Ainda sou menina

Ainda sou uma menina. Mesmo depois dos vinte. Ainda tenho os sonhos da infância e os desejos juvenis, todos eles trancados dentro de mim. Mesmo ainda tão mansa e não podendo ir lá fora brincar. Então, brinco aqui dentro, nos meus delírios elaborados e desajeitados…E danço, com passos desajustados… Danço simetricamente no meu chão. E à noite, ainda no meu sono de menina, penso nas possibilidades incertas, penso no amor e penso nele… No destino que pulsa freneticamente em mim. Penso na esquina de vento brando, que embaralha meus cabelos no rosto e no cigarro de menta aceso na boca. Ainda sou uma menina. Uma menina travessa, que agarra o travesseiro ao dormir, que cantarola Beatles no banho e que tem alergia a formigas. Que ainda aguarda, com cotovelos vermelhos de tanto ficar na janela, a visita do namorado… Que nunca veio. Quero brincar, de amarelinha, de pique-bandeira e salada mista, quero correr da bola para não ser queimada, quero caminhar desequilibrada em cima das latas de leite, e segurando fortemente o barbante em minhas mãos. Quero sonhar com a praia, quero sentir o som das ondas batendo nas rochas… Ainda quero contar estrelas e beber vinho escondido num copo descartável. Quero me desvirginar… De ideias, de pensamentos toscos, de beijos suaves. Ainda sou menina, mas gosto do balanço do parque e de ouvir o som do violão, de dobrar a bermuda e saltitar para jogar vôlei, de tentar colar na prova de história. Sou apenas uma menina com tantas histórias, malcontadas e outras desfeitas. Ainda quero andar na corda-bamba e ir ao samba e sambar! Mesmo ainda tão menina ainda quero conhecer a Dama de Ferro e me deliciar em Paris…Quero fazer tatoo sinistra e ainda poder gingar ao comando de um berimbau, que ainda me arrepia e me leva a pensar na Bahia. E que um dia volto lá. Quero recitar novamente Gilka e tentar fazer rimas…Rimas com palavras bobas, mas sem palavrões. Ainda sou uma simples menina e sei que já não morro por amor e que nunca planejei uma guerra. Sou. O que afinal sou? Quem? Algo me abafa, me acalma e não me deixa lançar meu perfume doce, não me deixa sorrir livremente e não limpo mais o sangue que ainda escorre pelo meu pescoço…E ainda assim, me envolvo no lençol branco e corro pela floresta achando ser um fantasma solitário… Sou o que sou e ainda não me basta, por enquanto, ainda uma menina tentando crescer e não ser tão meiga, tão sem ponteiro ou tic-tac. Sou bomba ou apenas o pavio curto? Doce ou amarga? O que estes cabelos brancos querem dizer? E estas rugas que escondem minhas mãos…Porque nem assim eu consigo te encontrar. Porque sei que já não posso ser sua flor.Sou agora metade remendada e metade cacos colados. Sou menina crescendo e tentando encontrar o caminho para casa, para o meu berço quebrado e esquecer estes sinônimos de sofreguidão em mim.Ou posso ainda ser amor? ” Eu sei que vou sofrer. A eterna desventura de viver. À espera de viver ao lado teu. Por toda a minha vida…”