Dr. Hollywood, quem diria, acabou suplente

* Tomislav R. Femenick

Há tempo, não faz muito, talvez uns cinco anos ou pouco mais, fui procurado por um conterrâneo, morador dos Estados Unidos, que tem uma microempresa aqui e outra lá, na Flórida. Desejava algo simples, muito simples, no pensar dele: queria um estudo de viabilidade econômica, para anexar ao pedido de empréstimo que iria fazer junto a um banco estatal. Já estava tudo certo. A diretoria do banco já teria concordado e ele, antecipando-se, traduzira e adaptara o modelo de um projeto para financiamento de imóvel que assinara com uma instituição financeira, lá em Miami. Era só eu assinar, reconhecer a firma em cartório, esperar o dinheiro ser liberado pelo banco e receber R$ 1.500,00. Isso mesmo, você não leu errado: um mil e quinhentos reais. Não dei nem resposta.

De outra feita, mas longe no tempo, lá pelos anos 1990, com apoio do Wall Street Journal, eu e meu amigo Jarbas Resende (ele era o representante do jornal em São Paulo), promovemos um seminário em New York, sobre oportunidades de negócios Brasil-Estados Unidos, com expertise adquirida em três outros seminários que organizamos sobre negócios Brasil-Flórida. Os expositores eram diretores da Câmara de Comércio Brasil-USA, do Banco Interamericano de Desenvolvimento, do Banco Central do Brasil, da Bolsa de Valores de New York e executivos de grandes empresas que atuavam aqui e lá. Precisávamos de uma pessoa conhecida para fazer a abertura e o encerramento do certame. Quem melhor, senão Paulo Henrique Amorim, à época, repórter da Globo em New York. Convidamos, ele aceitou, acertamos detalhes, assinamos o contrato. Aí começaram os problemas. O Amorim queria dar pitacos em tudo. Foi preciso dar um “chega pra lá” nele.

Para não ficar só no passado, atualmente temos três exemplos de tutores autonomeados, neste novo tempo de comunicação frenética. O primeiro deles é uma celebridade, o Dr. Roberto Miguel Rey Júnior, ou Doutor Hollywood, que, em um programa de televisão, mostrava os bastidores de cirurgias plásticas realizadas em Beverly Hills, nos Estados Unidos. “Julgando-se”, em 2018, o Dr. Rey se ofereceu para ser presidente da República. Como ninguém o quis, lançou-se candidato a deputado federal: não teve votos suficientes. Este ano pleiteou a vereança em Vargem Grande Paulista-SP. Só conseguiu ser suplente de vereador.

O deputado federal Luís Miranda (eleito com mais de 65 mil votos) é um caso à parte. Antes tinha uma clínica de estética na capital federal, que foi fechada pelo Conselho Regional de Medicina. Em 2014 foi morar na Flórida, onde passou a ostentar um padrão de vida milionário e a propagar discursos motivacionais para quatro milhões de seguidores. Por trás de tudo estava o projeto de uma espécie de pirâmide financeira. De volta ao Brasil, elegeu-se deputado federal e ganhou um escudo protetor: a imunidade parlamentar. Segundo o site www.jusbrasil.com.br, há quase cem processos em andamento que envolvem sua excelência; mas nada o atinge. Sua plataforma eleitoral foi simplesmente dizer que morava nos Estados Unidos.

Entretanto, o maior embuste nacional, morando nos States, é o ex-astrólogo Olavo de Carvalho. Sua história é interessante: foi militante do Partido Comunista Brasileiro de 1966 a 1968, hoje é ferrenho anticomunista; autodidata, no final dos anos 1970, colaborou em um curso sobre astrologia, mas não possui nenhum título acadêmico formal; nos anos 1980, integrou uma ordem mística esotérica muçulmana, a Tariqa, e hoje se diz católico. Olavo de Carvalho é um influence digital escatológico, que ministra cursos de filosofia pela internet. Desbocado (é recorrente no uso de palavrões) e irreverente, suas opiniões são entendidas como a luz da montanha, por uns, e despropositadas e inconsequentes, por outros. Vez por outra, entra em colapso mental. Segundo ele, a pandemia de coronavírus seria “a mais vasta manipulação de opinião pública que já aconteceu na história humana”.

Juntando esses casos, cheguei à conclusão: alguns brasileiros que moram nos Estados Unidos acham que nós outros, os brasileiros que moramos aqui no Brasil, somos mentecaptos, anencefálicos, deficientes mentais e idiotas. É… às vezes, somos mesmo.

 

Tomislav R. Femenick – Mestre em economia com extensão em sociologia