Caio César Muniz – Aldir Blanc, o nome, o homem e a lei

Neste período difícil pelo qual ainda estamos passando, é difícil mencionar qual a perda foi maior. Pra mim, as piores foram Luiz Di Souza, poeta, diretor, professor, doutor sem ostentação do título; Emery Costa, jornalista e mestre; vó Tita, que não era vó, mais era vó de todo mundo; tia Necy, professora, diretora, acadêmica, amiga, guia.

Em nível nacional, Abraham Palatnik, Moraes Moreira, Daniel Azulay, e Aldir Blanc. Pronuncia-se BLANC mesmo, não “Black”, nem “Blenc”, não “Brant”, aí é outra família e muito menos, acredite, Aldir Rouanet, aí eu não consigo nem imaginar o tamanho da fornicação intrafamiliar.

O certo é que o nome do autor de clássicos como “O bêbado e o equilibrista” e “Dois pra lá, dois pra cá”, imortalizados na voz de Elis, acabou entrando no quotidiano de cada figura em forma de gestor cultural que vai do riso à dor, digno dos poemas do enaltecido na lei criada pela deputada Benedita da Silva e aprovada graças a uma grandiosa mobilização nacional para socorro dos artistas neste tempo de pandemia.

Virou nome de Lei, mesmo que os responsáveis pela sua aplicação sequer saibam citar seu nome. Sua história então, é melhor nem perguntar. Talvez, se pudesse escolher, o boêmio Aldir BLANC preferisse ser desomenageado.

A Lei é bem-intencionada e, como eu já disse aqui mesmo, talvez fique marcada como aquela que escancarou as vísceras da descultura neste país. A que mostrou que não há gestores públicos comprometidos e, principalmente, preparados para amparar artistas. Tem sido um samba de crioulo doido a sua aplicação.

Em cidades menores, gestores mais perdidos que cego em tiroteio, estão se aproveitando da lei para aparelhar a máquina pública municipal, em algumas grandes também. Blanc não apoiaria isto, chutaria o pau da barraca.

Fala-se agora em prorrogação da lei, tendo em vista que não se está conseguindo chegar à ponta mais fraca da corda, os artistas menos informados, os que moram nos rincões mais distantes, onde mal chega luz, quanto menos internet. E ainda pela burocracia que “atravanca o pogresso”. É papel pra mais de metro, têm que se provar que faz e desfaz desde os tempos de Cabral. Muitos desistem. Enfim, a lei é válida, mas não valida a homenagem ao grande Blanc.