Em que estrada nos perdemos?

Parecia até que tinha sido ontem, mas pensando bem, muito tempo já se passara desde que se conheceram.

Ele, sempre tão gentil e cavalheiro, conquistou de imediato o seu coração! Não foi difícil ela se apaixonar. Em pouco tempo o elegera seu príncipe encantado! Aquele “para todo o sempre”…
Ela, embora uma eterna sonhadora, e um tanto ingênua, mantinha os pés firmes no chão. Lutou contra os ditames familiares e defendeu com unhas e dentes o seu grande amor.

Os altos e baixos aconteceram normalmente durante todo tempo de união. Adaptar-se as novas situações, onde a opinião de ambos devia estar em comum acordo, não foi e não é algo tão fácil assim. Alguém sempre teve e tem que relevar o próprio pensamento em detrimento do outro. Mais será que é assim que acontece para ambos?

Quanta lágrima derramara em sua vida! Parecia uma “Maria chorona”. Não era a toa que a sua mãe assim a apelidara, pois só sabia resolver os problemas através do choro, ou melhor, quando se sentia incapaz de argumentar no diálogo, o único caminho plausível era o choro sentido, sofrido, mas calmante.

O tempo passou, mas hoje se percebe muito mais sensível que outrora. Magoa-se com facilidade, sente-se culpada diante de grosserias dos outros, mesmo estando coberta de razão, ainda assim prefere se calar, na maioria das vezes, evitando atritos.

Os silêncios que se seguem após estes desajustes, também a machucam, bem como, outras tantas coisas que sempre a incomodaram, e que só agora nesse desatino, parou para refletir as suas angústias, que vieram a tona como um grande furacão que sai arrastando tudo por onde passa.

Sempre se perguntou, mas agora mais do que nunca precisava saber se esse jeito de ser fazia parte do “SER” feminino, ou se eram apenas as suas fraquezas, que com o passar do tempo foram se intensificando e agora urgiam por uma solução…

Nunca conseguiu lidar com situações mal resolvidas em relacionamentos de um modo geral. Sempre pediu desculpas, mesmo sem as ter praticado. Tudo sempre tinha que ser resolvido e culminar num final feliz.

Curiosamente, naquele momento, ao lidar com uma situação desagradável, até tentou acalmar os ânimos, mas em vão, acabou por se chatear, e de repente, se viu agindo de uma forma totalmente diferente daquela de uma vida inteira. Sentiu logo que o seu limite estava um quase nada. Foi preciso muito esforço para se conter e se manter serena.

Analisou a situação e lamentou o quanto eram decepcionantes certos comportamentos humanos diante das intempéries da vida, principalmente, quando por parte de um adulto e, mais ainda, quando vem de alguém bem próximo a nós. Onde ficou aquela pessoa tão amorosa, tão gentil que um dia a cativara com os seus melhores gestos…

Calmamente se perguntou, qual a sua parcela de culpa no processo? Teria ela também mudado? Teria sido a sua conivência durante esse tempo vivido? Os seus choros abafados? A falta de diálogos expondo o seu pensar?

Embora tenha reconhecido algumas mudanças em suas próprias atitudes, condenou apenas as do parceiro, mas por felicidade, consertou em tempo sua incoerência, refletindo melhor suas próprias ações.

Se somos produto do meio, de um meio feito por nós, somos e estamos sim sujeitos a mudanças. Resta-nos melhor contribuir nesse meio, absorvendo dele, o que de melhor ele pode nos oferecer.
Quem sabe assim nos tornemos mais humanos, mais estáveis, menos volúveis e insensíveis em nossas ações com o próximo!

Vanda Jacinto
Pedagoga