Laboratório político

O vice-presidente Michel Temer reclamou do vazamento de uma carta que enviou à presidente Dilma Rousseff. Nada de extraordinário existia na missiva que foi apresentada como forma de desabafo, mas com o intuito de sinalizar o rompimento do PMDB com o Governo Federal. Para os petistas, a divulgação do documento partiu de assessores de Temer que reclamam do gabinete da presidente como sendo o principal responsável pela publicação dessa carta. Passados os primeiros momentos a turma do deixa disso representada pelo ministro Jacques Wagner conseguiu agendar para ontem à noite o encontro entre os dois reclamantes, Dilma e Temer. A primeira é tida como arrogante. O segundo, como conciliador. No episódio, para efeito externo, o ex-presidente Lula não foi convocado para a pacificação que se faz necessária.

Para bom entendedor, a atitude de Michel Temer não tem retorno. Não por conta de estar na linha de sucessão, no caso do impeachment de Dilma. Demonstrando sua capacidade de articulação, em poucas horas substituiu o líder do PMDB na Câmara dos Deputados que estava negociando com o Planalto sem a participação dos dirigentes maiores do partido. O ex-líder foi vítima da presidente que o cercou de atenções e de perspectiva de força política. Mais uma vez o PT precisa do apoio do PMDB para evitar que o impeachment da presidente Dilma seja aprovado. Para conseguir êxito o PT terá que convidar o ex-presidente Lula para participar dos entendimentos. Aliás, Lula havia advertido reiteradamente da necessidade do PT substituir a estratégia do ataque, mantendo o discurso de oposição contra todos os demais partidos.

Supondo que o Planalto seja o responsável pela divulgação da carta para constranger Temer, a reaproximação será mais difícil ainda. Dilma e Temer sabem quem foi o verdadeiro responsável. A gravidade do episódio fica por conta da crise existente por toda parte. Os líderes ressaltam que o enfrentamento dos problemas mostra que a democracia está solidificada. Na prática, significa dizer que o STF também faz parte das negociações, pois quase tudo está tendo a palavra final nas decisões do Tribunal. É bom que a conversa de ontem à noite tenha obtido resultado, mas, antes, Temer declarou que está quieto em seu canto, mas não param de insinuar e vazar para a imprensa que não têm confiança nele, que está conspirando e que participa de um golpe contra Dilma. Fácil entender a carta.

Em Mossoró, a política é sempre assunto dominante. O desgaste do prefeito faz com que muitos se animem a disputar sua sucessão. Na década de 1970, o colunista político do Diário de Natal fazia projeções diárias capazes de convencer os eleitores da possibilidade das ideias apresentadas. Por isso é que se dizia que o jornal possuía um verdadeiro laboratório para a formulação de ideias políticas, conchavos, possibilidades reais e imaginárias. Atendia a todos os gostos. Em Mossoró, pode-se ver que a prática está sendo utilizada largamente. A diferença é que não se trata de apenas um analista, mas vários deles que projetam suas receitas que desejam ver formuladas para as eleições de 2016. Pode não estar dentro da realidade, mas, na pior das hipóteses, serve para orientar aqueles que desejam participar do processo eleitoral.