A razão de Temer

Difícil encontrar alguma notícia que não esteja relacionada ao grande embaraço provocado pela operação Lava Jato. Por um lado, o brasileiro vibra com a posssibilidade de punição de nomes de liderança nacional que não se imaginava pudessem ser atingidos de forma tão positiva. Pelo outro, o país fica assustado com a paralisia que foi tomando conta da economia nacional que enfrenta momentos dos mais difíceis, com o governo sem o apoio político necessário para garantir a governabilidade. Parece haver chegado o momento do salve-se quem puder, com todos procurando fugir dos tentáculos da justiça que chega a exorbitar para fazer cumprir um determinado objetivo. A prisão do senador Delcídio Amaral seria um desses casos, onde juristas renomados reclamam da prisão que aconteceu de forma inconstitucional, em flagrante desrespeito à democracia, colocando em risco a segurança jurídica. Os fins justificam os meios, defendem seus executores.

Quando o vice-presidente falou que o Brasil precisava de alguém que conseguisse reunir todas as lideranças teve seu gesto interpretado como sendo o de um golpista. Na verdade, com sua grande experiência, diagnosticava também a dissociação do comando do Partido dos Trabalhadores, há 13 anos responsável pela administração federal. Não dava para entender que os principais dirigentes do partido estivessem sendo detidos, acusados e fossem abandonados pelos que continuavam na atividade. Com o passar do tempo, os que estão presos terminarão pela opção da delação premiada, como já vem defendendo a esposa do senador Delcídio Amaral. O senador teria prevenido a presidente Dilma que a prisão de Marcelo Odebretch também era um problema dela, pois foi essa empresa quem pagou no exterior pelos serviços prestados por João Santana. Não gostou da resposta dada pelo ministro Aloisio Mercadante, dizendo que esse era um problema de Lula, e não de Dilma.

Acontece que os problemas não estão localizados apenas no Executivo. Os presidentes da Câmara e do Senado estão sendo investigados e é possível que, ontem à noite, os deputados tenham decidido pelo julgamento do deputado Eduardo Cunha que está com o seu mandato seguro por um fio. Ontem, o ministro do Supremo Tribunal Federal Teori Zavascki autorizou a abertura de novos inquéritos para investigar os senadores Renan Calheiros, Delcídio Amaral (que está detido) e Jader Barbalho, além do deputado federal Aníbal Gomes, do PMDB do Ceará.No início do processo o presidente da Câmara negociava com o governo trocar a votação do impeachment pela ajuda para que permanecesse no cargo. Esgotadas as condições, o presidente do PT, Rui Falcão, recomendou que seus deputados votassem a favor da continuidade do processo contra Cunha. Entre as conversas, os acusados tentaram envolver cinco ministros do STF, mas sem muito fundamento.

É dentro desse torvelinho que a presidente Dilma Rousseff se esforça para aprovar seu projeto de reajuste fiscal, elaborado pelo ministro Joaquim Levi. Há grandes resistências no Congresso que está sendo pressionado por todos os segmentos. A CPMF, que era tida como inaceitável, passou a ser admitida pelos parlamentares. A Justiça Eleitoral, por sua vez, usou da ameaça de retornar ao voto em cédula, como usado em anos anteriores, mostrando o retrocesso a que o contingenciamento de recursos levará, já nas eleições de 2016. Todo esse processo precisa ser encaminhado exatamente pelos que estão denunciados e precisam reunir argumentos suficientes para suas defesas. O ano legislativo se aproxima do final e, com o recesso, todas essas decisões que podem ser consideradas da mais extrema urgência, poderão ser transferidas para janeiro de 2016, com inestimável prejuízo para todos. Temer tem razão. É preciso encontrar um timoneiro.