José Bezerra

O fotógrafo José Bezerra é um dos mais premiados do Rio Grande do Norte, mesmo tendo iniciado de fato na profissão há apenas oito anos. Aos 34 anos, o mossoroense tem levado a fotografia quase como uma filosofia de vida e já serviu inclusive de inspiração para tema de documentário. Nesta entrevista, falamos sobre a sua descoberta para a arte fotográfica, sobre equipamentos e métodos e sobre o cenário atual da fotografia no Estado.

Por: Caio César Muniz
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O Mossoroense: como começou o seu interesse pela fotografia?
José Bezerra: Minha relação com a fotografia é bem recente. Eu iniciei em 2007, quando comecei a fotografar de fato, na época com um aparelho celular. Mas um pouco antes eu já tinha algum interesse. Eu pintava, também gostava de escrever, mas naquela época eu comecei a amadurecer a mente para entrar na fotografia. Eu sou de uma geração que quer tudo rápido, aí os textos eu não produzia com tanta frequência, os quadros também é algo muito demorado, então a fotografia tem esta magia do instantâneo, ainda mais hoje, com as mais diversas tecnologias acessíveis a todo mundo.

OM: O que você imaginava na época e como adquiriu o conhecimento sobre fotografia?
JB: Eu queria contar histórias. Fazer narrativas por meio da fotografia. E aí este interesse por uma nova linguagem desperta em você outro interesse: o de ter que me alfabetizar. Eu comecei a estudar as formas, as linhas e geometria, então o celular passou a ser não mais do que uma forma de captar estas linhas: um canto de parede, por exemplo. Quando você fotografa, você representa a fotografia em um mundo em duas dimensões, mas você fotografa um ambiente de três dimensões, então tem esta diferença entre os planos, você está sempre se expressando com uma dimensão a menos. Para quem está de fora e não tem uma percepção, pode parecer uma viagem, mas é uma coisa bem lúcida. É preciso entender estas geometrias. Para fazer uma boa fotografia você precisa entender estes elementos.

OM: Teve alguém que lhe serviu de referência?
JB: Na verdade o exercício das formas é muito autoexplicativo. Na época eu apenas lia coisas de geometria, mas a questão da influência já partiu em outros momentos. Eu já tinha o domínio das linhas e procurava a questão do entendimento das narrativas. Aí eu procurei os tutoriais, hoje com o advento da internet eu já sabia onde eu ia buscar isto. Eu uso o “internetês” desde 1997, então eu procurava “Top 10 fotógrafos”, eu fui lendo estas listas e me influenciando pelos primeiros nomes destas listas. Tudo bem, que nem todas são confiáveis, mas se você encontra determinado nome em vinte destas seleções, você já tem um padrão a seguir. Henri Cartier-Bresson, por exemplo, era unanimidade quando se falava em fotojornalismo e é um cara que eu sempre buscava ver. Ele é praticamente o pai do fotojornalismo.

… não imagine que por você comprar um equipamento caro, você vai, por esta razão, fazer boas fotos. O equipamento por si só, ele não pensa.

OM: Como você define seu trabalho?
JB: É uma fotografia documental. Eu estou entre o fotojornalismo e a arte. Porque é muito complicado você ter que registrar uma cena que tem uma etnografia, que tem este intuito de documentar, de mostrar uma realidade e você não tem como fantasiar estes elementos. Se você está tentando mostrar uma realidade, você tem que estar o mais próximo possível da realidade daquele lugar, ser fidedigno. Aquele homem de chapéu de palha, mascando fumo, isto quase não existe mais. O que se vê muito hoje em dia é o camarada de boné, camisa de candidato, toda esta gama de situações do contexto atual.

