As múltiplas faces de Nôra Aires

MÁRCIO DE LIMA DANTAS - Professor do departamento de Letras da UFRN

1.

O estado do Rio Grande do Norte não dispõe de uma tradição da Arte do Mosaico, a não ser que se considere a definição de tal técnica artística no sentido amplo. Assim sendo, o piso de uma igreja antiga preenchida com ladrilhos, formando toda uma geometria de planos harmônicos, simulando desenhos, seja chamada de Mosaico. Ou mesmo, o piso do adro da Igreja Matriz de Nossa Senhora das Dores, de Patu, com seus contornos, desenhos e datas, em pedra granítica branca e preta, também seja indigitado como Mosaico.

Mas preferimos nos ater a uma definição de Mosaico (“Obra das Musas”) como o preenchimento de determinado plano através de fragmentos de diversos materiais que são chamados de tesselas. Nesse sentido, o Mosaico ou a Arte Musiva é a arte mural por excelência, pois se propõe a revestir um plano no qual temos como elementos invariantes a parede, o cimento e a pedra ou fragmentos de azulejos, com diversas texturas e cores que, por meio da maestria do artista logra êxito em elaborar um todo harmônico. Algo não muito simples de trabalhar, na medida em que é necessário se distanciar do trabalho para que se meça as proporções de planos e compreender a necessidade de fazer uso de cromatismos vários para que, ao final, tenha um grande plano que, de determinada distância se possa fruir a arte do belo elaborada a partir de fragmentos.

 

2.

Nôra Aires se define como desenhista e pintora. Contudo a pintura não fora o suficiente para exprimir outras formas de dizer o mundo que pululavam no seu espírito. Necessitou buscar outros materiais em caráter quase sempre experimental para plasmar as formas que habitavam seu interior. A alma do artista quase sempre é vasta e só um meio de expressão não consegue dar conta de uma subjetividade interior plena de contornos, planos, linhas, cores, buscando vir a ser uma formar ou uma maneira de existir fora de uma realidade íntima. Foi dessa inquietude, nem sempre explicável, que surgiu o desejo da artista de manusear o mosaico, numa tentativa de saber qual seria o resultado de uma superfície revestida com determinadas espécies de materiais. Eis que surge a nossa primeira grande artista na arte antiga do Mosaico, técnica que atingiu seu apogeu na antiguidade, na Grécia e em Roma, depois o seu esplendor no Império Bizantino, com o triunfo da Igreja Católica e sua necessidade de expressar o abstrato das coisas advindas dos seus dogmas, discursos, santos e tudo o que fosse possível representar, para, o que dizem, fortalecer a fé por meio dos ícones.

 

3.

Nôra Aires têm em Gaudí (1852-1926), o arquiteto catalão, sua maior fonte de inspiração. Talvez isso explique certas ressonâncias, em sua obra,  a opulência de um espírito eclético, o triunfo do excesso de formas e cores sobre um plano, formando, quando se mira a uma certa distância, a beleza plástica de quem foi capaz de plasmar numa superfície a despótica harmonia de texturas e cromatismos vários.

Assim como Gaudí, em que quase todos o conjunto da sua obra se encontra em Barcelona, na Catalunha, quase toda a obra de intervenção urbana de Nôra Aires se encontra em Mossoró, segunda cidade do estado do Rio Grande do Norte.

Também foi buscar inspiração na francesa Niki de Saint Phalle (1930-2002), reputada por suas esculturas com cores fortes e robustas, lembrando um pouco o colombiano Botero. Esta artista foi companheira e trabalhou em conjunto com Jean Tinguely. Há em Paris, ao lado do Centro George Pompidou, uma grande fonte retangular no qual ocorreu o triunfo do trabalho do casal. As esculturas em ferro, e em movimento, espirram água para todos os lados, enquanto mecanismos dão movimento às esculturas de Niki de Saint Phalle.

 

4.

Numa viagem a Fortaleza, no Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura, por volta do final dos anos 90, deteve-se face a um painel de Aldemir Martins, tendo tido um forte impacto no seu espírito. Identificou-se de tal forma que imaginou-se a fazer uma composição nos mesmos moldes. Assim surge seu interesse por um plano recoberto por materiais vários, capaz de conformar uma unidade a partir de fragmentos.

A convite da Prefeitura Municipal de Mossoró elaborou seu primeiro painel, o que se encontra hoje na Praça Leonardo Nogueira. Surge assim a nossa mais importante artista na Arte Musiva. Por não determos uma tradição que a lance numa linha de continuidade, sua importância como produtora de tal espécie de arte se reveste de um maior relevo, pois autodidata que é só vem demonstrar o enigma da necessidade expressiva de uma pessoa dotada de um talento que, muitas vezes nem sabia que hibernava no seus inconsciente. Quem acompanhou de perto a trajetória de Nôra Aires sabe que algo havia de se cumprir, de que havia uma energia querendo ser dínames (Aristóteles), ou seja, garatujas movimentavam-se no seu interior, buscando o tempo e a hora de transformar-se em algo concreto que, qualquer que fosse o material ou a espécie de objeto estético.

