Feiras e Mercados são patrimônios do povo

Gutenberg Costa – pedagogo, bacharel em direito, escritor e folclorista

Já escrevi muito sobre feiras e mercados ao longo de minha vida de mero escrevinhador. Precisamente, desde 1979, quando mandei atrevidamente

meus artigos e crônicas para os saudosos jornais ‘Diário de Natal’, ‘A República’ e ‘Jornal de Hoje’. E em minhas colunas, nos também desaparecidos jornais semanários, ‘Dois Pontos’ e Jornal de Natal. Como se vê, sou bastante antigo em matéria de relembrar fatos passados. Hoje volto ao assunto pela anunciada lei que deu o título a feira do meu Alecrim, como patrimônio cultural imaterial da nossa cidade do Natal. Na verdade, para mim já o era, desde que nasci por lá em 1959. Mas, a feira que eu conheci quando criança, era muito diferente da vista de hoje. Aliás, em todos os recantos do mundo. É o preço da modernidade e progresso, queiramos ou não! Elas tinham de tudo e se via nelas de tudo.

A do Alecrim, tinha cabeceiros ou balaeiros, com grandes balaios nas cabeças, para carregarem as feiras dos compradores. Eram homens fortes. Lembro de alguns que ficaram famosos, como ‘Taruga’ e ‘Relâmpago’. Tinham pedintes inesquecíveis como a Maria Saí da Lata e o Cuíca. A Maria soltando palavrões com quem a apelidasse e Cuíca batendo a cabeça com raiva, em paredes, diante das negativas de suas esmolas.

Ali no cruzamento da 7 com a 1, na sombra do finado pé de ‘fícus’, ficavam os violeiros e cantadores de romances em cordéis. Guardo lembranças e fotografias do maior declamador de romances de Natal, seu Francisco Genuíno de Souza, que eu apelidei de ‘galego’, devido sua cor avermelhada. Suas vendas de folhetos eram um grandioso espetáculo, com seu microfone pendurado no pescoço e o som transmitido por uma velha boca de som ajudada por uma bateria de carro. E este, encantava seus ouvintes e a roda humana em seu entorno era grande. De meninos a velhos. Algumas histórias faziam os espectadores chorarem e outras gargalharem.

Nas noites das sextas feiras, existia o picado com cachaça e violão para

os boêmios plantonistas. Nas madrugadas a culinária curava qualquer ressaca

ou cansaço humano. Ali não faltavam as ‘rabadas’ ou ‘paneladas’, bem acompanhadas de cuscuz. Tudo quentinho para nosso suadouro esperado. Tinham os doutores ‘raízes’, que anunciavam suas ervas e garrafadas milagrosas, que só não davam jeito em gente lisa ou fofoqueira. E de vez em

quando, como táticas de marketing prometiam a briga da cobra com o tejuassu,

que ninguém nunca viu. Eram duas malas, com eles dentro, mas nada de

brigas. E isso, bem antes da tal guerra fria…

Nunca vi em parte alguma, uma feira sem doidos e cachorros soltos no meio delas. E diga-se, um bêbado plantonista discursando em linguajar desconhecido aos feirantes e passantes.

Excepcional no Bairro do Alecrim, era a passagem do velho homossexual

apelidado de ‘Velocidade’, que revolucionava a dita feira de ponta a ponta. Com gritos e palavrões, tanto de parte do pobre apelidado, como de seus desafetos ocasionais. A algazarra só acabava, quando o magrinho ‘Velocidade’ entrava abrigado em alguma casa, para atenuar a sujeira em suas roupas, das laranjas podres ou tomates amassados.

Existiam os banqueiros de jogos de azar. O mais famoso deles, foi o macauense ‘Tributino’. Cada banqueiro tinha o auxílio de dois comparsas, que

eram conhecidos, como, ‘tapias’. Quem por acaso frequentou as feiras antigas,

se livrou pelo resto da vida de espertalhões, graças as lábias dos tapias, que

ficavam fazendo jogadas e dando falsos palpites. Os jogos, eram invariavelmente de três cartas de baralho, bolinhas em copos ou dedal.

