João de Deus é condenado a 19 anos de prisão por crimes sexuais

João Teixeira de Faria, conhecido como João de Deus, foi condenado a 19 anos e quatro meses de prisão nesta quinta-feira (19), por crimes sexuais cometidos contra quatro mulheres. Os abusos ocorreram durante atendimentos espirituais na Casa Dom Inácio de Loyola, em Abadiânia (GO).

Esta é a primeira sentença relacionada às mais de 300 denúncias de estupro contra o médium recebidas pela força-tarefa do Ministério Público de Goiás (MP-GO), responsável pelo caso. Ao longo do último ano, o órgão apresentou 13 denúncias contra João de Deus, sendo 11 por violações sexuais.

Na decisão proferida nesta quinta-feira (19), a juíza Rosângela Rodrigues afirmou estarem comprovados dois casos de violação sexual mediante fraude e dois de estupro de vulnerável.

Famoso pela realização de “cirurgias espirituais”, Teixeira de Faria já atendeu políticos e celebridades do mundo inteiro e está detido desde 16 de dezembro do ano passado no Complexo Prisional de Aparecida de Goiânia, na região metropolitana da capital de Goiás.

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A avalanche de acusações contra o líder espiritual vieram à tona após reportagem do programa Conversa com Bial publicada no dia 7 de dezembro de 2018, no qual brasileiras e estrangeiras denunciaram terem sido abusadas durante os atendimentos espirituais. Ele, por sua vez, nega os crimes.

Segundo informações do MP, as vítimas que formalizaram as denúncias no último período foram abusadas entre 1973 e 2018. Ou seja, o médium teria violentado pacientes espirituais ao longo dos últimos 45 anos.

Das 319 mulheres que procuraram a Promotoria, 194 formalizaram as acusações e ao menos 15 alegam terem sido vítimas antes dos 13 anos.

Em entrevista ao Brasil de Fato, Ana Paula São Tiago, vítima de João de Deus, comemora a decisão. “É uma sensação de justiça sendo feita. É um alívio muito grande. Eu estou muito feliz porque João de Deus era uma pessoa intocável, muito poderosa. Ele destruiu muitas mulheres e, graças a Deus, é só a primeira condenação de muitas que ainda virão”, declara a estilista de 37 anos.

De família espírita, Ana Paula São Tiago foi a Abadiânia em agosto de 2006 para que seu pai passasse por um tratamento espiritual para enfrentar um tumor no cérebro. Ela teria sido informada por João de Deus que, para que seu pai se curasse, seria necessário realizar trabalhos espirituais contínuos na Casa de Dom Inácio de Loyola.

Menos de um mês depois, aos 23 anos, Ana Paula sofreu o primeiro abuso sexual cometido pelo médium. Ela relata ter sido vítima de manipulação. As violações se repetiram ao longo dos sete meses seguintes.

Mais de quinze anos depois, ela conta que recebeu a notícia da condenação do médium por meio de um morador de Abadiânia que trabalhou durante muito tempo ao lado de João de Deus, mas se afastou quando soube dos abusos.

“É muito gratificante  perceber que existe um movimento em que as mulheres estão falando estão. Nós estamos nos unindo. Os estupradores, abusadores não passarão. Eles não ficarão impunes”, ressalta Ana Paula.

 

Gabriela Manssur, promotora do Ministério Público de São Paulo (MPSP) que acompanhou as denúncias de vítimas da capital paulista, afirma ter recebido a notícia da condenação de João de Deus com muita alegria e satisfação.

“A Justiça foi feita proporcionalmente a gravidade dos fatos. Era o que a sociedade brasileira esperava. Era o que as mulheres abusadas esperavam. Era o que eu esperava porque arrisquei a minha vida.  Paguei um preço alto por isso, inclusive na minha vida pessoal. Sou uma pessoa diferente depois dessas denúncias do caso do senhor João de Deus”, diz Manssur.

Além da promotora, ativistas e pessoas relacionadas às denúncias que desmascararam os crimes do médium também afirmaram sofrer ameaças e coações.

“Mas eu não me arrependo de nada porque pra ser promotora de Justiça tem que ser corajosa, independente e comprometida com a sociedade brasileira. Vamos aguardar os próximos resultados”, continua.

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Em novembro deste ano, João de Deus também foi condenado a quatro anos de prisão em regime aberto por porte ilegal de armas de fogo.

“A condenação demonstra que a confiança depositada pelas vítimas no Ministério Público e no Poder Judiciário não foi em vão. Ainda, o Ministério Público do Estado de Goiás continua trabalhando na instrução das ações penais em curso e para o oferecimento de novas denúncias, buscando justiça com relação a todas as vítimas”, disse a força-tarefa do MP-GO, por meio de nota.

A reportagem do Brasil de Fato contatou o escritório responsável pela defesa de João Teixeira de Faria e foi informada que Anderson Van Gualberto, advogado do médium, não iria se pronunciar no momento.

Brasil de Fato