já pilotei uma Peugeot. Acreditam?

Não era minha, pertencia a um primo. Era azul, compacta. Foi nela que aprimorei o meu senso de condução.

Com ela, percorria cerca de 15 quilômetros todos os finais de semana para visitar meus avós e retornava na segunda-feira sem cansaço para a “cidade”.

Ela era um sucesso. Naqueles tempos inocentes ainda cheguei a conduzir a primeira namorada para a escola naquela Peugeot.

Certa vez sofri um acidente ladeira abaixo e, como viajávamos juntos, eu e os primos, caí e fiquei ali, imóvel por alguns minutos. Quando os primos se aproximaram pensando em algo mais grave, os surpreendi com um grito. Coisas boas da meninice.

Nunca mais vi um modelo Peugeot igual aquele. Nunca mais me arvorei em aventuras por aí. Fui absorvido pelo corre-corre do dia-a-dia. É isto que acontece quando viramos gente grande.

A vida é assim mesmo, muitas coisas se perdem ao longo do caminho e ficam só as recordações. Coisas que nem tivemos a chance de nos despedir direito. Banalidades que só depois sabemos que tiveram sua importância em algum tempo de nossas vidas.

Certa vez perguntei ao primo que rumos tivera tomado a velha Peugeot. Onde estará agora? Ele não sabia. Insensível. Nem imagina ele a saudade que eu sinto daquela linda bicicleta.

Et cetera…

Já poderia se transformar em uma espécie de coluna ou coisa assim: “as peripécias da semana na prefeitura de Mossoró” (assim mesmo, em minúsculo). A da última semana foi o aumento na tarifa de ônibus em 50%, elevando-a a R$ 3,00. Sinceramente, nosso prefeito anda mais perdido do que cego em tiroteio.

Com estudantes acampados na prefeitura e servidores terceirizados em polvorosa, o chefe do Executivo mossoroense ficou acuado e se esquivou de aparecer em público. Fala-se que se fez bem, havia a possibilidade de ser recebido com ovos e tomates e não era uma refeição.

Coragem x despreparo. Assim eu avalio o episódio envolvendo estudantes policiais durante os protestos contra o aumento no valor da tarifa. Os homens de farda, como de costume, tiveram que apelar para a força bruta para conter os manifestantes. Como se esta fosse a única alternativa para isto.

Hoje me despeço da editoria de Cultura deste centenário jornal. O coração triste, mas com a certeza de que desempenhei bem a minha função. Nesta segunda passagem pelo O Mossoroense, cheguei num momento antagônico: minha melhor fase, enquanto profissional e um momento não tão bom para a imprensa impressa do Estado em um modo geral. Fica minha gratidão a todos aqueles que em mim depositaram confiança, principalmente ao jornalista Cid Augusto. A gente se encontra por aí.