Genildo Costa

Nascido em Grossos/RN, o poeta e músico Genildo Costa já é um conhecido fazedor de cultura em Mossoró. Ex-professor de História, largou a sala de aula para se dedicar exclusivamente às artes. Com dois CDs gravados e três livros publicados, Genildo agora encampa projetos diversos buscando formar plateias e assim, tem conseguido levar seu canto a outras paragens, como cidades do interior do Ceará que têm se interessado em conhecer o talento de Genildo. É sobre tudo isto que conversamos esta semana.

Por: Caio César Muniz
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O Mossoroense: De uma família tradicionalmente poética. Qual o tamanho da sua responsabilidade em levar adiante este legado?
Genildo Costa: Confesso, sinceramente, não ter muito como explicar tamanha responsabilidade. Hoje quero ter a convicção de que fomos chamados a entender melhor a partir da noção de espiritualidade. Quero ter todo tempo necessário como se fosse agora a minha última confissão de tudo que vivi intensamente. Devo ter cometido um pecado irreparável. É como se transferir à ingenuidade algo que só agora é possível compreender a dimensão de páginas e páginas vividas com muito cuidado e, sobretudo, responsabilidade. Permita-me dizer o que sempre tenho dito, repetidas vezes. É público e notório o poeta Manoel Erasmo no fazer de versos de Geová Costa. A sua musicalidade é o diferencial e de uma melodia que só ele sabe fazer. Agora, não posso esconder que fui um privilegiado quando dei de cara com o álbum de meu pai e de toda escrita em carbono azul pelos botecos e becos escuros da cidade de Grossos. Sem esquecer de Raimundinho Erasmo com seus acordes num violão Trovador. Frequentei muito a sua casa quando moleque e ouvia uma sonoridade bonita (Irmão de Manoel Erasmo, Joaquim Erasmo, carpinteiro e arquiteto nato), Miguel Erasmo da Silva com seus versos metrificados na ponta dos dedos na confecção de belíssimos sonetos. O enunciado que ora apresento supera toda expectativa de um universo primitivo que na época já era pautado, não tenho dúvida disso, pelas regras de consumo e de uma estética profundamente comprometida com os anseios e interesses de uma sociedade desigual, excludente e desumana. Então, tudo muito bem contextualizado. Acho que essa provocação é muito oportuna. Daí muito cedo dei pra andar com muitas poesias debaixo do braço e acompanhei muito meu velho pai (Dagmar) recitando nas mesas de bares Israel de Castro, Rogaciano Leite, enfim, muitos poetas bons e tudo isso foi mais que um chamado à continuidade, diria, uma intimação a mim e ao mano velho Geová Costa. Dizer de minha realização, particularmente, é ter o orgulho de saber que essas raízes lapidaram pedra bruta e nos ajudaram muito a se ver mais humano e humilde para com o exercício permanente de respeito aos outros e a todos que gravitam em torno dessa inspiração tão presente e palpável, só agora, depois de tanto tempo de convivência musical e poética.

OM: Como tem sido a receptividade do seu segundo CD, o “Camboar”?
GC: Olha, muito assumidamente, dentro dos padrões de normalidade. Há tempo que sei não corresponder às exigências da indústria cultural. A moldura, vamos dizer assim, sempre foi a mesma apenas tive o cuidado de trocar os elementos que puderam formatar esse nosso segundo álbum, “Camboar”. Arranjos de músicos, todos potiguares, a poética extraída de nossos autores e parceiros que gradativamente possibilitaram uma identidade própria. Uma cara que me define e, mais que isso, impõe e apresenta hoje uma certa maturidade naquilo que costumo chamar de saraus poéticos dotados de musicalidade acessível aos ouvidos de um público restrito e civilizado. Não sou um cantor de massa. A cultura de massa tá numa outra perspectiva e isso não me interessa, até então, não tenho de que reclamar. “Camboar”, assim, como “Cores e Caminhos”, tem a sua dimensão pedagógica e isso é perceptível sem precisar de muito esforço. Uma declaração de amor aos camboeiros de Grossos a partir da presença memorável de Fael e Antônio Rocha (cidadãos trovadores e contadores de causos de beira de calçada. Portanto, não tenho vontade de ingressar nesta de emburrecimento coletivo. A nossa música, a poesia que canto creio ser politizada e sabe onde quer chegar, verdadeiramente.

