Gilberto Lóia

Se você viveu a Mossoró dos anos 80 e 90, certamente lembra do nome de Gilberto Lóia, ou Gilberto Pereira Melo, nome de batismo. Músico autodidata, Gilberto foi um dos responsáveis pela música ao vivo nos bares da cidade, principalmente da autêntica Música Popular Brasileira (MPB). Lóia também foi dono de um dos bares mais marcantes da noite mossoroense, o “Musical 145”. Há alguns anos longe da sua terra natal, encontramos o artista para um bate-papo exclusivo sobre suas andanças e suas lembranças.

Por: Caio César Muniz
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O Mossoroense: Você é um artista autodidata. Como foi este seu “despertar” para a música?
Gilberto Lóia: Eu comecei a tocar violão com seis anos de idade, aos sete eu ganhei o meu primeiro instrumento musical e de lá para cá não parei mais. Meu primeiro emprego foi no jornal Gazeta do Oeste, depois trabalhei n’O Mossoroense, na diagramação, na época em que tudo era colado, mas nunca mais abandonei a música.

OM: O “Musical 145” foi um espaço em Mossoró que marcou época. Ainda hoje muita gente lembra e comenta sobre suas atividades. O que você poderia dizer a respeito e a quê você atribui esta marca tão forte?
GL: Na época surgiu a oportunidade de alugar o Chap-Chap, de Rogério Dias. Eu já tinha feito uma viagem a São Paulo, onde tive a oportunidade de me deparar com músicos que tocavam a nossa (MPB). Eu pensava que aquele tipo de música era só para ouvir, não era algo para se tocar em música ao vivo, como se fala hoje. Então, no Chap-Chap foi onde tudo começou, os músicos iam para se encontrar, principalmente eu e Gilberto Sousa. Acho que foi isto, uma marca, uma identidade. O Musical foi uma extensão do Chap-Chap. A nossa intenção era selecionar os clientes por meio da música. Lá só ia quem gostava de boa música.

OM: Da sua época, que nomes destacaria do cenário cultural e musical que ficaram marcados?
GL: Ah, tem muita gente boa: Flávio Robson, Sabiá, Alzinete, Zé Lima, Ivaniel. Nós nos reuníamos em torno da música e dali surgiu e ainda estão por aí muito bons artistas.
OM: Você andou um tempo longe de Mossoró. Por onde andava e o que tem produzido?
GL: Passei 21 anos fora de Mossoró, estive por aí: Minas Gerais, Espírito Santo, São Paulo e este anos faz 15 em Palmas, Tocantins. Sempre estive trabalhando com a música. É interessante como a nossa cultura é vasta e distinta por regiões. Temos bons músicos lá, e aqui ninguém nunca ouviu falar, assim como temos artistas daqui que não ouvimos por lá.

OM: Que impressões teve neste retorno a Mossoró?
GL: De cara eu fiquei impressionado como a cidade cresceu. Eu via alguma coisa pela internet, mas este desenvolvimento é de uma forma meio que desorientada. Muita coisa que eu deixei aqui naquela época foi destruído. O pensamento atual é muito individualista. O interesse parece que é só financeiro. O interesse é mostrar que a modernidade é o que funciona. Eu gosto de citar o exemplo do Japão. É um lugar onde é desenvolvida a maior tecnologia do planeta, mas com edificações com mais de cinco mil anos e todos vivendo em harmonia. Eles não deixaram de construir prédios imensos, mas os palácios milenares continuam lá, eles não destruíram e nem vão destruir.

OM: Em termos de cultura, o que mais lhe chamou a atenção?
GL: Eu percebi que hoje tem muitos bares, todos com música ao vivo, coisa que antigamente não havia. O que percebi é que as ações culturais estão partindo do povo. O povo é quem tem interesse em fazer a cultura acontecer. Os governos têm lavado as mãos.

OM: Você fez uma apresentação musical recente em Mossoró. Como foi a receptividade? Irá fazer outras?
GL: Eu estou voltando para Mossoró. Pretendo ficar de vez. Voltando, pretendo trabalhar com esta música de qualidade. Conscientizar as pessoas sobre este tipo de música, mas também mostrar coisas novas, porém boas. A apresentação foi ótima, muita gente da minha época, muitos amigos, mas também muito jovem.

OM: Com influências musicais na Bossa Nova, em nomes da nossa MPB como João Bosco. Como você vê o cenário musical brasileiro no momento?
GL: Eu digo sempre que eu escuto a música do mundo. Mas para tocar, eu continuo divulgando os mesmos nomes: Djavan, Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro, Pixinguinha, estas músicas não envelhecem e cabem em todo lugar. Dos nomes novos, incluí no meu repertório nomes como Marcelo D2 e O Rappa. Está faltando uma orientação musical para este geração de agora.