David Uip

David Uip critica “alarmismo” em torno do coronavírus

Em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo, o infectologista David Uip reforça as críticas ao alarmismo que se criou diante do coronavírus. Ele coordena o Centro de Contingência para o Coronovírus do Estado de São Paulo e afirma que o foco dos governos e do sistema de saúde deve ser a assistência à população com maior risco de complicação, como idosos e pacientes com doenças crônicas.

Leia a entrevista feita pela jornalista Fabiana Cambricoli.

Como o senhor vê a disseminação do coronavírus pelo mundo? Era um cenário esperado?
Vírus têm diferenças genéticas, mas esses vírus que causam doenças do trato respiratório têm um comportamento semelhante. Eles se espalham porque essa disseminação se faz de forma muito simples, através de gotículas, então é impossível predeterminar fronteiras para os vírus. Acho que tudo que está acontecendo está dentro do contexto. O que se espera é entender melhor a velocidade (de transmissão). Do mesmo jeito que ele parece pouco mórbido, ou seja, pouco causador de doença, ele está se replicando facilmente. Não é diferente de outros coronavírus. É um comportamento dentro do esperado de um vírus que causa de 5% a 10% das infecções pulmonares em adultos (outros tipos de coronavírus são responsáveis por doenças respiratórias comuns, como resfriados). Ele tem uma prevalência alta, sempre teve.

A outra coisa é como vai se comportar em um país tropical como o Brasil, que está no verão: se vai se portar à semelhança do que está acontecendo nos países de clima frio ou não, mas parece que não. O que está muito estranho são as medidas estão sendo tomadas por governos e por instituições, que não têm muito suporte nem na história nem suporte técnico.

Estou achando que a OMS precisa analisar melhor. É ou não é uma pandemia? Acho importante a OMS determinar isso de uma vez porque muda um pouco a expectativa dos países. Quarentena é uma coisa muito complicada. Na minha opinião, muito discutível. Se você analisar as recomendações da OMS de quarentena, elas são pouco factíveis para países em desenvolvimento. Como você pensa que pode isolar as pessoas em um quarto? Não conhece como funciona uma favela. Tem muitas coisas discutíveis. Aqui no Brasil, minha percepção é que está sendo tudo muito bem conduzido pelo ministério (da Saúde), é uma postura muito lúcida, as condutas estão bem discutidas. Não acho que instituições, como escolas e bancos, deveriam tomar essas decisões individuais (de quarentena e isolamento de viajantes). Não vamos ter vacina nem medicamento nos próximos meses. Se tivermos o ritmo de expansão mundial como parece, o que vai acontecer? Todo brasileiro que viajar para qualquer país, quando voltar, vai ter que ficar de quarentena. Precisa tomar cuidado porque você cai numa armadilha. Foram atitudes precipitadas e não embasadas. E mais do que isso: quem faz a política pública é o Ministério da Saúde. Não adianta cada um fazer o que acha melhor porque aí perde a mão, aumenta o pânico.

A quarentena de cidades inteiras, como ocorreu em Wuhan, na China, é controversa. Há quem diga que pode piorar o surto local…
Discuto muito o que foi feito. Dá uma olhada no navio (Diamond Princess, que ficou em quarentena no Japão após um caso confirmado). Quando atracou, tinha um caso confirmado. Agora, são mais de 700. Você deixou em uma situação de casa fechada uma porção de pessoas. Discuto muito o que eu chamo de macroisolamento.

E o que seria ideal?
Não tem mundo ideal para infecção viral.

Mas no caso do Brasil, que ainda não temos surto, como deve ser a condução caso comece a transmissão?
Redução de danos. Sou absolutamente contra qualquer tipo de isolamento de cidades, ainda mais no Brasil, porque ela não é real, não vai acontecer. Por isso que estou questionando muito a OMS não decretar uma pandemia porque você acaba com essa situação. Estamos diante de uma doença viral, de pouca morbidade e de baixa letalidade, com grupos de gravidade muito bem estabelecidos. A gravidade está poupando jovens e está atingindo pessoas com comorbidades ou acima de 60 anos, especialmente acima de 80. Isso está claríssimo. Sou contra o isolamento de cidades, não é factível e não acontece no mundo real. A solução é cuidar de pacientes graves.

E quanto ao isolamento individual? Por que acha que essas medidas de isolamento propostas pela OMS não são factíveis para um país em desenvolvimento?
Eles dão normas de quarentena onde definem distância de um indivíduo para o outro, se possível ficar quartos isolados, apoio psicológico, lixo controlado, uma porção de coisas. Como você faz isso em um país que tem enormes diferenças, mesmo dentro de uma cidade como São Paulo? Isso é para alguém que não sabe o que é uma favela, não sabe o que é dormir dez pessoas num quarto só. E você não muda isso com uma medida. Acho que as normas são pouco factíveis.

E o factível seria focar o atendimento em quem precisa de uma atenção maior, em quem tem maior risco de apresentar a doença com gravidade?
Tem de evitar a mortalidade. Criou-se uma dimensão maior do que o fato, por enquanto. O que você pode fazer (para evitar complicações)? Você tem duas possibilidades de complicação: uma é a própria ação do vírus e a outra são as complicações bacterianas. Algo que é possível fazer é aumentar a vacinação para essas doenças bacterianas em populações pré-estabelecidas: vacina anti pneumocócica, vacina anti-hemófilos influenza, vacina mais precoce contra o vírus influenza da gripe. São coisas indiretas que têm algum tipo de ajuda.

