BANDIDOS & MOCINHOS

NILO EMERENCIANO - Arquiteto, escritor e articulista.

Um garoto do bairro era meu companheiro de sessões de cinema. Assim que o filme começava ele fazia a pergunta: “Quem é o artista”? Queria saber por quem ia torcer. Eu respondia aborrecido que ainda não sabia e ele logo repetia, “quem é o artista”? Mas entende-se a pergunta. Naquele tempo era fácil distinguir o bem do mal. O artista sempre montava cavalos brancos, usava roupa clara, namorava a professorinha do lugar, se apresentava de cabelos penteados (nem a maior briga conseguia desmancha-los) e roupas limpas, além de ser honesto e virtuoso. Seria hoje chamado Mauricinho. O bandido era o inverso. Era mal encarado, usava roupas negras, chapéu amassado, barba por fazer, cabelo desalinhado e não namorava ninguém: queria pegar à força as moças do lugar. Confiram. Zorro, apesar da máscara, era o perfeito janota, e até Tonto fazia o índio “certinho”. Super-homem, então, com aquele cabelo engomado e topete “pega moça” caindo na testa? Sem falar na cueca vermelha por cima da roupa. Gary Cooper, em “Matar ou morrer” (1952), enfrenta sozinho um bando de pistoleiros armados até os dentes. Ao final, devolve a estrela de xerife e vai embora da cidade levando (era o mocinho, mas não era besta) Grace Kelly na boleia da carroça. O príncipe Rainier ainda não havia dado as caras, se não teria levado bala também. Roy Rogers, Dale Evans, Tim Holt, e até Rin-tin-tin, um cão, seguiam esse padrão de bom mocismo. Lembram Shane, de “Os brutos também amam” (1953), em que ao final Alan Ladd enfrenta Jack Palace e quadrilha, pondo em risco a sua vida e partindo depois, deixando para trás a mulher por quem se apaixonara por que ela era casada?

Bons tempos aqueles. Depois, o cinema nacional ajudou a acabar com essa noção de bem e mal. Os vilões passaram a personagens principais dos filmes. “Lúcio Flávio, o passageiro da agonia” (1977), fazia do protagonista, assaltante de bancos, uma espécie de injustiçado. Mineirinho e Tião Medonho, ambos criminosos, também são idealizados em “Mineirinho vivo ou morto” (1967), e “Assalto ao trem pagador” (1962). Isso sem falar em Lampião, retratado em vários filmes e livros como uma vítima do coronelismo do nordeste, um bandido romântico como um Robin Hood que nunca foi. Os bandidos eram os volantes da polícia, chamados pejorativamente de macacos. Não é a toa que Hélio Oiticica, artista plástico, criou a frase “Seja Marginal, Seja Herói”. “Tropa de Elite” (2007), enfim, é um exemplo perfeito. Os métodos brutais do capitão Nascimento nos fazem refletir o quão difícil se torna distinguir mocinhos dos fora-da-lei.

Além disso, hoje o vilão tem belos galãs como intérpretes. Bonnie e Clyde, assaltantes de bancos americanos, foram interpretados por Warren Beatty e Faye Dunaway, simpáticos e divertidos em Bonnie e Clyde – Uma Rajada de Balas (1967). Brad Pitt, um super boa pinta, faz um cruel assassino mafioso nas telas em “O homem da máfia” (2012). E junto com George Cloney, outro bonitão, lidera um bando de ladrões de cassinos em “Onze homens e um segredo” (2001). Em “Lampião, Rei do cangaço” (1964), Leonardo Vilar (imaginem se tem algo a ver!) viveu o coronel Virgulino Lampião. Piratas eram salteadores do mar, violentos e sanguinários, mas o cinema faz com que nós passemos a torcer por Jack Sparrow em “Piratas do Caribe” (2003). Quem faz o vigarista falsificador Frank Abagnale no cinema é Leonardo DiCaprio, em “Prenda-me se for capaz” (2002). Como não se identificar com esses bandidos charmosos?

Não sei como hoje responderia ao meu amigo. Quem é o artista? Nem imagino, teria de confessar. Bandidos e artistas se fundiram e nos confundiram. E no Brasil de agora, quem são os artistas e vilões? Quem é inocente em todas essas idas e vindas, em que até os juízes e promotores são questionados, os culpados de ontem são os inocentes de hoje, e os heróis são desconstruídos? A quem culpar pelos mortos da pandemia? Os chineses, o ministro, os governadores, os comunistas, o guarda da esquina, o bispo? Vai ver, após a CPI, a culpa vai recair sobre as vítimas.

Tenho, é claro, minhas convicções e noção clara de quem são os criminosos. Mas nesses tempos tão complicados não sei se o meu amigo entenderia minha resposta ou se passaria a me detratar nas redes sociais, me chamando de maricas, calcinha justa, comunista ou coisa parecida.

NATAL/RN