 

 

5.

Seus painéis são encontrados em diversos lugares da cidade, em praças públicas no interior de edifícios, fazendo-se cumprir a Lei 427/89. Creio que é a lei que obriga a toda construção de certa monta a deter um objeto de arte. Inúmeros condomínios possuem seus belos trabalhos, numa multiplicidade de formas e cores que faz dizer da criatividade da artista, na medida em que nenhum se assemelha a outro. Há uma singularidade em cada um, fazendo crer um espírito dotado de capacidades diversas. Ampla é sua capacidade detentora de algo como um transe ou uma inquietude nervosa capaz de compor através de diversos meios o que emana de uma alma rica em transfigurar em estética o que contempla por meio dos sentidos. Sua capacidade é vasta, pois não consegue repetir a si mesma, como sucede uma grande parte dos artistas que permanecem copiando a si próprio.

Creio que uma das suas obras primas é o Painel em Arte Musiva, localizado no Edifício Residencial Golden Park, Mossoró. Formado por um grande retângulo no qual conseguiu um efeito de rara beleza plástica, apenas por meio de círculos, numa grande profusão de cores sobrepondo-se. Sendo que a cor vermelha e a azul são predominantes, com muitas nuances de ambas. Além disso, há altos-relevos, que criam a terceira dimensão, num belo efeito de profundidade. São dois painéis justapostos no muro interno do edifício.

 

6.

As intervenções na paisagem urbana não se limitam apenas à Arte Musiva, mas desce ao plano de canteiros no meio da rua. Como é o caso do uso da linha curva na Av. Presidente Dutra, evocando fortemente o paisagista Burle Marx. Aqui gostaria de lembrar da maestria com  que a artista faz uso tanto da linha curva quanto da linha reta. Depende do efeito que almeja causar. Como é o caso da Praça Duque de Caxias, na Av. Presidente Dutra. Não esquecer que Nôra Aires estudou Ciências Naturais, quando da sua graduação, deixando-a pronta para compor paisagens com plantas.

Outra coisa que gostaria de lembrar é um domínio extremamente original. Conheço apenas um painel. É o trabalho sobre placa cimentícia (2018). O cimento cru com desenhos em alto-relevos. Demonstrando que para se fazer arte é necessário talento e criatividade, não importa o material utilizado. O efeito do cimento causa um estranhamento no expectador, já que é um material tão banal no cotidiano, fazendo parte da cultura.

 

 

7.

Na sua eterna busca de experimentar materiais, a artista enveredou pela Arte Digital, a que é feita usando os recursos de programas de computador. Cremos que não poderia ter sido mais feliz no manuseio, sobretudo no que diz respeito ao uso de cromatismos vários que às vezes se assemelham a aquarelas. Há como que uma espontaneidade no seu fazer artístico, como se de chofre o trabalho fosse feito de um impulso só, gerando toda uma combinação de cores e formas, principalmente o contraste de cores quentes como o vermelho puro e o laranja.

Penso que depois da Arte Musiva é aqui que mais se expressa com propriedade, pois sugere um olhar que intencionalmente/aleatoriamente detém a capacidade de adivinhar o efeito que pode causar ao se justapor tais e quais cores. Consabido é o quanto isso não é tão simples em arte. É necessário uma familiaridade íntima e um observar a dinâmica do mundo com redobrada atenção para se obter tais êxitos.

Com efeito, sua arte digital não parece algo premeditado, como nos painéis da Arte Musiva, no qual se mede proporções e distanciamentos, para se chegar a uma harmonia quando se contempla com certa distância. Parece muito mais que, como disse, emanou de uma espécie de inspiração, consagrando formas e cores, gerando algo reconhecível na realidade, identificável com algum objeto da realidade; em outros, beira o abstracionismo, apenas fazendo ver que a realidade também é edificada sobre formas que não se assemelham ao que tempos como aquilo que fomos acostumados a reconhecer.

 

8.

Quantas faces possui a artista plástica Nôra Aires, no seu singular desassossego estético? Mosaico, desenho, paisagismo, ilustrações belíssimas para um livro infantil, acrílica sobre tela, arte digital. Somente uma alma dotada de muitos compartimentos, acumulados no seu embate de contemplar a realidade pode vir a produzir múltiplos objetos estéticos, pode não se conformar com o lugar-comum, com os refrões tediosos do mundo da arte contemporânea, que se compraz em copiar uns aos outros.

Seu espírito inquieto a faz conduzir por amplos caminhos de eternamente estar à procura de experimentar formas e conteúdos. De ensaiar novos inventos para “saber como é que fica”. Um inconformismo que sugere uma não aceitação com o entorno que a cerca, com o que o mundo obriga a dizer, com uma necessidade imanente de, talvez, apascentar sua alma rica de cores, de texturas, de formas, enfim, de matéria prima para que suas mãos plasmem o belo, tornando o mundo mais arejado e bonito para se viver.