As Lavadeiras de Mossoró

Folheando o arquivo online do Jornal do Brasil, editado no Rio de Janeiro, em sua edição de 17 de julho de 1979, encontrei uma matéria assinada por Carlos Drumond de Andrade, intitulada “Lavadeiras de Moçoró” (escrito assim mesmo). Claro que essa matéria me chamou a atenção, até porque, como tudo que Drumond escrevia, tornava-se poesia pela leveza das suas palavras. Dizia ele:

“As lavadeiras de Moçoró, cada uma tem sua pedra no rio; cada pedra de bater é bem de família, passando de mãe a filha, de filha a neta, como vão passando as águas no tempo. As pedras têm um polimento que revela a atividade de muitos dias e muitas lavadeiras. Servem de espelho a suas donas. E suas formas diferentes também correspondem de certo modo a figura física de quem as usa. Estas são arredondadas e cheias, aquelas magras e angulosas, e todas têm seu ar próprio, que não se presta a confusão.

A lavadeira e a pedra formam um ente especial, que se divide e se reúne ao sabor do trabalho. Se a mulher entoa uma canção, percebe-se que sua pedra acompanha em surdina. Outras vezes, parece que o canto, baixinho, vem da pedra, e a lavadeira lhe dá volume e continuidade.

Na miséria natural das lavadeiras, as pedras são uma riqueza, joias que elas ostentam ao sol e não precisam levar para casa. Ninguém as rouba, nem elas, de tão fiéis, se deixariam seduzir por estranhos. “

Belo poema. Mas não parou por aí. Na edição da terça-feira, 24 de julho do mesmo ano, Drumond publicava outra matéria, intitulada “Lavadeiras de Moçoró – II”. Dizia ele:

“Entre as lavadeiras de Moçoró, Luzia se destaca. Sua cor é a do ébano polido, reluzente, e dizem que roupa lavada por suas mãos, não há brancura que a suplante em todo o Norte.

A pedra que Luzia recebeu de sua mãe, e esta de sua avó, faria inveja às outras lavadeiras, de tão grande e listrada de veios de cor, se a dona não fosse tão boa colega. Frequentemente, cede a pedra a vizinha que namora aquela coisa tão importante e boa de nela se bater roupa. Enquanto isso, Luzia afasta-se e fica pensando no marinheiro de Santos.

Por que marinheiro, por que de Santos? Porque sua sina é casar com ele segundo anuncia o sinal escrito na pedra. Luzia nunca saiu de Moçoró, e de marinheiro em geral tem escassa notícia. Mas Rufino a espera em Santos, é a pedra que diz, no sinal interpretado por um velho adivinho, que nunca errou em suas sentenças.

Lá vai Luzia a caminho de Santos, suas colegas choram ao apitar o vapor. Luzia tem lágrimas nos olhos empapuçados e vermelhos. Em sua pedra ninguém tocará: é a pedra de Luzia, encantada. A menos que o adivinho descubra nela novo destino. “

Esses poemas, de Carlos Drummond de Andrade, Vingt-un Rosado transcreveu no livro “Novas Imagens de Mossoró”, publicado em 1980 pela Coleção Mossoroense, num capítulo denominado “Contos Contados. ”  E isso me remeteu a outro livro da Coleção Mossoroense, que é o romance “Poço das Pedras”, do potiguar Raimundo Nonato, publicado em 1973 pela Pongetti, do Rio de Janeiro. No romance, a denominação de Poço das Pedras é dada a uma fonte localizada a margem do Rio Mossoró, onde as lavadeiras se espalhavam, na luta sem descanso de todos os dias, na batalha do ganha-pão difícil e amargo.

Mas será que o poema de Drummond tem alguma coisa a ver com a nossa Mossoró? A princípio imaginei uma possível coincidência dele ter lido o livro de Raimundo Nonato, já que o mesmo foi impresso pela Editora Pongetti, do Rio de Janeiro, em 1973, o que é muito pouco provável. Conversando com a jornalista Lúcia Rocha, no entanto, tomei conhecimento de uma história bem interessante. Segundo a jornalista, Drummond teve uma empregada doméstica que era aqui de Mossoró e que costumava contar para o poeta como era difícil a luta das lavadeiras nas margens do Rio Mossoró. E a partir desses relatos, teriam surgidos os poemas. Lúcia informou ainda que já tinha registrado essa informação em suas redes sociais.

Bom, de qualquer maneira, verdade ou não, é bom imaginar Drummond se ocupando das lavadeiras do Rio Mossoró, com tão belas palavras.  É um pedacinho da nossa história registrada nos versos do poeta.

 

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