Arrumando a casa e a vida

Sabe aqueles dias em que você mal acorda e sente no ar a necessidade de mudanças? Daí se pega escancarando portas e janelas para deixar o ar e a luz do sol penetrar em cada recanto dos aposentos? Não bastando, por onde passa, já vai mudando alguns móveis de lugar e começa a tirar tudo dos armários e gavetas, e sequenciando, os reorganiza na esperança de assim conseguir deixar mais bonito e aconchegante o seu habitat?

Então, foi assim que ela despertou naquela manhã. Não com a vontade de se cansar arrumando as coisas da casa, mas desejosa de uma varinha de condão para mudar tudo que não a satisfazia naquele momento, inclusive o fato de ter que se policiar no uso exagerado de reticências nos seus textos, segundo uma observação feita por alguém bem próxima dela…
Ela sempre as usou sem parcimônia, achando até que fosse interessante. Mas, pensando melhor e, diga-se de passagem, às vezes ela exagerava mesmo no seu uso. Ah, mais uma ainda: tinha que ter cuidado com o excesso de exclamações! Que coisa!

Na verdade, o que a estava tirando do eixo gravitacional humano, nada mais era do que um e-mail que recebera na noite anterior. O seu conteúdo mexera de tal forma com o seu ser, que não conseguia tirá-lo da mente um só instante. Foi dormir preocupada e acordou bem pior.

De cabeça quente, de tanto pensar no problemão que enfrentaria, pois mudar assim o seu jeito de ser e escrever, de uma hora para outra, não era algo tão fácil, ela, matutando, começou a labuta diária. Entre uma espanada e outra, reconheceu, analogicamente, o quanto arrumar uma casa era mais fácil do que arrumar a vida. Bastava, pois, usar o espanador, água, sabão e um bom esfregão e tudo se resolvia. Mas mudar uma coisa tão sua, de tanto tempo… isso ela não via uma solução plausível. Lá estava ela usando no pensamento as reticências de novo! E têm mais: se fosse transcrever os pensamentos que hora a afligia, com certeza as usaria, e as exclamações também.

Sentou-se pesadamente no batente, escorou a cabeça no pilar e começou a imaginar como construiria, dali para frente, as suas frases, aquelas que ela sempre deixou em aberto, ambíguas, para que o seu leitor interagisse com suas ideias utilizando as suas próprias… Quantos sentimentos ela sempre escondeu naqueles três simpáticos pontinhos, esperando que a mente de alguém pudesse torná-los reais… Às vezes, até uma “malcriação”, ou alguns impropérios sobraram, mas tudo era válido diante da liberdade própria das… digo, reticências.

Mas o que mais gostava neles – os pontinhos – era o fato de eles prolongarem situações, deixando tudo inacabado, indefinido, em construção, com o objetivo claro de facilitar (ou complicar… quem sabe?) o livre raciocínio do leitor – interlocutor.

Ainda em suas reflexões, concluiu que nunca gostou de pontos finais, de coisas que se acabam, de pessoas que se vão, de partidas…

Sempre simpatizou com situações de continuidade, talvez por acreditar que nada está concluído no seu todo, pois no seu pensar, tudo na sua essência é um eterno vir a ser.

De repente, o cheiro de feijão começando a queimar a tirou do devaneio. Correu a apagar o fogo. Depois de verificar se o incidente não tinha comprometido parte do almoço, voltou às atividades.
Retomando a limpeza da casa, pensou: quando tiver um tempinho vou colocar tudo isso no papel…

Vanda Jacinto
Pedagoga