Ciclismo cresce em número de praticantes e de acidentes durante pandemia

Com o isolamento social em prática, muitas pessoas procuraram a bicicleta para fugir do sedentarismo, mas os motoristas parecem não ter recebido esse memorando

Por Danilo Queiroz e Taines Lais

 

A pandemia provocada pelo novo coronavírus SARS-CoV-2 (o agente causador da Covid-19) mudou a rotina de diversos países, e no Brasil não foi diferente. Com decretos de isolamento social em voga nos estados brasileiros, locais de agrupamento de pessoas como bares, restaurantes e academias, acabaram sendo fechados por segurança. Enquanto a diminuição das interações comunitárias eram toleráveis, muitos esportistas se sentiram perdidos por estarem distantes de centros de treinamento esportivo, precisando então de encontrar soluções contra o sedentarismo. Calistenia e caminhada foram algumas dessas alternativas, mas poucos tiveram um crescimento tão vertiginoso quanto o ciclismo.

“Quando iniciou a pandemia, eu tinha retornado a academia há pouco tempo. Mas com tudo fechado e comigo largado em casa, a bicicleta foi a alternativa que encontrei”, diz Victor Faustino, estudante de Educação Física. “O ciclismo é uma prática que proporciona um prazer gigantesco, onde você tem contato com o ar livre, em um momento de reflexão… Eu vejo como um exercício basicamente completo”, também nos relata a assistente social Giliane Freitas, outra praticante que conheceu o esporte na pandemia.

E pelo jeito, eles não foram os únicos a pensarem assim: de acordo com o levantamento da Aliança Bike, que representa a Associação Brasileira do Setor de Bicicletas, o mês de julho apresentou um aumento de 114% nas vendas de bicicletas em comparação com o ano de 2019 – e desde então, os meses seguintes de 2020 têm aquecido o mercado. “As vendas aumentaram muito nessa pandemia; a procura foi muito grande da galera que queria praticar esportes ao ar livre”, conta Leonardo Ribeiro, proprietário de uma loja de ciclismo e acessórios em Mossoró.

A demanda foi tão popular que nem o custo relativamente alto dos materiais de ciclismo (geralmente praticado por indivíduos de classe média para cima) conseguiu impedir a sua democratização; muito disso graças ao e-commerce e as plataformas de compra e venda de produtos usados. “Durante a pandemia, a busca foi tão grande que todo tipo de público começou a se interessar pelo ciclismo”, revela Leonardo. Só na OLX, um dos maiores do nicho de compra e venda de usados no país, as buscas por bicicletas e materiais esportivos essenciais para ciclistas ocuparam o primeiro lugar no ranking de buscas em itens de esporte e lazer no site, com 75% das menções durante o mês de setembro. “Por isso que é uma boa jogada fazer negociação de peças seminovas e usadas, já que não é todo mundo que consegue comprar uma bicicleta nova”, reforça o empresário.

 

Mas infelizmente para os ciclistas, outro número que cresceu em proporção ao número de praticantes foram os números de acidentes. No estado de São Paulo, a marca de 238 ciclistas mortos no trânsito entre o período de janeiro e julho de 2020 representa o maior índice de fatalidades nos últimos cinco anos. No Rio Grande do Norte, mais precisamente na capital Natal, a insegurança dos ciclistas motivou um protesto organizado pela Associação dos Ciclistas do Rio Grande do Norte (Acirn), com cerca de 300 condutores de bicicleta pedindo pelo respeito dos motoristas e a instituição de políticas de infraestrutura e mobilidade para os praticantes do esporte. De acordo com a Associação Brasileira de Medicina do Tráfego (Abramet), 13.718 ciclistas morreram em acidentes de trânsito no país, onde cerca de 60% desse número foram vítimas de atropelamentos, entre os anos de 2010 e 2019.

O estudante Bhreno Souza de 16 anos por muito pouco não entra nessa estatística. “No dia quatro de novembro deste ano, eu sofri um acidente de bicicleta. Eu estava saindo aqui do condomínio onde moro e um carro apareceu na contramão, entrou na rua por onde eu estava passando e bateu de frente comigo”, explica Bhreno. Antes mesmo dessa ocorrência, a segurança dos ciclistas em Mossoró já havia sido posta em discussão nesse ano após o falecimento do empresário Lais Nunes de Carvalho, vítima de atropelamento na BR-304, em julho deste ano. “Um apelo que faço para as políticas públicas é a criação de ciclofaixas ou ciclovias, para melhorar o trânsito de quem pedala, além da conscientização dos motoristas, porque infelizmente, muitos deles não ligam para os ciclistas”, apela o estudante.

Ainda que as políticas públicas relacionadas ao tópico precisem de uma elaboração relativamente maior, a conscientização pode ser um ótimo primeiro passo para o respeito mútuo entre ciclistas e motoristas. A cidade de Areia Branca, localizada a 50 quilômetros de Mossoró, foi um dos municípios pioneiros nessas ações de conscientização, realizando campanhas com motoristas e reforçando sinalizações específicas em vários pontos da cidade para demarcar a distância recomendada entre ciclistas e condutores de veículos. “A falta de estrutura para ciclistas força os esportistas a andarem em acostamento, coisa que não é feita para o trânsito de bicicletas. Por isso, nós tentamos conscientizar os motoristas e terem cautela e empatia com o ciclista, que também estão lá com um propósito, seja ele de transporte ou de esporte”, revela Rodrigo Góes, o gerente de esportes da cidade.

 

 

Embora exista um número crescente de acidentes, a prática do ciclismo possui muitos benefícios para a saúde, como o auxílio na perda de calorias, fortalecimento dos músculos, melhoria da circulação sanguínea e muitos outros. Além da melhora da saúde, o ciclismo também promove interação e socialização entre seus adeptos. Com o aumento do número de praticantes, grupos e equipes se organizam em pequenas excursões, a fim de garantir estímulo e segurança para os seus participantes. “Nós procuramos ter o máximo de cuidado, sempre andando equipados, com segurança”, finaliza Victor.