Tem algum medicamento sendo estudado que pareça mais promissor?
Tem 80 trabalhos em andamento de drogas que estão sendo testadas para o coronavírus. Os principais estão na China. Promete-se resultados para o final de abril, que podem ser resultados favoráveis ou não. O trabalho de teste de uma nova droga não é simples porque sempre vai ter de ter o grupo controle. Um grupo de perfil parecido, que vai tomar a droga candidata contra o grupo placebo. O resultado, se serve ou não, é ao final do tempo de acompanhamento, senão você fica no ‘achômetro’. Estou vendo publicações de tratamento de um caso com sucesso. Isso não vale. O lado de vacinas é mais complicado e mais demorado. Na hora que começa com pesquisa clínica, tem primeiro um grupo pequeno grupo de voluntários para ver se ela é imunogênica, ou seja, se tem competência para produzir anticorpo específico, e para ver se é segura. Ultrapassado isso, você vai para grupos maiores, inclusive de idades e sexos diferentes, para checar a mesma coisa. Não é algo que aconteça do dia para o outro.

Alguns pesquisadores dizem que poderemos ter vacina em um ano. Isso não é muito otimista?
É otimismo porque, para ter segurança e competência, normalmente demora mais, mesmo entendendo que você está em um momento crítico. Tem espaços que não podem ser ultrapassados, têm de ser cumpridos. Não pode dar uma vacina que depois você descobre que tem efeitos adversos piores que a doença.

Quais os cenários mais prováveis para os próximos meses do surto e qual deve ser a ação dos governos?
Primeiro, vai aumentar o número de países com casos e o número de casos por país.Segundo, vai se perder o dado epidemiológico. Aquela história de onde veio o caso vai se perder. A hora que começar a ter aumento de casos, não vai ter como fazer o diagnóstico etiológico, então vai ser tudo dentro do grupo de pacientes com a síndrome respiratória aguda. Vai ser diagnóstico clínico. Tem duas coisas que você precisa fazer: primeiro registrar que chegou no País e depois registrar que está circulando. Chegou a isso, ponto, acaba aí.

Sobre o cuidado aos pacientes mais graves, o SUS tem capacidade para isso?
Depende muito do que estamos falando. O Estado de São Paulo tem hoje 101 hospitais estaduais, 100 mil leitos, 20 mil só do SUS, 7 mil leitos de UTI. É uma estrutura robusta. Se essa coisa tiver demanda fora do comum, ninguém sustenta, nem São Paulo, nem Brasil, nem lugar nenhum do mundo. Então vai ter de limitar aos doentes que têm indicação de internação. E aí as estruturas vão se adequando: adia as cirurgias eletivas, dá agilidade aos pacientes de UTI. Tem uma porção de formas de fazer a gestão de leitos.

Acha correta a comparação que alguns analistas fazem do cenário de transmissão do coronavírus com a situação vivida em 1918, com a gripe espanhola?
Não, é outro mundo. Até muito recentemente, você não enfrentava essas coisas, você esperava os acontecimentos. Agora você parte para cima. Em dois dias, estabelece o genoma do vírus. Já tem um monte de laboratórios fazendo pesquisa de vacina, de medicamentos.

Como alguém viveu o início da epidemia de HIV, na década de 80, e outros surtos no País, como vê esse tipo de ameaça? É algo que assusta?
O primeiro diagnóstico de aids autóctone do Brasil foi aqui do consultório. Foi diagnosticado em 1982 e publicado em 1983. Começamos a cuidar de uma doença que não sabíamos as vias de transmissão, não sabíamos o que causava e não sabíamos como diagnosticar. Enquanto fomos aprendendo, morreram milhares de pessoas. É algo que marcou minha geração. Aprendemos muito. Depois desse cenário devastador, de imenso sofrimento, não tem notícia nova para nenhum de nós. Não me assusto com nada disso que está acontecendo. O mundo é prepotente, acha que vai dar conta dos microorganismos. Isso nunca aconteceu e nem vai acontecer. Eles mudam, se transformam, se reativam, então isso é mais um capítulo da história, principalmente das doenças virais. Qual é o divisor de águas? É a vacina. Você controla quando tem vacina. Do lado do microorganismo, ele evolui. Do outro lado, corremos atrás. O que não dá é pré-determinar o que vai acontecer. É cedo para análises definitivas.

Esse pânico em torno do coronavírus não acaba mais prejudicando do que ajudando na contenção do surto?
É um desserviço. Olha o que está acontecendo com máscara e álcool-gel. Está em falta e já quadruplicou o preço. Não tem o menor sentido. Máscara para uso no dia a dia é uma besteira. Inclusive porque tem durabilidade de duas a três horas. E álcool gel é importante, mas é igual a água e sabão. As pessoas precisam ter a responsabilidade social de não sair comprando lotes de álcool gel, comprando todas as caixas de máscaras, estocando alimento. Não tem nexo.