Histórias do mal e do bem contadas por dona Estela

Gutenberg Costa – Escritor e folclorista.

Tenho total certeza, se minha mãe, não tivesse fugido aos seus quatorze anos de idade, de Pendências/RN para a grande capital do Estado. Menina ainda agarrada as suas bonecas que veio para casar com meu pai, esta teria fugido em um circo daqueles tempos, para ser uma grande atriz circense. Ou quem sabe uma grande e famosa contadora de histórias em teatros e casas de espetáculos. Dona Estela, mudava de voz e até imitava todos os trejeitos dos personagens de suas histórias. E para exemplificar aos seus sete filhos, que não se devia praticar o mal e só fazer o bem, sem olhar a quem, a mesma contava alguns exemplos reais de pessoas de seu tempo vivido na sua querida cidade.

O mal quando é feito, quem paga o pato é o diabo. Aquele velho de chifres de boi, pés de pato, barbicha de bode e rabo de jumento. As Igrejas continuam lhe jogam tudo nas costas, sem lhes dá o sagrado direito de defesa. E eu não aceito acusação sem uma explicação, já que sou bacharel em Direito. E o que o dito ‘tinhoso’ tem a ver com as maldades da famigerada Flor de Liz, João de Deus e o ex-vereador carioca Jairinho, entre outros milhares de gente ruins do mundo? Dizem que o tal do diabo, até se envergonha de certos personagens que vivem nesse mundo!

A maldade humana também está representada nos exemplos repassados pelo famoso português Gonçalo Fernandes Trancoso, as suas famosas histórias, conhecidas como as ‘histórias de trancoso, que ouvimos em nossas infâncias: Havia um rei que era muito mal para seu povo… houve uma rainha que era muito boa naquele castelo. Muita coisa que é ainda repassada pela oralidade popular dos nossos raros contadores de histórias do sertão. Estudo sério, já trabalhado pelo mestre Câmara Cascudo, entre outros.

Domingo passado, como costumeiramente faço, estava ouvindo em uma de minhas radiolas o belo samba ‘Juízo Final’, do genial compositor e cantor de voz fanhosa, nosso Nelson do Cavaquinho, um dos gênios da nossa MPB. Ainda bem, que pelo menos, na referida canção o amor e o bem prevalecem. Dizem que são Jorge, o guerreiro do bem, venceu o dragão da maldade. Tanto o mal quanto o bem estão na Bíblia e no Alcorão, que tenho em minha biblioteca, bem como, nas antiguíssimas lendas e fábulas repassadas por Esopo e La Fontaine.

Vou iniciar aqui pelo mal, segundo dona Estela: eu era criança de cinco anos de idade e me recordo muito bem de um velho pedinte de porta em porta em Pendências. Era ´seu’ Zé Pedro, um negro cego e aleijado, que andava arrastando a bunda pelo chão quente. Chegava na casa de meus avós maternos, com roupas rasgadas e sujas. Muito suado, cansado, fedorento e com fome e logo era recebido por minha santa avó, dona Francisquinha, com água fria de pote e um farto almoço. O pobre era cego e deficiente e como diz o povo, além de queda, coice! Um dia minha genitora, contou-me sobre o passado do tal sofrido mendigo assim: “Esse Zé Pedro, que todo mundo diz ter pena foi um menino muito malvado e traquino. Bom atirador de baladeira nos pobres passarinhos. Quando não os matavam na sua maldade, os furavam os olhinhos e os soltava, dando risadas estridentes. Pegava os sapos e quando não os matava a pedradas, jogava sal nas costas deles… se eu for lhe contar todas as crueldades do cego Zé Pedro, eu não vou fazer nada por três dias”. E minha mestra filósofa e influenciadora religiosa do meu passado fechava a sua história com chave de ouro e bem séria: “Tá vendo meu filho, quem pratica o mal na meninice, como pode terminar na velhice. Aqui se faz e aqui mesmo se paga!”.

Outro exemplo era a de um filho malvado, com sua pobre velha e boa mãe. Eu não cheguei a conhecer o filho maldoso, que foi o tal ‘Gonçalo’, mas fui muito na casa da sua mãe, dona Lina, a pobre sofredora das maldades do filho. Diziam que este batia sempre na magrinha e santa sua genitora, inclusive em uma das vezes, jogando-a com força contra a parede, esta fura a cabeça em um prego que estava fincado na parede. Os vizinhos a vinha socorrer e a mesma perdoava o amado filho. Um dia, minha dona Estela, contou-me o fim do referido finado Gonçalo: “Gonçalo bebia muita cachaça e em um carnaval lá em Pendências, o mesmo raspou a metade do cabelo da cabeça e a metade da barba e se vestiu igual a figura do diabo. Pouco tempo depois, ele passou a gritar e gemer alto, dizendo a todo mundo que estava rodeado de um monte de capetas. De repente ele tomou um forte veneno e morreu se esvaindo em sangue e pedindo perdão a velha Lina, sua mãe. Quem é mal filho quando criança, será um adulto muito mal. Mal amigo, mal esposo e mal pai. Mal vizinho com certeza. Será eternamente um amaldiçoado em tudo que for fazer”. Tenho outras histórias do mal na cachola, mas deixemos para depois…