OM: O CD “Cores e Caminhos”, seu primeiro trabalho, ainda repercute, com uma grande força no meio cultural local. A que você credita este fato?
GC: Esse trabalho que costumo chamar de antológico é o que existe de mais legítimo quando tratamos de nossa participação no contexto da música alternativa no universo cultural potiguar. Gravado em 2001, muito que precocemente, esse disco teve as presenças do pianista Eduardo Taufic, o violão de 12 cordas de Cacá Veloso, Mazinho Viana, Lene Macedo e Paulo Oliveira. Tive a grata surpresa de vê-lo na Universidade do Estado do Rio Grande do Norte – Uern através do professor Zacarias. O texto “Minha Casa”, do poeta mossoroense Marcos Ferreira, como a se impor e a traçar caminhos pra que outras canções pudessem ser ouvidas e executadas. Na sequência soube da iniciativa do Conservatório de Música Dalva Stela em gravar “Minha Casa”. Uma produção de alto nível. Enfim, outra surpresa foi saber que a nossa antologia esteve presente no departamento de filosofia da nossa Universidade com o texto “Dores e Amores”, do poeta Cid Augusto, quando da elaboração de uma avaliação do professor Willian. Em seguida, estivemos como trilha sonora do filme “Caldeirão do Diabo” onde várias composições estiveram na trilha sonora. Todos esses acontecimentos me credenciaram a dar continuidade mesmo na contramão de todos os holofotes da grande mídia. Há alguns meses, a cidade passa despercebida e não consegue ter notícias de que fomos tema do 7 de setembro na cidade de Chorozinho (Ceará ), onde fui recepcionado por professores e toda cidade em festa e numa parceria com o sanfoneiro do Raimundo Fagner cantamos em coro “Meu Brasil de canto a canto tem suor de nordestino”, do poeta do bairro Lagoa do Mato, Antônio Francisco. Acho que superamos todas as possibilidades de ostracismo e de exclusão de tudo que fizemos coletivamente.

OM: Você tem realizado algumas apresentações fora do Estado. Como tem sido estas experiências?
GC: É bem verdade que não é só talento. É, muitas vezes, olhar – se no espelho como sujeito de sua própria história e acreditar que tudo passa pelo que chamaríamos de oportunidades sem deixar de levar em consideração uma série de fatores, tais como: determinação, conteúdo poético, musicalidade e contextualização de toda obra. Quero crer que o convite a mim formulado pela Editora Imeph, com sede em Fortaleza, para participar do projeto Nas Ondas da Leitura, coordenado pelo poeta Crispiniano Neto, foi determinante para termos uma visão de tudo que fizemos nos dois CDs gravados (Cores e Caminhos e Camboar). O Ceará, a partir dessa minha inserção, começou a me recepcionar como gente que faz com critério e maturidade.

OM: Você tem realizado experimentos culturais de diversas formas, como os projetos “Ensaio Geral”, “Canto Potiguar” e mais recentemente o “Acordes Amigos”. Quais as dificuldades em manter vivos projetos desta natureza?
GC: Gostaria muito de não ser pessimista. Mas, quanto a esse comportamento de fazer parcerias, buscar apoios no sentido de mobilizar a cidade culturalmente, não consigo ver avanços nesse sentido. Percebo uma relação que se dá sob o signo da piedade. O que é muito doloroso e acho até que somos ainda muito de caminhar pelos caminhos da individualidade. Não nos sentimos representados, somos nômades, até quando, não sei. Devo dizer que precisamos buscar ocupar espaços mais dentro da legitimidade. Por exemplo: os editais são exemplos disso. Nunca estamos aptos. Somos, queiramos ou não, vistos pela ótica da clandestinidade. O que é muito ruim. Os nossos gestores se apropriam de nossas fragilidades e, assim, somos punidos, barbaramente.

OM: Ligado às coisas da sua terra, Grossos, inclusive tendo sido seu secretário de Cultura, que leitura você faz da cidade atualmente neste setor?
GC: Lamentavelmente, um retrocesso. A cidade nunca teve vocação pra tratar desse tema. Até porque o interesse é manter esses formadores de opinião sob a batuta da ignorância. O assistencialismo é bandeira que se sustenta na relação de dependência e isso não é privilégio de minha cidade de Grossos. Outras vivem esse mesma situação. Olha, recentemente, a cidade perdeu uma grande oportunidade de reunir músicos, atores, enfim, os fazedores de cultura para a elaboração de sua conferência municipal de cultura. Isso é muito grave. Terrível. Mesmo assim, tenho percebido o tamanho da grandeza dessa terra tão rica e dotada de tanta sabedoria e formadora de tantos talentos. Isso muito me gratifica e me realiza profundamente.

OM: Algum novo projeto na ponta da agulha?
GC: O “Acordes Amigos” é o mais novo palco quando o assunto é agregar valor aos espaços públicos dessa urbe de todos. No dia 20 de novembro estaremos realizando a sua segunda edição no Oba Restaurante. Uma proposta inovadora que tem como prioridade reunir adeptos da nossa música potiguar e, sobretudo, continuar apostando na capacidade que temos de gerar o novo. Formar plateia é a nossa missão a partir da presença e do entusiasmo de toda essa gente maravilhosa.