Elizeu Ventania

Vinte e dois anos na memória da poesia

Nesta segunda-feira (19), completará 22 anos de ausência do Rei da Canção e patrono da Estação das Artes de Mossoró-RN, o poeta Elizeu Ventania. Retomamos este nosso espaço de divulgação de poesia, lembrando um pouco deste mestre da cultura popular.

Elizeu Elias da Silva (Elizeu Ventania), nasceu em Martins/RN, aos 20 de julho de 1924. É filho de Eustáquio Rodrigues da Silva e Maria Raimunda da Conceição e começou a trilhar o caminho da poesia popular em 1942.

Participou de programas de rádios, como: Rádio Poti, Rádio Nordeste, Rádio Rural e Rádio Cabugi, em Natal; Difusora, Rural, Tapuyo e Libertadora, em Mossoró; Rádio Rural de Caicó; Rádio Vale do Jaguaribe, no Ceará, além de se apresentar em canais de TV como TV Ponta Negra, em Natal, e Verdes Mares, no Ceará, no Programa Ceará Caboclo.

Participou de vários Festivais de Violeiros em todo o Nordeste, chegou a gravar dois LPs de canções de sua autoria, além de um LP com vários estilos de cantoria improvisada, em parceria com aquele que foi seu principal colega, João Albino da Costa, o famoso João Liberalino, também falecido. Mais de cem mil fitas K7s rodam pelo Nordeste inteiro com suas canções. Elizeu foi uma das maiores expressões da cultura do homem do campo em todo o Nordeste brasileiro. Abaixo, seguem dois dos seus poemas mais clássicos.

 

 

SERENATA NA MONTANHA

 

Eu sonhei quando dormi

No mesmo sonho eu ouvi

Uma voz dizendo: vá

Enfrentar a verde mata,

Fazer uma serenata

Na montanha do Pará.

 

Eu entrei de mato adentro

Quando cheguei lá no centro

Afinei meu violão,

Como estava em terra estranha

Pedi licença à montanha

E cantei uma canção.

 

Quando eu estava cantando

Vi um índio ali chegando

E começou a falar:

Atenda ao morubixaba

Me acompanhe até à taba

Que o pajé mandou chamar.

 

Eu parei meu instrumento

E ali naquele momento

De viver perdi a fé

Com meu violão de lado

Nesta hora fui levado

À presença do pajé.

O pajé falou comigo

Foi dizendo: meu amigo

Cante aí uma canção

Eu cantei, ele alegrou-se

Uma índia apaixonou-se,

Me ofertou seu coração.

 

Eu mirei sua beleza

Foi essa a maior surpresa

Que no mundo eu pude ter,

Porque nunca vi tão bela

Uma índia igual àquela

Nunca mais eu hei de ver.

 

Ali naquele momento

A pedi em casamento

E o pajé não fez questão,

Eu casei-me lá na mata

Houve uma serenata

De viola e de canção.

 

Quando a festa terminou-se

Todo mundo retirou-se

E eu dali sai também

Com a índia pela flora

Porém nesta mesma hora

Acordei, não vi ninguém.

 

 

 

INVERNADA NO SERTÃO

 

No meu sertão a chuva chega em fevereiro

O fazendeiro se alegra a contemplar

E o vaqueiro se levanta bem ligeiro

Sela o cavalo e cuida logo em campeaer.

 

O camponês bate mão à sua enxada

Com a filharada dá começo à plantação.

Quando é de noite relampeia, o trovão zoa

Oh, quanto é boa nossa vida no sertão.

 

Pelo inverno quando é madrugada

A passarada dá sinal que o dia vem.

Rios correndo, mato verde, açude cheio

Naquele meio todo mundo vive bem.

 

E o sertanejo trabalhando em seu roçado

Muito animado com o ronco do trovão

E a meninada toma banho de lagoa

Oh, quanto é boa nossa vida no sertão.

 

Milho maduro, feijão verde com fartura

Agricultura dá prazer ao pessoal

Lá na fazenda tem coalhada, leite e queijo

Pra o sertanejo é uma vida sem igual.

 

No mês de maio o rapaz chama a morena

Vão à novena lá na casa do patrão

Quando é de noite o povo reza, o “fógo” entoa

Oh, quanto é boa nossa vida no sertão.

No mês de junho a fartura está geral

E o pessoal todo alegre em seu lugar

Chegando a noite de São João tem a fogueira

A noite inteira todo mundo quer brincar

 

Lá no terreiro se reúne pai e filho

Assando milho na fogueira de São João

E o povo come milho verde que enjoa

Oh, quanto é boa nossa vida no sertão.