sábado, 31 de janeiro de 2026
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I love you, blue e star…

Vanda Maria Jacinto*

 

Interessante como, mesmo sem querer, uma coisa nos leva a outra. Dia desses, estava eu vendo um videoclipe de uma banda estrangeira e, enquanto acompanhava o ritmo na base do lá, ri, lá, rá…, lembrei-me de um fato ocorrido há algum tempo.
Enquanto supervisora de uma escola particular aqui da cidade, fui convidada para atuar junto ao Ensino Médio. Diga-se de passagem, na época, não sei hoje, um trabalho difícil de se conduzir a contento, haja vista alguns professores se autodenominarem capazes o suficiente ao ponto de dispensarem a ajuda do supervisor ou do coordenador escolar.
Tudo caminhava bem, até que chegou o final do bimestre em curso.
Por mais que solicitasse a agilidade nas correções e preenchimento dos diários, não vinha sendo atendida. Reunião de pais, já agendada, e faltava ainda receber alguns resultados. Passavam ligeiros os dias e eu, ainda aguardando já meio impaciente os diários de classe do último retardatário: o professor de Língua Inglesa. Cansada e correndo contra o tempo, tentei entrar em contato com ele, mas sem sucesso. Sim, porque alguns professores, tal qual estrelas cadentes, eu raramente os via. Era o caso dele. Desesperada, falei com a direção que se prontificou em resolver o problema o mais rápido possível.
De fato, no dia seguinte, muito simpático, o professor me procurou e, colocando em cima da minha escrivaninha um calhamaço de avaliações, disse:
— Pronto, professora. Aqui estão as minhas avaliações!
Sem entender o significado daquela ação, perguntei:
— Como assim? O que tenho a ver com suas avaliações? Preciso apenas dos seus diários devidamente organizados, para que eu os possa corrigir.
Ele quase se engasgou com a água que bebia e, apressado, foi logo esclarecendo que a outra supervisora é quem fazia as correções das avaliações. Segundo ele, dava-lhe o gabarito, e o resto era brincadeira, ela tirava de letra.
Não sei se fui grosseira, mas, incrédula e tranquila, olhei bem em seus olhos e perguntei:
— Professor, o meu embasamento da Língua Inglesa se resume em poucas palavras: I love you, blue e star. Você acha suficiente para eu fazer a correção das suas avaliações? Se sim, pode deixá-las aqui que eu corrijo.
Engolindo a água mais devagar, ficou me olhando meio que estático. Aproveitei o ensejo e esclareci que, na instituição, cada um procurava dar conta do próprio trabalho, que, por sua vez, estava relacionado a sua formação profissional, o que dificultava assumir outros compromissos em áreas diferentes das suas; portanto, infelizmente, não tinha como ajudá-lo.
Reconhecendo que, de fato, a responsabilidade era totalmente dele, me pediu desculpas, colocou a papelada embaixo do braço e saiu desconfiado. Tudo ficou resolvido.
Doravante, quando eu o encontrava pelos corredores, brincava dizendo: — I love you, teacher! Acrescentando, com um sorriso: — Aprendi mais uma palavrinha! Ele apenas sorria com minhas gaiatices.
Reconheci, na ocasião, a necessidade de aprender um outro idioma. No entanto, sabedora dos meus limites temporais, não via alternativa plausível.
Mas a verdade é essa: nem sempre estamos aptos a acompanhar ou se igualar no que diz respeito a conhecimentos alheios mais abrangentes. Estamos cada vez mais especialistas e celetistas, focados apenas numa área de atuação. Cada um sabe o porquê dos seus limites. O mais importante no convívio com o próximo é não apenas reconhecê-los, mas, acima de tudo, respeitar o dos outros para que não haja constrangimentos.
Nada contra outros idiomas. Louvo até quem consegue aprender — mesmo depois dos vinte — uma segunda ou mais línguas, o que não é o meu caso!
A maior parte das músicas que eu ouço são estrangeiras, o que não quer dizer que eu saiba outros idiomas, nem deixe de apreciá-las por causa disso. Num primeiro momento, eu me deixo levar pela melodia, só depois procuro traduzir e comparar a letra com o sentimento passado na musicalidade em si. Quando não consigo acompanhar a letra, o meu “lá, ri, lá, rá…” me satisfaz.
Quem sabe ainda arrumo um tempinho e aprendo inglês pelo menos.

Vanda Maria Jacinto
Escritora, autora do livro Rabiscando os caminhos da prosa.
[email protected]

 

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