GERALDO MAIA DO NASCIMENTO: A GRIPE ESPANHOLA

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O Covid-19 tem atacado Mossoró de maneira brutal. Segundo o Boletim Epidemiológico da SESAP, com data de 30 de março de 2021, temos 3.637 suspeitos, 35.425 descartados, 16.176 confirmados, dos quais 13.579 foram curados, mas que até essa data há tinham havidos 342 óbitos. Um verdadeiro horror.

Tivemos no passado, outras Pandemias que atingiram a cidade. Uma delas foi a famosa Gripe Espanhola, que até hoje causa arrepios nos pesquisadores que se aprofundaram no assunto. É dela que trataremos hoje.

No período de 8 de outubro de 1918 a janeiro de 1919 o Município de Mossoró foi assolado pela Gripe Espanhola, uma pandemia do vírus influenza   que se espalhou por quase toda parte do mundo. Foi causada por uma virulência incomum e frequentemente mortal de uma estirpe do vírus Influenza “A” do subtipo H1N1.

A gripe espanhola apareceu no final da I Guerra Mundial e, em menos de um ano, matou milhões de pessoas. A epidemia foi tão severa que nos Estados Unidos, onde um quarto da população foi infectada e 675 mil pessoas morreram, a expectativa de vida caiu em 10%.

A denominação “gripe espanhola”, segundo alguns autores, surgiu na Inglaterra, em fins de abril de 1918. Duas são as principais hipóteses para essa denominação: a primeira partia do pressuposto errôneo de que a moléstia havia se originado na Espanha e/ou lá fizera o maior número de vítimas. Outra explicação afirmava que a Espanha, país neutro durante a I Guerra Mundial, não censurava as notícias sobre a existência da gripe epidêmica, daí a dedução equivocada de que a enfermidade matava mais naquele país.

A primeira notícia do vírus da gripe espanhola no Brasil foi de setembro de 1918, logo depois da chegada de um navio com imigrantes vindos da Espanha. Vários deles apresentavam sintomas da gripe. Outro relato dizia que alguns marinheiros sentiram estranhos sintomas a bordo de um navio ancorado em Recife. O fato é que no início de novembro de 1918 a doença já tinha alcançado vários pontos do Brasil. As cidades portuárias foram as que mais sofreram. No Rio de Janeiro, morreram 17 mil pessoas em dois meses. Os familiares, desesperados, jogavam seus mortos na rua com medo de contrair a doença. As avenidas ficaram cheias de cadáveres e presidiários foram obrigados a trabalhar como coveiros. Os bondes circulavam abarrotados de corpos. Na frente das principais igrejas, milhares de famílias se reuniam para pedir ajuda a Deus. Em São Paulo, foram mais de 8 mil mortos. Entre as vítimas da gripe estava o Presidente da República Rodrigues Alves. Eleito para cargo pela segunda vez, não pode tomar posse e morreu no dia 16 de janeiro de 1919. Os médicos, também alarmados, não sabiam o que receitar e indicavam canja de galinha. O resultado foram saques aos armazéns atrás de frangos. Os jornais afirmavam que o tratamento deveria ser feito à base de cachaça com limão ou uísque com gengibre. No Rio de Janeiro, o sanitarista Carlos Chagas comandou o combate à enfermidade. Em Porto Alegre foi criado um cemitério especialmente para as vítimas da gripe espanhola. Em todo o país foram cerca de 300 mil mortos.

Foi a maior epidemia da história, uma pandemia. Ao passo que a I Guerra Mundial, de 1914 a 1918, matou aproximadamente 8 milhões de pessoas, a gripe espanhola foi fatal para mais de 20 milhões de seres humanos de todo mundo. Nada matou tanto em tão pouco tempo. O vírus mutante da gripe assumiu características tão singulares em 1918, que a chamada influenza espanhola, até hoje, apavora quem procura entender o que aconteceu naquele ano.

O Município de Mossoró era administrado, nesse período, pelo farmacêutico Jerônimo Rosado, tendo como vice o médico Antônio Soares Júnior.  Diante da tragédia, mobilizou todos os recursos de assistência disponíveis, quer improvisando isolamento de doentes, quer pessoalmente dirigindo socorros médicos em remédios e alimentos aos pobres abandonados. Graças a esses esforços, a doença ceifou aqui poucas vidas. O Dr. Soares Júnior informou que houve em Mossoró 600 casos de contaminação, apenas no período de 8 a 30 de outubro de 1918, ou seja, de apenas um mês após o aparecimento da doença que registrou no final mais de 6.000 casos, dos quais tivemos 60 óbitos.

Mas para se atingir um número tão baixo de mortalidade (a taxa média de mortalidade no mundo foi de 6 a 8% no mesmo período), além das ações já descritas, foi instalado um hospital de emergência para isolamento dos doentes. A ideia desse hospital foi do vigário Ulisses Maranhão que oferecia, para tanto, a ajuda das Irmãs Franciscanas que cuidariam dos doentes. O local proposto foi no Alto da Conceição, por concentrar o maior número de infectados.

Aceita a ideia, quarenta e oito horas depois era inaugurado o Hospital São Sebastião (ou Hospital da Espanhola), em um prédio alugado pela municipalidade e para lá foram transportados todos os doentes que eram carinhosamente tratados pelas Irmãs Franciscanas do Colégio Sagrado Coração de Maria: Maria Leocádia Lisboa, Maria Sarmeiro, Infância de Maria e Umbelina da Conceição. O Dr. Antônio Soares era o médico responsável e na sua ausência, o próprio farmacêutico Jerônimo Rosado, Intendente, cuidava dos pacientes. O Hospital de Emergência foi abastecido com medicamentos e comida. Dos trinta e oito hospitalizados, apenas um óbito, Raimundo Fernandes, solteiro, de 23 anos, justamente o primeiro que procurou o hospital.

O Hospital São Sebastião, no entanto, teve vida curta. Passado o surto da epidemia, pouco mais de um ano após a sua inauguração, foi desativado.

E aos poucos a rotina dos mossoroense foi voltando ao normal. Esperamos que com a atual Pandemia o mesmo aconteça, principalmente porque a população, ao contrário do que aconteceu naquela época, está sendo vacinada, medida essa que deve frear a doença no mundo todo.01