OM: Qual o segredo para uma boa fotografia? Existe um segredo?
JB: Existem caminhos para se chegar. Um deles, que é o que eu procuro seguir, é a imersão. Ou seja, eu vou para um lugar com o propósito de retratar aquele contexto e, como o próprio nome diz, por um curto espaço de tempo ou pelo tempo que eu determinar, passo a vivenciar a realidade daquele lugar, do amanhecer ao anoitecer. Estando ali, eu não tenho só a necessidade de fotografar, mas também de entender aquela realidade, e dentro daquilo que você encontra de melhor para si, você encontra também inspiração. Inspiração para um bom texto, para outras coisas e também para uma boa fotografia.

OM: Até onde o equipamento é responsável por uma boa fotografia?
JB: O equipamento conta a depender do que você quer, do que você precisa. Por exemplo, se eu vou para um ambiente de baixa luz, pouca luminosidade e se eu não tiver uma boa lente, vai ficar muito complexo se eu quiser nitidez. Se não for isto que eu queira, se eu quiser uma foto granulada, eu posso usar uma lente mais simples ou até um celular. Então, com uma boa lente, com boa abertura, construída com bons elementos, consequentemente uma peça cara, você, logicamente, consegue uma melhor qualidade na fotografia. Hoje os celulares são uma porta de entrada muito oportuna. Mesmo que você não precise de fotografia, os celulares vêm equipados com sensores interessantes, com lentes razoavelmente boas. Existem também as máquinas intermediárias, com alguns megapixels a mais que os celulares que dá para realizar bons trabalhos, dependendo do que você deseja. Agora, não imagine que por você comprar um equipamento caro, você vai, por esta razão, fazer boas fotos. O equipamento por si só, ele não pensa. A boa foto depende muito do fotógrafo.

OM: Mossoró tem conseguido um grande destaque na fotografia, arrebatando prêmios por todo o Brasil. A que se deve isto?
JB: Creio que o debate. Quando a gente se reúne e conversa sobre uma determinada atividade, a tendência é evoluir, melhorar. É preciso se comunicar e o reflexo desta comunicação é justamente estas premiações. Está havendo um conhecimento partilhado e isto está beneficiando a várias pessoas.
OM: Você foi inspiração para um documentário recente do cineasta Pedro Medeiros. Como foi esta experiência?
JB: Eu conheci o Pedro em junho do ano passado em Lajes/RN. Alguns meses depois ele me sugeriu a ideia de lançar um “vídeo-retrato”. Um trabalho de 2 minutos e meio contando o perfil de determinada pessoa. Nós gravamos em um final de semana, gravamos bastante coisa e ele conseguiu sintetizar tudo isto em 12 minutos e 35 segundos. Duas ou três horas de conversa e ele fez a magia do cinema acontecer.

OM: O Rio Grande do Norte tem um movimento intenso nesta área de audiovisual, mas se percebe que as ações são muito individualizadas ou senão de grupos alternativos. Como você vê a questão dos apoios a estes projetos?
JB: É muito difícil falar sobre isto porque é algo muito burocrático. O meu trabalho, por exemplo, sou eu quem banco. Assim eu tenho a liberdade de fazer exatamente o que eu quero e de mostrar o que eu penso. Eu já tenho uma receita, por meio da fotografia, mas também sou analista de redes, que é a minha principal atividade. Nós já elaboramos alguns projetos, mas tem sempre aquela dificuldade. Nós temos que continuar produzindo, não podemos depender somente disto.

OM: O que é a fotografia para você?
JB: É um caminho de autoconhecimento. O livro “A Arte Cavalheiresca do Arqueiro Zen”, de Eugen Herrigel, deixa isto muito claro ao mostrar que o zen da filosofia zen, você tem que ter uma atividade associada como caminho a trilhar dentro daquela habilidade para coadunar com o conhecimento que você vai absorvendo. Então, na medida que você vai adquirindo conhecimento de vida, a fotografia ajuda a canalizar, boa parte destas informações de uma forma mais artística. Eu sempre procuro colocar arte dentro da foto, sem descontextualizar, sem colocar elementos que não existam.