Cuba e Venezuela: como países bloqueados conseguem enviar ajuda médica internacional?

Na América Latina, Cuba e Venezuela são os únicos países que sofrem com um bloqueio comercial e econômico dos Estados Unidos. No caso venezuelano, são 145 medidas unilaterais que iniciaram em 2015, quando o então presidente Barack Obama declarou a Venezuela como uma ameaça inusual para a segurança dos Estados Unidos. A organização não governamental venezuelana SURES estima perdas de até 114 bilhões de dólares.

Já a ilha caribenha enfrenta um bloqueio total desde 1962, que provocou até março de 2019, segundo um relatório do Ministério de Relações Exteriores de Cuba, danos de 4,3 bilhões de dólares.

Apesar das cifras, Cuba tem uma das menores taxas de contágio no continente, até o momento foram computados 40 infectados pelo novo coronavírus. O país criou o Interferon Alfa 2B, medicamento mais efetivo no combate à covid-19 e agora está enviando médicos para vários países do mundo para apoiar as equipes de saúde.


Avião da empresa estatal venezuelana Conviasa aterrissou no aeroporto internacional Simón Bolivar, no último fim de semana, trazendo especialistas cubanos. / Chancelaria venezuelana

Brasil de Fato conversou com Orlando Romero Harrington, analista político, professor, ex-chefe de gestão de comunicação da Escola Latino-americana de Medicina Dr. Salvador Allende  e é presidente do Instituto de Comunicação Zorba.

Brasil de Fato –  A Venezuela foi o primeiro país a adotar medidas contra a epidemia da covid-19, decisões que no início foram consideradas “drásticas” por alguns governos, mas que depois acabaram sendo adotadas por muitos países. Você acredita que existe um uso político da pandemia mundial?

Orlando Romero Harrington: Existiu um uso político da pandemia em relação à forma como cada governo, de acordo com sua orientação política, deu respostas a essa crise. Acredito que existem dois casos em que se politizou a pandemia. Em primeiro lugar, os Estados Unidos. Trump usa a pandemia para construir um inimigo, tenta unificar setores para ter um apoio eleitoral contra um suposto”inimigo comum”.

Trump está fabricando há algum tempo uma espécie de xenofobia contra a outroriedade, contra o estrangeiro. Essa xenofobia, que já está implícita contra os muçulmanos desde o atentado às torres gêmeas, exacerbando nas pessoas uma associação do muçulmanos ao terrorismo, agora também tenta aumentar o preconceito contra os imigrantes latino americanos, tentando colocar esses setores da população como inimigos.

Como se esses imigrantes estivessem “roubando” o trabalho da classe média branca dos Estados Unidos.
Para Trump, pensando num nível de estratégia eleitoral, que inclui o uso das redes sociais, o uso de Big Data é fundamental para criação de um inimigo comum estável para poder criar uma narrativa de ódio e contraposição a um líder positivo, que nesse caso seria Trump.

Com a aparição da pandemia do covid-19, que eu e muitos outros especialistas acreditamos ser uma arma biológica, Trump pode engrossar o caldo de ódio ao povo chinês, justificando essa guerra comercial contra  a China e todas as suas ações contra a tecnologia do 5G, que China desponta a nível mundial.

O outro caso claro de uso político da pandemia é o Reino Unido. Na última sexta-feira (20), o governo afirmou que permitiria a disseminação do vírus para que se elimine quem tenha que eliminar e se salve aqueles que devem salvar-se. Então, definitivamente é uma política de extermínio, genocida e orientada a essa população estrangeira que não têm acesso aos serviços médicos.


“Graças aos esforços dos nossos povos, nossos países estão seguindo adiante e assim será, apesar dos poderes hegemônicos”, afirma Orlando Romero / Reprodução Instagram

Como explicar o fato de que países bloqueados, como Cuba e Venezuela, agora estejam na vanguarda do combate a essa pandemia mundial?

A explicação tem que ver com os sistemas de governo. Tanto Cuba como Venezuela tem governos revolucionários, nos quais o eixo central do governo é o ser humano, em tratar de satisfazer as necessidades básicas da população.Basta analisar a quantidade de médicos graduados em Cuba e Venezuela e veremos que o investimento em educação é uma política de Estado. A capacitação e formação de médicos nesses dois países supera a média em qualquer outro país.

E não é só isso. Existem outras políticas que expressam essa orientação. Podemos citar a Missão Bairro Adentro, que permitiu a inserção de centros de atenção primária em saúde nas comunidades com apoio dos médicos cubanos, e tem sido um suporte nesses 20 anos de governos revolucionários.

Outra questão é a ética da medicina revolucionária diante da ética da medicina comercial. Neste momento, tanto Cuba como Venezuela têm recebido pedidos de ajuda médica por parte de vários países europeus. Isso também porque a medicina cubana e venezuelana têm princípios de humanidade, solidariedade, respeito às culturas e soberania nacional de cada país. Apesar de sofrer um bloqueio dos Estados Unidos, essas duas nações têm ótimas relações diplomáticas com outros países.

