ESMERALDINA

ANTES…

Conheceram-se, namoraram, casaram-se. E, por pouco tempo, exercitaram o juramento do altar: “foram felizes para sempre”.

Um botava a culpa no outro. Esmeraldina, sertaneja criada na lei de Deus e da decência, não admitia as saídas ocasionais do Dilermando.

– Dilermando, lugar de homem sério é dentro de casa. Na rua, só se encontra o que não presta!

De início, ele ainda cuidava de cumulá-la de argumentos vários, cobrindo as suas escapadinhas de mil justificativas:

– Minha filha, todo homem precisa dos ares da rua. Saio, divirto-me um pouco e sempre volto, para o meu lar, recuperado. Sempre mais disposto para a labuta diária… – dizia isto, chafurdando inconfessáveis segredos nos ouvidos da esposa.

– Saia, olhe o respeito! Não sou mulher para estes… cabimentos.

Tudo da boca para fora, pois Esmeraldina, à noite, entregava-se toda aos ardilosos e apimentados cabimentos de Dilermando. Para incômodo do vizinho, rematado solteirão, que passava a madrugada a ouvir o chafurdo dos amantes da casa colada à sua.

Tudo corria assim. De certa forma, numa felicidade de conveniência. Ela, a reclamar das saídas dele; ele, a compensar-lhe com o fogo revigorado das ruas.

DURANTE…
Num certo dia, não se sabe bem quando, Dilermando jantou, pôs o pijama de dormir, abriu o jornal, correu a vista pelas manchetes, de quando em vez exclamando admoestações e repreensões contra o descalabro que tomava conta do mundo:

– Meu bem, a família é a maior vítima de tanta coisa feia que nos rodeia. Uma loucura! – e se benzia, bocejando um “Deus nos guarde” seguidas vezes.

Antes das nove da noite, levantava-se, tomava um copo d’água fresca, conferia o fechamento das portas e janelas, benzia-se à frente da imagem de São Francisco no centro da sala e… rumava para o quarto.

Antes de deitar, uma Salve Rainha, dois padre-nossos e uma ave-maria. De olhos fechados, contrito, com a mão direita sobre o peito esquerdo.

– Uma boa noite, minha querida esposa! – beijava-lhe, protocolarmente, a face febril, e roncava a noite toda.

Esmeraldina, de início, até agradeceu aos céus a graça alcançada. “Seremos felizes para sempre!”

No entanto, transcorrido um mês… Esmeraldina teve saudade dos tempos de outrora.

DEPOIS…
Depois do entardecer, ela cuidou de tanger Dilermando para o caminho da rua.

– Coração, vá ver as novidades! Eu não posso sair, tenho que cuidar de umas costuras. Vá, a rua vai fazer bem a você.

Ele quis argumentar; ela não deu espaço para o debate.

– Dilermando, faz tempo que você não usa o seu terno branco. Vai acabar perdendo ele se não usar.

Dilermando, um pouco a contragosto, vestiu-se e saiu.

Quando passava na esquina da praça principal, ele encontrou a turma da esbórnia: João Cafundó, José das Brenhas, Aristides Velhaco. Todos animados, no rumo do Caneco Amassado, prostíbulo da cidade. Lá, haveria a comemoração do aniversário de Cora, a mais nova “preciosidade” da casa.

– O sanfoneiro vai rasgar a sanfona a noite toda, sem falar na fartura dos comes e bebes; tudo por conta do Coronel Feliciano. O homem está de caso com a rapariga, apaixonado que só – anunciou, aos pulos de alegria, João Cafundó.

– Por onde andava, Dilermando? A turma estava sentindo a sua falta, rapaz! – indagou-lhe José das Brenhas.

– Pelo jeito, andava meio adoentado, estou certo? – aparteou Aristides Velhaco.

– Eu…
– Não falemos mais disto, hoje é só festa. E que festança! Apressemos o passo, senão vamos chegar atrasados ao forrobodó – conclamou João Cafundó.

***

Madrugada, Dilermando entrou em casa. Esmeraldina à espera.

Beijaram-se, amaram-se, rasgando os lençóis. Para satisfação de Esmeraldina, e para desespero do vizinho solteirão.