Futebol, carnaval e política

Tomislav R. Femenick – Mestre em economia, com extensão em sociologia

O filósofo e sociólogo francês Émile Durkheim  dizia queo conjunto das crenças e dos sentimentos comuns à média dos membros de uma mesma sociedade forma um sistema determinado que tem sua vida própria; poderemos chamá-lo: a consciência coletiva ou comum (1979). A pergunta que daí deriva é: como se consolida a consciência coletiva das pessoas, sendo estas as células que formam a sociedade?

Há três maneiras como o ser humano se apercebe da vida, como vê as outras pessoas, a natureza e os objetos em seu entorno. A primeira, por meio do hábito, é influenciada pelo ambiente familiar e social em que vive e, em muito menor grau, pela herança genética. Um gaúcho, por exemplo, tem propensão a adorar um belo churrasco de picanha na brasa e um chimarrão; se nordestino, um bom prato de carne de sol com feijão-verde e macaxeira frita.

A segunda, pela consciência da existência. Parece incrível, mas a maioria das pessoas não tem essa visão; simplesmente vive e nunca se questiona sobre o assunto, nunca pensa no mistério da vida, no fato de que o mundo existia antes do seu nascimento e continuará existindo após a sua morte. Uma parcela até pensa no assunto, mas de forma mística, apelando para a reencarnação do espírito, como forma de garantir a sua perpetuidade.

A terceira forma de se aperceber da vida é um pouco mais complicada. É pela faculdade de apreender, por meio dos sentidos ou da mente, a perfeita divisão e, ao mesmo tempo, o entrelaçamento do passado, do presente e do futuro – não estou falando de física quântica, mas da vida simples, sem “arrodeios” e salamaleques. Pois bem, muitas pessoas não percebem que seu comportamento no passado formulou o seu ser presente e que o seu comportamento no presente formulará o que será o seu ser futuro.

Analisados em conjunto, esses três conceitos explicariam, em parte, o comportamento dos brasileiros como sociedade – vamos nos abster de outros povos. Vamos tomar como exemplo três “mundos” brasileiros: futebol, carnaval e política. Não importa se o nosso time ou a nossa escola de samba estejam ganhando ou perdendo, nós continuamos a torcer pelo Flamengo e pela Mangueira. Ninguém muda de time ou de escola. Paulinho da Viola tentou abandonar sua Portela, mas não conseguiu – resultou em uma das suas mais festejadas músicas: “Foi um rio que passou em minha vida”.

Todo esse longo introito serviu para chegarmos ao que hoje nos interessa: o mundo da política, em nossa muito coitada pátria amada. Aqui, os políticos são “popstarts”, são estrelas populares de um mundo diferente. Em um cenário em que os partidos nada significam, são as pessoas dos seus dirigentes que verdadeiramente contam. Basta ver as constantes mudanças de legenda de suas “Excelências”. O presidente Jair Bolsonaro, por exemplo, foi eleito pelo PSL, mas já tinha sido do PDC, PP, PPR, PPB, PTB, PFL e PSC e agora tenta fundar um partido para chamar de seu, o Aliança pelo Brasil.

Exemplos há muitos; a massa sempre segue a pessoa do líder. O Getúlio Vargas, quando ditador, fechou os partidos. Foi do antigo PSD, fundou o PTB e, por este, foi eleito presidente. Jânio Quadros foi do PDC, PTN e elegeu-se presidente pela UDN. José Sarney foi do PSD, da UDN, da Arena e do novo PSD. Fernando Collor foi da Arena, do PMDB, PRN, PRTB, PTB e PTC. Fernando Henrique Cardoso era do PMDB e foi para o DSDB, quando este foi fundado, e lá permanece. Lula sempre foi do PT. Dilma foi do PTB, PDT e PT.

Essas mudanças de partido comprovam que os nossos líderes sempre são seguidos pelos seus correligionários, não importa o que eles façam. Getúlio, um ditador cruel, foi eleito presidente; Jânio renunciou sem dizer o porquê, mas depois foi eleito prefeito de São Paulo; Collor renunciou à presidência para não ser cassado, e mesmo assim foi eleito para outros cargos; Lula e Dilma fizeram um monte de lambanças, porém ainda há quem acredite em suas boas intenções; Bolsonaro, entre outros absurdos, nega a pandemia, diz que não vai tomar a vacina e tem gente que acha que ele está certo.

Os seguidores dos chefes políticos são como torcedores de futebol, não estão nem aí sobre o que vai acontecer e não aprenderam as lições do passado.