LÁZARO: O CADÁVER TROFÉU

Por LÁZARO AMARO - Advogado, cantor e compositor

As lendas permeiam todos os setores da realidade, inclusive a etimologia. Assim é a que diz que a palavra cadáver seria a junção das sílabas iniciais dos vocábulos “carne”, “dada” e “vermes”, da expressão “carne dada aos vermes”.

Com um início tão ácido, para um texto escrito, pareço, a mim mesmo, desdenhar dos procedimentos de exclusão impostos no discurso pela sociedade e estudados por Freud e, depois, por Foucault.

Conforme demonstra o filósofo francês, em “A Ordem do Discurso”, dentre esses procedimentos excludentes, “os mais evidentes” são os interditos, listados como “tabu do objeto, ritual da circunstância e direito privilegiado ou exclusivo do sujeito que fala”, os quais, ensina Foucault, “se cruzam, se reforçam ou se compensam, formando uma grelha complexa que está sempre a modificar-se.”.

O mestre do Collège de France ensina ainda que há outro princípio de exclusão, que não é um interdito, senão “um compartilhamento e uma rejeição”, na oposição entre a razão e a loucura. Todos esses elementos participam da “ordem do discurso”, estando a espreitar e a julgar o que estou dizendo, neste momento, com uma enorme sanha condenatória.

Corro o risco de ser linchado, por declarar publicamente o que enxergo de comum entre os condenados que eram crucificados pelos romanos e expostos ao público (foram seis mil em um dia apenas, no ano 71 a. C., sob as ordens do General Marco Licínio Crasso) e o sujeito que foi caçado por muitos dias e finalmente abatido hoje, véspera do São Pedro, mediante a efusiva satisfação da sociedade, traduzida pela “mídia”.

Confesso que jamais houvera ouvido e visto tanta pilhéria e tanta chacota em torno do nome que meu pai pôs em mim, para pagar uma promessa que fez ao Santo das Feridas, quanto nesses últimos dias.

Hoje, logo cedo, chegaram, pelas redes sociais, as imagens terríveis do cadáver de Lázaro, mais cheio de buracos de balas do que um personagem de “A Turma do Pernalonga” acertado em um tiroteio de desenho animado. Um cadáver exibido como um troféu pela morte de um “monstro” sem pais, sem irmãos, sem parentes importantes. Um cadáver transmitindo uma gama de discursos proibidos, além do grito de certeza de sua morte.

Talvez ele fosse mesmo possuidor de uma resistência física muito maior do que a de um ser humano comum e precisasse ser alvejado mesmo tantas vezes.

Não há discutir sobre a total desnecessidade de capturá-lo com vida. A nós não interessa o discurso do “monstro”. Talvez, o que ele tivesse a dizer nos mostrasse como os “monstros” surgem, e isso não pode nos interessar porque essa dicção pode terminar nos sendo acusatória. Mostra-se-nos muito mais confortável destruir os monstros do que impedir que eles surjam e se desenvolvam. Então, seu discurso precisava ser interditado.

Lázaro não precisa de choro. Não precisamos carregar culpas. O cadáver mostra que somos iguais a ele. Sabemos ser perversos com quem merece.

Essa semana, tive a honra de assistir à defesa da tese do Doutorado em Linguística do advogado, jornalista, intelectual e poeta potiguar Cid Augusto: “Poder, Mídia e Discurso, na “Canonização” do Cangaceiro Jararaca”. Trata-se de uma tese brilhante na qual tanto o conteúdo de “A Ordem do Discurso” quanto o de “Vigiar e Punir”, de Foucault, entre inúmeros outros, são utilizados para explicar as razões e as necessidades institucionais que impõem a construção de certas discursividades em torno dos condenados pela “justiça dos homens” e a exibição dos corpos dos supliciados. A tese parece, ao meu ver, que estava preparando o dia de hoje. Quando vi a foto do corpo de Lázaro, lembrei-me, imediatamente, das fotos de Jararaca e de Guevara, não comparando as pessoas que foram donas dos corpos, mas lendo as mensagens acessíveis, especialmente aquela que diz: “Não sejam iguais a eles ou seremos piores do que vocês”.

Sempre foi assim com os corpos dos santos e dos demônios. Deus me livre de dizer nomes. Hoje, temos a tecnologia intermediando o discurso.

Recebi, ainda pela manhã, um vídeo do cadáver de Lázaro cantando “I want to break free” (traduzo como “quero desmunhecar”) da banda Queen, além de mensagens sobre “CPF cancelado” e sobre os discursos do futuro em defesa de Lázaro.

Não defendo Lázaro. Preocupam-me os inocentes. Coitados!