ENTREVISTA – Gilberto Teixeira

“Chão, terra, pão,

Barro, quinhão,

Terra seca, no entanto,

Cheia de vida,

Herança, filhos de Adão”

Você já deve ter escutado estes versos num clipe televisivo nos últimos meses numa emissora local. Sem muitas explicações ela surge no meio da programação e nos deixa com a pergunta na cabeça: de quem é isso? O que é? Pois bem. Mistério revelado. O clipe é uma das muitas propostas poéticas culturais do mossoroense Gilberto Teixeira, uma espécie de nômade da arte afastado da terra de Santa Luzia ainda jovem e que hoje se destaca no Rio de Janeiro como músico, poeta e também como produtor cultural. É com ele que O Mossoroense fala esta semana.

 

O Mossoroense: Como começou a sua trajetória artística?

Gilberto Teixeira: Saí de Mossoró com 14 anos. Acho que a minha vida artística começou na década de 1960, na febre dos festivais de música popular. Alberto, Roberto e Gilberto, os três primeiros filhos de Manoel Lima e de Maria Teixeira, já inauguravam as futuras e prováveis carreiras na música. Os três, os Teixeira, lograram os primeiros troféus nos festivais de música de Mossoró. Em 1965, fui estudar no seminário Educandário Nordestino Adventista/ENA, em Belém de Maria/PE, e então começou a minha jornada de arte pelo Brasil. Minhas primeiras composições foram no mundo gospel, mas, como as letras fugiam um pouco do tradicional universo bíblico, começaram as controvérsias. No Nordeste, entre Recife e João Pessoa, fiz todo o ensino fundamental e nessa última, o curso de Psicologia na UFPB. E 1983, já casado e com uma filha, parti rumo à Brasília. No entanto, percebi que não conseguiria fazer a música que pretendia e resolvi que o Rio de Janeiro seria mais adequado. A vida nessas cidades foi bem intensa e sempre estive envolvido com música, cultura de tradição e com ecologia.

 

OM: Como foi a adaptação na “cidade grande”?

GT: Bom, nasci em 1953 e saí em 1965. Me sinto um camaleão, adapto-me a qualquer chão, enfrento quase toda situação que se apresente. Na verdade, enfrento as dificuldades como qualquer ser humano. A cidade grande sempre foi um excelente laboratório de vida, mas considero a feira nordestina de São Cristóvão do Rio de Janeiro o maior desafio. Convivi com o reduto pesquisando, ensinando e aprendendo. Os embates e as decepções foram uma escola e tanto, tive que empunhar, contrapor e defender várias bandeiras. Fui o responsável pela criação e implantação de seus principais projetos culturais.

 

OM: Em que atua no momento?

GT: Hoje priorizo dois projetos: Etsedron, visceralmente na feira de São Cristóvão, do Rio de Janeiro, que reúne cinco livros/CDs, onde resgato e registro a história da feira. Já foram editados e publicados três deles: “Etsedron, Contos & Cantos da Feira”; “A Arte da Feira” e “As Mulheres da Feira”. O quarto está em processo de publicação pela Editora Viseu, com o título “A Culinária da Feira”. A Viseu deve lançar entre outubro e novembro desse ano. O último será “A Gênese da Feira”. Acredito que publicarei outro livro com o título “Os projetos que a Feira de São Cristóvão” deveria Instituir. O outro projeto é o “Humano Novo”. Nele, agrego a música com a ecologia e sou bem incisivo, bem cirúrgico com as letras das músicas. Costumo dizer que a minha música tem algumas obrigações básicas: divertir, admoestar, denunciar e propor. Tento fomentar um ser humano NOVO, consciente das questões problemáticas que ele cria no dia a dia para o planeta. O projeto nasceu com esse objetivo, e pretendo prosseguir. Acredito que a música é um veículo forte para atingir as pessoas, por essa razão a escolhi para alavancar o processo.

 

OM: Mossoró já tem uma história com a Feira de São Cristóvão, com o também poeta Marcus Lucena, vocês têm alguma ligação?

GT: O conterrâneo Marcos Lucena também tem uma história com o reduto nordestino carioca, mas aconteceu em momento diferente. Ainda assim, fizemos algumas incursões culturais, dentro e fora da feira.

 

OM: Quais as suas raízes mossoroenses?

GT: Minhas raízes têm base nos nativos e europeus. Os monxorós, da linhagem dos Cariris, pontuam forte. Minha avó, personagem marcante da infância, sentava no chão de barro, num canto da casa para mascar fumo de rolo, fabulando contos do passado. Vez por outra arremessava sua tradicional cuspida de uns três metros, pelo menos. Os avós maternos são Maria Teixeira da Conceição e Francisco Teixeira da Costa; os paternos, Antônio Pereira da Rocha e Maria Joaquina de Andrade. A popular Dona Conceição teve seis filhos, quatro mulheres e dois homens. Uma das filhas, minha mãe, Maria Teixeira de Lima, teve treze filhos, oito homens e cinco mulheres. Da união de Dona Marieta Teixeira e Seu Manoel Lima, como são conhecidos no bairro dos Pereiros, resultou em 92 descendentes, entre filhos, netos, bisnetos e tataranetos.

 

OM: Que lembranças carrega de Mossoró?

GT: A minha infância, como a de quase todos os garotos do bairro dos Pereiros, foi simplesmente maravilhosa! Lembro-me das super brincadeiras, episódios duplos quando trabalhávamos e ao mesmo tempo nos divertíamos. As idas e vindas ao rio Mossoró para pegar água nas extintas roladeiras, as pescarias e os banhos nesse saudoso rio, que às vezes invadia as nossas casas com o excesso das águas dos bons invernos do sertão. As cheias do rio Mossoró nos expulsavam de casa, no entanto, promoviam momentos de alegria infantil indescritíveis. No meu tempo de infância nos alegrávamos até com a procura de ovos de galinhas pelos matos, lugares inexplorados entre o rio Mossoró e a Rua Cunha da Motta. Nunca me esqueço das brincadeiras nas tardes e bocas da noite simulando as lutas de espadas e de kung fu, sucesso dos filmes da época, que passavam nos cines PAX, Caiçara e CID. Essas lembranças de  infância em Mossoró estarão comigo para sempre.

OM: Alguma previsão de retorno à terrinha?

GT: Sempre costumo visitar Mossoró, fazia com mais frequência quando mamãe e papai estavam na cidade, mas, infelizmente, eles já fizeram a passagem, cumpriram a jornada terrestre. Mais recentemente, com a pandemia do coronavírus, eu assisti a alguns episódios tristes com gente da família, amigos que se foram e me sensibilizei muito. Daqui do Rio de Janeiro, assisti a situações que me comoveram e, mesmo de longe, quis fazer alguma coisa. Pensei em trabalhar uma ideia, quando nasceu o projeto “Chão de fé”. Uma das coisas que sei fazer bem bem é música. Pesquisei sobre alguns episódios históricos de Mossoró e compus a canção na qual retratei fielmente a luta e a resistência dos mossoroenses. Posteriormente, juntei alguns amigos de fé no Rio de Janeiro, Mossoró e Natal para produzir. Alguns desses amigos contribuíram para o sucesso alcançado. Por conta de tudo isso, aumentou a vontade de fazer uma incursão à cidade para lançar o projeto. Estou juntando parceiros para o lançamento do clipe Chão de fé em Mossoró.

Assista aqui Chão de Fé.