Vamos agora a uma história do bem por mim vivida. Eu já estava trabalhando de vendedor ambulante de mil coisas, de porta em porta nos bairros da cidade de Maceió, Alagoas, com meus 17 anos, em 1977 e um belo domingo de sol resolvi ir ficar conversando em um restaurante, próximo a hospedaria, aonde eu estava. A empresa atrasara o meu pagamento e só havia tomado o café da manhã. O veredicto da pensão era que a partir daquele domingo não mais serviria almoço e jantar. Só a dormida e o café da manhã. Minha chorosa mãe, distante em Natal, nem sonhava que seu filho caçula se encontrava quase as 15 horas, sem almoçar.

Conversa vai e conversa vem, um senhor muito rico, empresário, que estava sozinho comendo e bebendo suas cervejas perto de mim, me chama para sua mesa e a nossa conversa foi se alastrando, feito o homem da mala da cobra de feira antigamente: “Meu jovem estou vendo você meio amarelado de fome, peça um almoço com suco e sobremesa que eu pago. Quando criança eu era de família muito pobre. Eu carregava água do rio em dois galões pesados para abastecer as casas dos ricos da minha cidadezinha. Um dia chorando fui bater na casa de meu padrinho de batismo e lhe pedir que pelo o amor de Deus, ele me ajudasse a sair daquela seca e ele no mesmo dia, deu-me dinheiro para eu comprar roupas, malas e uma boa ajuda para eu viajar para Natal. De lá fui trabalhar e estudar em Recife. Depois vim para Maceió e me casei com uma mulher de família muito rica. Hoje sou empresário bem sucedido. Só tenho uma grande dívida com meu padrinho que nunca voltei para pagar o grande favor que me fez. Soube que ele já morreu, só é viva a minha madrinha, também uma santa mulher muito caridosa com os pobres daquela região!”.

Como o mundo é pequeno, diz o sábio povo. Quando lhe perguntei qual era essa sua cidade, o resultado foi um surpreso choro de nós dois, ali na hora e na frente de todo mundo do dito restaurante. Este leu na minha identidade retirada do bolso, o nome de minha mãe e meu pai e aos soluços foi me dizendo ainda espantado: “Meu filho, não é possível que isto esteja acontecendo. Conheço seus pais. Sou nascido em Pendências e seu avô materno era este meu padrinho de batismo da minha história a pouco lhe contada. Foi o homem que me ajudou a mudar de vida. Sou hoje o que sou, graças a seu avô Hermógenes Medeiros, que era muito rico, dono de fazendas, automóveis e até salina”. E chamando o dono daquele restaurante aos gritos, lhe deu a seguinte ordem, sem eu pedir-lhe nada: “Amigo a partir de agora, tudo que este jovem quiser aqui para comer, beber e até dinheiro se precisar pode botar na minha conta, que eu jamais pagaria o imenso favor que o avô deste aqui me fez quando eu tinha a idade dele. Pelo amor de Deus, não deixe lhe faltar nada”. Nem precisa dizer-lhes que a promessa do conterrâneo de minha mãe, foi totalmente comprida até o último dia em que eu estive trabalhando em Maceió/AL.

Recusei, apesar das insistências do homem rico em ficar morando na capital de Alagoas. Quem sabe se a minha história hoje não seria bem diferente dessa atual. Poucos meses em que eu ia completar meus dezoitos anos e atendendo aos apelos de minha mãe, eu voltei para a minha amada Natal. Quando lhe contei em detalhes, a dona Estela, contadora de histórias sobre o mal e o bem, aos soluços me dissera o seguinte: “Conheci muito o menino João, ele era muito bom, trabalhador, bom filho e muito honesto. Todo mundo em Pendências gostava muito dele. Taí um exemplo de quem faz o bem em vida. Ele pagou o bem que meu pai fez a ele muitos anos depois. O bem foi pago a um neto do seu antigo benfeitor. Meu filho fique certo, que o mal só termina em mal e o bem em bem.

E minha mãe, a dona Estela, eximia contadora de histórias, se foi repetindo, quase que diariamente, o seu bordão filosófico para os filhos e netos que ficaram: Dessa vida nada se leva e aqui se faz, aqui se paga, de um jeito ou outro!

 

Mês de setembro, Morada São Saruê/Nísia Floresta/RN.

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