Katharina Gurgel

A cantora e produtora cultural Katharina Gurgel nasceu em Natal em 1973, época de efervescência na Música Popular Brasileira. Traz na sua formação musical raízes estritamente nacionais, tais como: Elis Regina, Gal Costa, Caetano Veloso, Tom Jobim, João Bosco, e outros. Desde cedo mostrou interesse pela musicalidade, tendo geneticamente herdado esse dom musical e poético dos avós, Glorinha Oliveira (avó paterna, cantora da Rádio do Estado) e Deífilo Gurgel (avô  materno, grande folclorista e poeta). Produtora cultural, tem realizado importantes projetos em Mossoró. Nesta entrevista vamos falar sobre esta genética privilegiada, sobre arte, música e cultura de um modo geral.

Por: Caio César Muniz
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O Mossoroense: Você é neta da cantora Glorinha Oliveira. Nos fale do seu convívio com ela e como ela está atualmente?
Katharina Gurgel: Bem, meu convívio com Glorinha, infelizmente, não foi tão constante, como gostaria que fosse. Pelas circunstâncias da vida, só me aproximei mais dela lá pelos meus 16 anos, quando passei a admirá-la ainda mais. Ela é a minha avó por parte de pai, eu me pareço muito com ela, somos desbocadas e apaixonadas pela música. Hoje em dia, a tenho como referência na música do Rio Grande do Norte e carrego dentro de mim um orgulho muito grande de ser neta dessa que é a maior cantora do Estado. Sempre levo as meninas (minhas filhas, Luiza e Bia) lá na casa dela em Natal e ela faz uma sobremesa de abacaxi para as meninas, deliciosa! Viva Glorinha!

OM: Se por um lado você tem Glorinha como avó, do outro você tem o historiador Deífilo Gurgel como avô. Que lembranças você traz dele?
KG: Todas as lembranças mais especiais e lindas que você possa imaginar. Eu o amava profundamente, ele foi mestre em relação à cultura e ao povo. O seu olhar atento, sua voz pequena e ao mesmo tempo segura, sempre me hipnotizou. Sou filha de Kátia, a mais velha de nove filhos, todos num caso permanente com a arte e cultura. Ele sempre me perguntava as novidades de Mossoró e o que tinha de novo no cenário musical. Sempre cantava algum trecho de uma música nova e quando cantava, ele fechava os olhos, sorria e sempre falava no final: você é a maior cantora do Brasil. Gigante, esse meu avô!

OM: Afora a área musical, você é uma produtora sempre ativa. Como vê o cenário cultural mossoroense atualmente?
KG: Tenho a Lube Produções e Eventos, que normalmente produz eventos no teatro. Já produzi o Projeto Seis e Meia, grandes espetáculos teatrais, shows musicais, mas hoje em dia carrego certa tristeza, talvez desânimo com a área cultural. Existe a plateia, isso é um fato, mas falta incentivo, espaço, estímulo. Precisaríamos ter uma parceria mais firme e próxima com o poder público. Somos um município riquíssimo em talentos, em todas as áreas, mas nos falta também uma união dos próprios artistas e fazedores de cultura em prol de um mesmo fim e visibilidade. O nosso patrimônio material e imaterial precisavam ser mais valorizados, merecemos isso.

OM: Mossoró tem ficado de fora de um circuito de bons shows que sempre acontecem em Natal e Fortaleza. Quais as dificuldades de trazer estes espetáculos para cá?
KG: São simples as dificuldades: falta de parceria do poder público; falta de entendimento do empresariado local no que se refere ao que seja um apoio ou patrocínio; falta de um aeroporto que viabilize e agilize a vinda de grandes artistas, que normalmente têm a sua agenda toda preenchida e não pode perder tempo andando quase 600km de carro; falta de espaço físico. Temos o Teatro Municipal Dix-huit Rosado, um dos mais bonitos do Brasil, que impressiona artistas de todo o país que passam por Mossoró, mas que, infelizmente, está passando por um momento difícil, necessitando urgentemente de melhorias e manutenção na sua estrutura. Torço por Mossoró e pela nossa cultura.

OM: O Projeto Seis e Meia ainda teria viabilidade nos dias atuais? O que seria preciso para retomá-lo?
KG: Quando se quer, tudo se consegue. O Projeto precisa do apoio fundamental do Governo do Estado e da Prefeitura local para que se promova, com preços acessíveis (que é a proposta do projeto), para trazer grandes nomes da nossa MPB, além de lançar e valorizar os artistas locais, que participam sempre do projeto. A parceria dos empresários locais também é fundamental.

OM: Que projeto você destacaria dos muitos que já idealizou?
KG: O “Brasileiras – Na Era do Rádio”, que na época idealizei e realizei junto com Toinha Lopes, no qual fizemos mais de 20 apresentações em todo o Estado, lotando absolutamente o Teatro Alberto Maranhão, em Natal; e o meu projeto atual, o “Músicas Para Roer”, que está me deixando completamente apaixonada.

OM: Você também teve uma participação na Secretaria de Turismo de Mossoró. Como foi esta participação e como você avalia este segmento na cidade?
KG: Trabalhei alguns anos na Secretaria de Turismo e o que tiro nitidamente dessa experiência é a certeza do potencial de Mossoró e região para o turismo, e que ainda não é explorado, trabalhado e enxergado da forma que merece.

OM: Seu novo projeto é o espetáculo “Músicas Para Roer”. Como surgiu a ideia?
KG: Amo uma mesa de bar. Amo música que nos toca. Amo letra sofrida. Estava com saudade de cantar já fazia um bom tempo, então um dia, com uma turma numa mesa de bar, claro, pensei, porque não fazer um show onde todos pudessem cantar junto, roer junto? “Músicas Para Roer” é um show que fala de amor.

OM: Vem uma nova apresentação do mesmo show aí? Como foi a primeira e quais as expectativas desta nova edição?
KG: Dia 12 de dezembro estaremos com o “Músicas Para Roer” no Candidu’s do Abolição, um sábado. A primeira apresentação, que surpreendentemente lotou o teatro, foi emocionante. Nunca esquecerei o som da plateia cantando junto cada canção. O cenário, a iluminação, o som, saiu tudo melhor do que eu esperava e a reação do público reafirmou o meu compromisso comigo mesma, de fazer e levar cultura. Nessa apresentação gravei o show e agora, no dia 12, estarei lançando o CD no Candidu’s. Um trabalho bem bacana!

OM: Considerações finais.
KG: Sou uma pessoa que sempre carrega a fé e a esperança na bagagem. Acredito na vida e nas pessoas. Acredito que as mudanças sempre acontecem. Vamos falar sobre cultura, todos! Vamos nós, produtores culturais, cantores, músicos, atores, artistas plásticos, bailarinos, escritores, amantes e fazedores de cultura e da arte, todos juntos, discutir, conversar, escrever sobre a nossa cultura atual e onde precisamos melhorar. Todos juntos somos bem mais fortes. A verdadeira identidade de um povo está na sua cultura, e vamos mostrar a beleza da nossa!