Dia da Consciência Negra: Três escritoras negras brasileiras para ler e recomendar

Mulheres que usaram a escrita como arma na luta antirracista

Dentro da literatura nacional não faltam autoras, filósofas e intelectuais que há anos discorrem sobre a vivência negra e suas múltiplas nuances. No dia que rememoramos a pauta racial, sendo chamados a repensar falas, práticas e pensamentos discriminatórios, somos convidados ainda a consumir mais – ou pela primeira vez, o conteúdo daquelas colocadas à margem da sociedade, mas com muito conhecimento a ser compartilhado.

A lista de autoras é enorme e apesar das histórias serem diferentes, todas perpassam um ponto comum, a cor das escritoras e suas diversas implicações. Entre as célebres que utilizaram a escrita como arma na luta antirracista, temos Carolina Maria de Jesus, Lélia Gonzalez e Conceição Evaristo, que através de uma notória capacidade de expressão, conceituaram brilhantemente o que é ser uma mulher negra em um país racista e preconceituoso.

Autora de Quarto de Despejo (1960), Carolina Maria de Jesus, nasceu em 1914, na cidade de Sacramento, em Minas Gerais. Mãe de três filhos, trabalhou como catadora de papel e empregada, dessa vivência sofrida desenvolveu o hábito de escrever sobre seu cotidiano em forma de diário. Admirado pela escrita de Carolina, o jornalista Audálio Dantas, lhe ajudou a publicar o primeiro livro (citado na 1ª linha), em que ela descreve o que é ser uma mulher, negra, mãe, solteira e moradora da favela. Além desta obra, também publicou em vida, Casa de Alvenaria (1961), Pedaços de Fome (1963) e Provérbios (1963).

A intelectual, ativista e professora, Lélia Gonzalez, nasceu em Belo Horizonte, no ano de 1935. Vinda de família humilde, graças aos esforços dos pais e do irmão jogador de futebol, teve a oportunidade de estudar e tornou-se filósofa e historiadora. Justamente no ambiente acadêmico que encontrou as barreiras sociais que conduziram-na a militância feminista e ao movimento negro. Foi pioneira nas discussões sobre a relação entre gênero e raça. É autora dos textos, Racismo e Sexismo na cultura brasileira (1980), Lugar de Negro (1982) em parceria com Carlos Hasenbalg, e seus escritos compõem a coletânea Por um feminismo afro-latino-americano (2020).

Autora do termo EscreVivências, expressão utilizada para designar a escrita oriunda do cotidiano, de experiências e lembranças próprias, Conceição Evaristo, nasceu em Belo Horizonte, em 1946. Formada em Letras, possui Mestrado e Doutorado na área da Literatura e começou a publicar seus escritos aos 44 anos, em 1990. Participante ativa dos movimentos de valorização da cultura negra no Brasil, suas principais temáticas envolvem a memória, condição do negro na sociedade, em especial, a mulher negra, a luta e resistência e os reflexos da escravidão. Entre suas publicações consta Ponciá Vicêncio (2003), Becos da Memória (2006), Poemas de recordação e outros movimentos (2008) e Olhos D’água (2014).

Além destas, Maria Firmina dos Reis, Alzira Rufino, Sueli Carneiro, Djamila Ribeiro, e tantas outras autoras/filósofas nacionais poderiam compor a lista, fora as internacionais que também atuam na luta antirracista. Diante de tantos debates levantados nos últimos anos, que as mulheres negras consigam ocupar cada vez mais espaços acadêmicos, alcançando melhores condições de trabalho e chegando também as posições de liderança para que todos os ambientes sejam devidamente empretecidos.