As feiras, eram verdadeiros espetáculos quase circense em nossas vidas. Por lá apareciam o mágico, o palhaço com a macaquinha ‘Chiquinha’ que dançava e até lavava roupa. Tudo era riso na criançada sem dinheiro como eu, mas, feliz de coração e sorrindo pelos olhos. Também tinham sanfoneiros, rabequeiros e cegos cantantes, com suas inseparáveis cuias de queijo do reino.

E as ciganas, de cabelos compridos e vestidos coloridos. Um dia de feira, uma pegou na minha mão e profetizou, o seguinte: o moço vai casar mais de uma vez. Vai ser pai de duas meninas lindas. Vai gostar de estudar e ser letrado. Vai morrer velho, nem tão pobre e nem tão rico, mas feliz!

Quando cresci, tive o privilégio de ver várias feiras e mercados espalhados pelo Brasil. Vou citar apenas algumas: Feira de Caruaru/PE, Feira de Santana/BA, Canudos na Bahia. Feira de São Cristovam no Rio de Janeiro. Adentrei quase rezando, em variados mercados. Comi o delicioso empadão, no mercado de Goiânia, em Goiás. Em São Paulo, o pão com queijo e salame, em seu velho mercado. Em Salvador, na Bahia, o caruru e o vatapá, ao redor do Mercado Modelo. Em Mossoró/RN,o café com bode torrado e cuscuz. E na terra de Santa Luzia,  também fui levado pelos grandes amigos, Cid Augusto, Kydelmir Dantas e Caio César ao Mercado da Cobal, para tomar o suculento café mossoroense, com panelada e cuscuz. Nesse tempo ninguém fazia exames, para saber o grau de nosso colesterol. A alegria e amizade, venciam as dietas médicas!

Já descrevi muito o mercado de Pendências/RN. A Raimunda Preta, me

despachando galinha com arroz da terra e espantando os costumeiros pedintes, com homéricos palavrões: Saia daqui seu ‘fela da puta’, não perturbe o doutor que veio de Natal, me dar lucro. Confesso que nunca precisei de segurança para

andar em feiras ou mercados. Nunca fui assaltado ou furtado. Nunca comi comida estragada. Parodiando o dizia o genial Vinícius de Morais, eu nunca fiz

amigos em shoppings, mas, muitos em feiras e mercados. Em São José de Mipibu e Nísia Floresta, já tenho inúmeras e boas amizades. Com certeza, se for liso, faço a feira. E como disse recentemente, o amigo Francisco, da velha Quitanda: “ Daqui o senhor leva tudo e ainda lhe empresto dinheiro para voltar pra casa!”.

E quando os curiosos indagam, se eu tive alguma vez a tal da ‘depressão’,

eu respondo na bucha: nunca, eu visito as feiras e mercados. Lá dou gargalhadas com o povo feliz, que trabalham e frequentam os seus pontos, barracas e cercanias. E quem vai a uma feira ou mercado, não volta com tristeza alguma nas sacolas…

E o que você compra nas feiras? Vou já responder meus leitores e leitoras: trago nas minhas sacolas: sequilho, brote, broa, grude, raivinhas, bolos pretos

ou de batata. Farinha, goma, rapadura, feijão macassar e arroz da terra. No Alecrim, ainda encontro ‘rapé’, também conhecido como ‘tabaco’ ou ‘torrado’. Apetrechos não encontráveis em grandes super mercados. Feira e mercados, são locais abençoados para quem gosta do simples, da qualidade de vida, das conversas sertanejas, das frases filosóficas, encontradas em para choques de antigos caminhões. Quem gosta de luxo e falsidade não pisem os pés por lá…

Portanto, senhores e senhoras, toda cidade deveria por decreto legislativo, tornarem seus mercados e feiras, verdadeiros patrimônios culturais

de seu povo. Povo sábio e honesto. Mercados e feiras de tradições, que não são indicados pelos guias de turismo aos visitantes. Sempre vou a eles, por gosto e teimosia ou levado por amigos e amigas. Sou a cara da feira, como diz minha netinha ‘Maria Estela’. Respiro o suor e calor dos mercados. Lá fiz mestrado e doutorado, que me orgulha muito na vida!

E até a próxima amigos e amigas, de Natal a querida Mossoró! Abraço

de início de ano a todos e todas desse Brasil, que não gosta de valorizar as justas tradições. Nosso chão nordestino, de Câmara Cascudo e Ariano Suassuna!

Morada São Saruê, Nísia Floresta/RN.