GERALDO MAIA – Celina Guimarães e Lauro Reginaldo

Geraldo Maia do Nascimento
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Tenho falado, ao longo do tempo, sobre a participação de Celina
Guimarães Viana na História de Mossoró, não só como a primeira mulher em toda
a América Latina a ter direito ao voto, fato ocorrido em 1927, como da sua
participação na introdução do futebol em Mossoró, em 1919, sendo ela a
responsável por traduzir a regra do inglês para o português e ensinado os
fundamentos desse esporte para os escoteiros da Escola Normal, além da sua
atuação profissional na área da educação infantil, que lhe rendeu elogio individual
registrado no relatório elaborado em setembro de 1914 pelo Inspetor de Ensino,
Professor Anfilóquio Câmara e inscrito no Livro de Registro Profissional. Mas um
fato curioso é o que aconteceu com a família Reginaldo, logo da sua chegada a
Mossoró.

Próximo à rua em que Celina morava, habitava uma senhora chamada
Luzia Reginaldo, mãe de numerosa filharada, que tentava a todo custo educar os
filhos, mas os mesmos haviam sido expulsos do Grupo Escolar “30 de Setembro”
por serem considerados como briguentos, atrevidos, rebeldes. Dona Luzia,
sabendo que o Professor Eliseu Viana ocuparia a Direção do Grupo Escolar, foi
procurar Celina reclamando da injustiça do diretor anterior que havia expulsado os
seus filhos e pedindo a ela para falar com o marido para que os seus filhos
pudessem voltar a estudar. Em suas palavras, “os meninos são apenas traquinos,
como toda criança. Ao todo são oito, inteligentes, cheios de vocação para as artes,
gostam de ler, mas estão sendo proibidos de estudas na sua própria terra. Espero
que a senhora e o Dr. Eliseu façam alguma coisa por eles. “ Celina prometeu que
falaria com o marido para que os meninos pudessem voltar a estudas. E logo no
dia seguinte os meninos se apresentaram na Escola. Eram eles: Jonas, o mais
velho, Raimundo, já rapazinho, Rochinha, Glicério, Antônio, João da Mata, Luís
(Moba), Lauro e havia ainda uma menina chamada Maria. Todos voltaram a
estudar. E por esse motivo, acabou existindo uma amizade carinhosa entre Celina
e os meninos.

Por essa época, Celina havia adquirido uma coleção de livros socialistas.
Resolvera estudar a questão social que abalava o mundo, conhecer o que se dizia
desse “ópio” que vinha do Oriente para o Ocidente. Comprara livros d Marx e
Lênin, estudara suas teorias, ajuizara o que eles diziam do Capital e do Trabalho,
da organização das massas, dos chamados direitos do proletariado, o que era
materialismo na concepção de Lênin e a questão agrária da Rússia. Leu todos e
não se impressionou com nada daquilo. Queria apenas conhecer o problema.
Justificando ao marido a sua compreensão, citou uma frase de Shakespeare:
“palavras, palavras, tudo palavra. “ Com essa compreensão, passou a retirar os
livros que na sua opinião considerava indesejáveis. E foi retirando: O Capital, A
Ideologia Alemã, A Luta das Classes na França, A Sagrada Família ou a Crítica da
Crítica. Retirou também O Manifesto Comunista, O Desenvolvimento do
Capitalismo na Rússia, A Teoria do Estado e da Função dos Soviets e Carta aos Camaradas, sendo esses últimos de Lênin. Estava mesmo decidida a dar fim
aqueles livros. Eram ideias avançadas e por isso mesmo perigosas. O marido era
um liberal democrata dos mais fiéis, católico praticante. Entre eles não haveria
conflito de qualquer natureza, muito menos em torno dessas ideias. Estava
fazendo um pacote de todos aqueles livros quando chegou a sua casa o menino
Lauro Reginaldo, que trazia um bilhete de sua mãe. Celina aproveito e pediu ao
menino que levasse aqueles livros para casa, podia dar ao irmão mais velho,
vender e se fosse o caso queimá-los. Lauro saiu carregando o enorme pacote. E
pelo visto eles leram esses livros com interesse e acuidade. O resultado foi que
dentro de algum tempo os irmãos Reginaldo tornaram-se marxista-leninistas.
Sofreram reações da polícia, foram presos, tomaram parte em todos os
movimentos e revoluções que se fizeram, mas sempre coerentes e fiéis aqueles
livros que Celina lhe dera.

Em um depoimento, Celina disse que involuntariamente tinha sido
responsável pelo sofrimento daqueles meninos.

Lauro Reginaldo da Rocha terminou adotando o nome de guerra de
“Bangu”, na história do Partido Comunista Brasileiro. Foi operário, sindicalista,
militante político, Secretário Geral do Partido Comunista Brasileira (PCB) aos 24
anos de idade e hóspede involuntário de várias prisões, onde viveu a experiência
da violência até o limite da tortura, tudo em nome de uma causa: a causa do
proletariado brasileiro. Há uma frase do grande líder Martin Luther King que diz: “O
homem que não descobriu uma causa pela qual possa morrer, não merece viver! ”
Lauro Reginaldo da Roca (Bangu) viveu plenamente a sua causa. Foi o primeiro a
lança ideias marxista-leninistas em Mossoró e incentivas os seus irmãos a
organizarem os primeiros núcleos do “partido da classe operária” em terras
nordestinas. Na revolução de 1935 ele lutou de arma na mão nas ruas de Natal,
ao lado de sua filha Amélia, de 16 anos de idade. Libertou todos os presos da
Cadeia Pública. E após a tomada do poder, distribuiu fartamente gêneros
alimentícios à população necessitada, em nome do Governo Revolucionário.

Pagou um preço muito alto por sua luta em prol do proletariado: prisões,
torturas, a Ilha Grande, que era considerada o pior dos presídios, fome, sede, etc.
Mas nada o fez mudar de ideia. Continuou lutando, enquanto dele o Partido
precisou.

Lauro Reginaldo da Rocha morreu no dia 04 de abril de 1991, aos 83 anos
de idade, consciente de ter dedicado a vida a uma causa justa. Viveu e lutou por
um ideal, e sua luta não foi em vão. Lauro “transcendeu sua condição individual,
para, generosamente, empenhar sua vida na realização da utopia de uma
sociedade justa”.

Para conhecer mais sobre a História de Mossoró visite o
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