Laíre Rosado: CHICO BUARQUE NA TENDA CIGANA

Sábado à noite, com mais tempo para navegar pela internet, leio mensagem em Twitter, postada por uma senhora: “Curiosidades sobre mim: trabalhei na Varig e conheci o Chico Buarque. Fui escolhida para acompanhá-lo da sala vip para a aeronave. Ele ia para Paris…”

Resolvi matar minha curiosidade e encaminhei uma mensagem: “Boa noite. Em relação a Chico Buarque, fiquei intrigado. Foi nervosismo?” Confesso, não esperava resposta, mas, em poucos minutos, recebi postagem da ex-funcionária da Varig, comprovando a característica de lhaneza e atenção dos ex-funcionários da empresa para quem procurava seus serviços:

“Sim, principalmente por termos mudado de terminal e eu não estar familiarizada. Imagina se ele perde o voo!”

Lembrei-me de episódio do tempo da faculdade de medicina, talvez em 1966 ou 1967. Fazia parte da diretoria do Diretório Acadêmico Januário Cicco e decidimos trazer Chico para se apresentar em festa patrocinada pelo Diretório, em Natal. Mesmo em início de carreira, Chico já era sucesso.

Terminada a apresentação na sede social do ABC Futebol Clube, fomos todos para a Tenda Cigana, ponto de encontro dos estudantes, onde serviam vários tipos de “batidinhas”. Lá estávamos Zeca Passos, já falecido, presidente do diretório, eu, João Bosco Barbalho (também falecido), Ivo Barreto, Gustavo Ribeiro, Gotardo Fonseca, Berilo de Castro, hoje, renomados médicos em Natal. Ao nosso lado, o grande Chico, descontraído e conversador.

Conversa vai, bebida vem, lá para as tantas, Bosco resolve provocar Chico para que ele cantasse alguma coisa para registrar e animar e registrar o encontro. A cada pedido, Chico, sempre muito simpático, abria um largo sorriso, mas nada de cantar. Seu violão continuava ao lado do tamborete em que estava sentado, mas preferia conversar e saber mais sobre o movimento artístico em Natal.

Depois de reiterados pedidos, João Bosco apelou! Virou-se para Chic0 e, irreverente, falou: já que você não quer cantar, me dê seu violão que eu mesmo vou cantar. Dito e feito. Chico não cantou, mas passou o violão para o companheiro de noitada, que cantou, sem constrangimento, as primeiras horas da manhã. Depois, deixamos Chico no hotel e, infelizmente, nunca nos encontramos pessoalmente.

Muitos anos depois, minha esposa identificou Chico na primeira classe de voo entre Rio e Brasília. Pediu licença para se aproximar do artista e ouviu da aeromoça que ela não tinha esse poder de decisão, mas que ela tentasse, por conta própria. Foi o que Sandra fez. E voltou feliz com a maneira como Chico a recebeu. De quebra, ainda trouxe autógrafos do cantor para alguns amigos mais próximos que nunca teriam a oportunidade nem o privilégio de uma conversa pessoal com o cantor.