Esses dois países, pequenos, bloqueados, invisibilizados ou satanizados pelos grandes oligopólios de comunicação são neste momento um exemplo mundial do que deve ser a medicina.


130 médicos cubanos são recebidos em ato solene na capital venezuelana,Caracas. / VTV

Como a Venezuela poderia apoiar a Itália, quando o país vive uma série de dificuldades para atender a sua população em termos de saúde pública, por conta tanto do bloqueio, como da crise econômica?

Venezuela ajudará Itália com o envio de médicos comunitários. A maioria desses médicos foram formados dentro das suas comunidades, então conhecem  muito bem a realidade de zonas de difícil acesso geográfico, como de políticas públicas. São médicos que sabem atender às classes mais desprivilegiadas. São médicos que aliam conhecimento científico à solidariedade revolucionária, por isso os chamamos aqui de soldados de botas brancas.

Qual é o papel do internacionalismo e da solidariedade entre os povos em um momento como este?

Para um venezuelano que sou, o humanismo e a solidariedade internacional é algo tácito, faz parte dos valores cotidianos que são defendidos aqui. No entanto, parece que a solidariedade entre os povos é algo a ser invisibilizado e satanizado pelos meios internacionais, principalmente sediados em potências hegemônicas.

Nesse sentido, todos os atos que Cuba e Venezuela têm feito não aparecem nesses grandes meios, porque para esses poderes fáticos não é interessante que exemplos como esse se repitam, porque geram dúvidas sobre o discurso dessas potências hegemônicas contra esses países com governos revolucionários.

Você acredita que depois da epidemia Cuba poderia ter mais apoio internacional para exigir o fim do bloqueio econômico imposto pelos Estados Unidos?

A atuação de Cuba não está direcionada a conseguir a retirada do bloqueio dos Estados Unidos. Acredito que o governo cubano está enviando seus médicos para todo o mundo porque isso é parte dos seus princípios éticos revolucionários, da missão do governo e do povo cubano. Agora sim, deve existir uma pressão internacional. Todos os países estão observando a atuação de Cuba, que contrapõe as principais características dos governos hegemônicos. Então a nível de opinião pública deveria haver uma mobilização para exigir o levantamento do bloqueio.

Cuba poderia ser um exemplo de gestão de saúde pública no mundo?

Definitivamente Cuba é um farol a nível mundial. As missões médicas, a formação de médicos comunitários, a formação de novos profissionais através da Escola Latino-americana de Medicina (Elam), que recebe estudantes de todo o planeta, enfim todos os avanços em termos de saúde pública e de medicina na Venezuela tem a ver com Cuba.

É claro que Cuba é um exemplo não só para governos de extrema-direita, de direita e de centro-direita, mas também para governos de esquerda no mundo. A preocupação do governo cubano pela saúde dos seus habitantes se baseia num modelo revolucionário socialista.

Buscamos em Cuba e em Venezuela um sistema que estabeleça a igualdade de condições. Por isso, nos momentos mais difíceis da humanidade, os povos, não os governos, mas os povos podem contar com essa mão solidária e humana de Cuba e da Venezuela.

Quais podem ser os impactos da pandemia do covid-19 numa economia como a venezuelana que já está em profunda crise?

A crise venezuelana não é um segredo para ninguém. O bloqueio financeiro que os Estados Unidos impõe à Venezuela afeta a sociedade de diversas maneiras. Uma delas, talvez a principal, é o bloqueio às farmacêuticas que nos suprem com medicamentos, mas também está o bloqueio à indústria alimentícia, à indústria metalúrgica, de produtos eletrônicos.

Por isso dizemos que o bloqueio tem um caráter genocida.Na semana passada o presidente Maduro solicitou um crédito ao Fundo Monetário Internacional e a resposta foi de que o órgão financeiro tinha dúvidas sobre quem era o presidente venezuelano, se era Nicolás Maduro ou Juan Guaidó.  O que é um absurdo, já que para todos os efeitos  legais, o presidente constitucional é Nicolás Maduro.Guaidó não passa de um fantoche dentro de uma narrativa do governo dos Estados Unidos para tentar controlar a Venezuela.

Os efeitos da pandemia ainda estão sendo controlados, mas a médio e longo prazo podem ser gravíssimos.
Por que ao bloqueio e à negativa do FMI soma-se o barril de petróleo custando cerca de 20 dólares.  Atualmente, para a Venezuela, devido ao seu tipo de petróleo, é mais caro produzir um barril de petróleo que vendê-lo. Portanto, o país vai se submergindo numa crise e é justamente por isso que o governo do presidente Maduro solicitou o empréstimo ao Fundo Monetário Internacional.

É uma ação cínica do FMI. Num momento em que a solidariedade internacional deveria ser uma bandeira que unifica os países do mundo no combate à epidemia, vemos como lamentavelmente organismos financeiros e governos hegemônicos insistem em manter um bloqueio econômico não só contra a Venezuela, mas contra outros países como Cuba. Graças aos esforços dos nossos povos, nossos países estão seguindo adiante, e assim será, apesar dos poderes e vontades hegemônicas.

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