CRENÇAS, CRENDICES E COSTUMES

NILO EMERENCIANO - Arquiteto, escritor e articulista

Estamos em 2021, lutando contra o vírus e a incompetência dos nossos gestores. Tentando sorrir e fazer da tristeza de um carnaval que passou sem festa, sem fanfarras e sem folia, uma alegria acabrunhada. E uma notícia da última sexta-feira (12) me chamou a atenção. Em Jaboatão, um sapo cururu foi achado no cemitério da cidade com a boca colada e ferimentos no corpo.

Salvo engano, deve se tratar de um feitiço daqueles feitos com gosto e jeito, para afastar ou aproximar alguém, ou até eliminar a vida do cristão. Os tempos são outros, e o cururu foi levado a uma clínica e tratado como se gente fosse e, acredito, tenha sido liberado. O alvo do feitiço deve ter, dessa forma, se safado.

Feitiço em tempos de tanta tecnologia? Ora vejam. Câmara Cascudo dedicou um livro (Meleagro) ao estudo do tema, ou mais precisamente ao catimbó e a figura do catimbozeiro. E faz ligações com tradições milenares, vindas do Egito e Grécia ou civilizações ainda mais antigas. Nossos preconceitos impedem que percebamos a riqueza cultural de tais práticas. Na Grécia antiga Apolo era evocado com oferendas colocadas nas encruzilhadas da mesma forma que os Orixás dos nossos cultos. Vi, em criança, algumas dessas oferendas. Eram colocadas em alguidares charutos, velas, jerimum, farofa, cachaça.

O paganismo jamais foi completamente erradicado. Está presente em nosso dia-a-dia. Aliás, os rituais cristãos são impregnados das velhas práticas pagãs. Os sacrifícios dos antigos continuam representados no sacrifício da santa missa, onde o cordeiro é Jesus, o Cordeiro de Deus, imolado, e o vinho e a hóstia representam a carne e o sangue. O altar está lá, o incenso, os trajes do sacerdote. São Longuinho ainda tem seu culto. Pessoas que dão três pulinhos, dizendo: “São Longuinho, São Longuinho, se eu achar tal objeto darei três pulinhos”. Longuinho, dizem, era Longínius, o centurião que cravou uma lança no corpo de Jesus.

Assisti a uma sessão de Umbanda. O pai de santo “puxou” um terço inteiro, à antiga, com todos os mistérios. E o canto de abertura dizia: “Eu abro a minha gira/com Deus e Nossa Senhora/eu abro a minha gira/ com Preto Velho de Angola”. Maria de Nazaré, nascida na Galileia, junto com um preto velho da África negra abrindo giras no nordeste brasileiro? Mistérios do sincretismo religioso. Aliás, o que tem a ver santo Antônio de Pádua, culto, orador, português, com Ogum, orixá africano? Diríamos que nada, mas o santo de Pádua virou Ogum no Brasil, e até santo casamenteiro, pendurado de cabeça pra baixo pelas moças encalhadas.

A semana santa antigamente era algo levado muito a sério. Jejuávamos de verdade, e não podíamos nem rir ou brincar. Aquele sacrifício só terminava no domingo de páscoa, quando fazíamos uma lauta refeição para compensar. Na Igreja do Bom Jesus, o corpo de Jesus morto era colocado no corredor central. Uma fila se formava. Pessoas com cédulas na mão. Essas cédulas eram esfregadas no corpo inerte de Jesus e depois de dobradinhas eram guardadas bem fundo na carteira para não faltar dinheiro o ano inteiro.

Vocês ouviram falar dos dias de escuro? Pois é. No Apocalipse fala-se de dias de trevas, quando as estrelas se precipitarão sobre a terra. Não haverá luz. Pois minha mãe guarda até hoje as velas da nossa primeira comunhão, por acreditar que só elas acenderão nesses dias. Minha mãe e minhas tias botavam vassoura atrás da porta, não admitiam sandálias emborcadas, diziam que coceira na mão direita era dinheiro, na esquerda carta, com certeza, e uma tesoura aberta embaixo da cama afastava o mal.

Apesar de não ser católico, conservo o hábito de fazer o sinal da cruz sempre que entro nas águas do mar. Oro ao dormir para meu Anjo da Guarda: Santo anjo do Senhor/meu zeloso guardador/se a ti me confiou /a piedade divina/ sempre me rege/me guarda/me governa/me ilumina/amém. E gosto de entrar em uma igreja vazia e conversar um pouco comigo mesmo e, acredito firmemente nisso, com Deus.

A vida com suas asperezas me afastou das religiões tradicionais. Louvo aqueles que mantem suas crenças simples. E lembro-me de uma imagem na parede da casa do meu avô que trazia escrito quatro singelos versos: Eu vi a minha mãe rezando/aos pés da Virgem Maria/era uma Santa escutando/o que a outra Santa dizia.

Disso eu tenho absoluta certeza.

Natal/RN