Em ano de pandemia, voluntários se reinventam para continuar ajudando

Medo de infecção e distanciamento social não foram barreiras em um período que aumentou as diferenças sociais e exigiu mais solidariedade

Cristiane Bomfim, da Agência Einstein

 

Até o fim do ano passado, 6,92 milhões de brasileiros praticaram algum tipo de trabalho voluntário no Brasil, de acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Essa multidão de pessoas que se dedica a ajudar o próximo precisou se reinventar em 2020, quando o contato físico, tão importante em atividades como esta, foi restringido por conta da pandemia da Covid-19. Cuidadores de idosos, contadores de história, pessoas que distribuem doações à população de rua ou que visitam pacientes em hospitais levando conforto, professores de cursos gratuitos tiveram de parar, pensar e criar diferentes formas de continuar o trabalho.

“Fiquei muito frustrada quando fomos informados que precisaríamos interromper temporariamente nossas atividades. A minha preocupação e dos outros voluntários era parar quando as pessoas mais precisavam da gente. Eu só pensava nas pessoas que estavam perdendo emprego e renda e que, por conta da pandemia, não tinham literalmente para onde correr”, lembra Alessandra Abreu Crippa, de 49 anos.

Formado por mais de 600 voluntários, o Voluntariado Einstein atua em seis frentes, entre elas o Programa Einstein na Comunidade de Paraisópolis (PECP), onde Alessandra trabalha. Mas, pela primeira vez em 60 anos de história, no dia 17 de março, o Voluntariado não viu uma alternativa que não suspender temporariamente as atividades presenciais. “Então nos mobilizamos para promover as campanhas de doação pensando em ajudar as famílias mais afetadas pela crise”. Em poucos dias, a presidente do Voluntariado, Telma Sobolh, com o apoio dos agentes comunitários de saúde, mapeou as necessidades de moradores das regiões de Vila Andrade e Campo Limpo. Inicialmente, era urgente a arrecadação de kits de higiene para uma população de 50 mil pessoas.

 

Longe, mas perto

Alessandra, que atuava na frente da Educação Cidadã, trocou os atendimentos presenciais na biblioteca em Paraisópolis por uma agenda e telefone. “Liguei para todos os meus contatos e amigos do meu marido e pedi doações. Era como eu podia ajudar naquele momento. Tivemos que nos reorganizar muito rápido para continuar atendendo as pessoas”, conta.

Vieram outras campanhas e novas formas de trabalhar: voluntários trocaram visitas nos hospitais por ligações telefônicas e vídeos. Produziram conteúdo para ajudar os idosos que moram no Residencial Israelita Albert Einstein a manter as atividades do dia, distribuição de kits de pintura e até bingo cantado nos corredores dos quartos para garantir a segurança da saúde de cada um.

Em Paraisópolis, perceberam que alunos das escolas públicas tinham dificuldade de acompanhar as aulas, que agora eram online. “Muitos não conseguiam acessar as plataformas. Outros não conseguiam acompanhar o conteúdo e os pais estavam preocupados porque não sabiam como ajudar”, diz Alessandra, que atualmente está no grupo de tutoria de alunos. Ele é formado por três voluntários que atuam presencialmente e 18 que dão assistência online. O Trabalho beneficia mais de 200 crianças e adolescentes.

Além das aulas de apoio e esclarecimento de dúvidas sobre português, matemática, geografia e ciência, Alessandra e os outros voluntários planejam as aulas, ensinam a usar as ferramentas de aulas online, acompanham as atividades nos aplicativos e conversam com as professoras e pais para entenderem a melhor forma de ajudar.

“Na primeira semana, ajudamos a mãe de um aluno de oito anos que está no terceiro ano a instalar o aplicativo das aulas online. Liguei para a professora para explicar que eu era voluntária e o estava ajudando nas lições. Fizemos uma parceria muito legal com a família e a escola. Em pouco tempo, ele conseguiu acompanhar as aulas e teve dispensa para podermos atender outro aluno”, conta. Mesmo assim, Alessandra se ofereceu para continuar o acompanhamento online.

“Nunca estivemos tão perto dos nossos beneficiados quanto agora. Como é online, entramos nas casas das pessoas, participamos da vida das famílias porque somos um apoio. Isso faz muito bem. Eu dou e recebo tudo em dobro. Saber que eu estou ajudando alguém me faz feliz”, diz emocionada.

 

O começo de tudo

Nascida em Santa Catarina, Alessandra mudou-se para São Paulo há dez anos com marido e filho especial. Renunciou à carreira de administradora para se dedicar aos cuidados com o filho, que tem atraso cognitivo, dificuldades de fala e motora. Foi em uma consulta médica que conheceu o voluntariado do Einstein.

“O que eu sabia sobre Paraisópolis era o que era noticiado. Ou seja, eram coisas ruins. Mas passando oito horas do meu dia lá há anos, minha visão é totalmente diferente. É uma comunidade rica, formada por pais de família que batalham pela vida, pelo sustento de suas famílias. Hoje, me sinto ofendida quando falam mal de Paraisópolis e das pessoas que vivem lá porque eu as conheço”, conta.

Ela conta que o voluntariado a ajudou ter uma outra perspectiva da vida. “Eu sempre tentei não me transformar em vítima. Aprendi que a dor que a pessoa carrega é sempre dor, independentemente de ser rico ou pobre. Todo mundo tem problema. Pode ser alcoolismo, doenças da velhice, solidão, desemprego, ou qualquer outro. Mas é sempre dor. E algumas pessoas têm mais condições para encararem essas dificuldades e outras precisam de ajuda. Acho que todo mundo deveria ser voluntário, praticar empatia. Isso nos torna melhores”.