A Peste em Licânia

Clauder Arcanjo

“— Isto é uma antirrábica. Você ficará neste quarto cinza, que foi gentilmente cedido por seu Companheiro Acácio, em quarentena. Seu amigo, muito preocupado com sua saúde, recomendou-me que cuidasse de você, pois desconfia de que o cachorro Hércules, que o mordeu ainda há pouco, está com suspeita de raiva e deu positivo no exame de Covid-19. Logo, a sua quarentena será dobrada.”

Aquela sentença não me saía da mente. Recluso naquele quarto cinza, rodeado pelo manto do silêncio, a receber tão só a visita de um veterinário (sim, caro leitor, o “meu amigo” Acácio designou um especialista em raiva canina para cuidar de mim!).

O tempo se espichava, e eu com os olhos postos naquelas paredes cinza.

Dia sim, dia não, o veterinário baixava minhas calças e me aplicava outra dose. Eu, com o passar dos dias — não sei se dopado pela medicação, ou entregue de todo ao destino da vida —, não mais reagia. Era minha maneira de fugir dos seus maus modos, beirando à violência.

Até que, num certo dia, ao ouvir a porta se abrir, já fui arriando as calças na direção do “cuidador de cães”. Qual não foi minha surpresa ao ouvir uma voz feminina:

— Estranha maneira de receber uma visita, senhor Clauder Arcanjo!

À minha frente, ou melhor, às minhas costas, uma deusa vestida de branco. Eu, com a face em rubor (parte por causa da minha vergonha, parte devido à beleza da nova atendente), gaguejei desculpas:

— Minhas desculpas… é porque eu estava sempre sendo atendido…

Ela dirigiu-se à pia do banheiro, lavou as mãos, pôs um par de luvas esterilizadas, ajustou a máscara e se aproximou:

— Como está se sentindo hoje?

— E aquele veterinário que estava me atendendo? — indaguei-a.

— Pelo jeito, como quase todos os animais de que ele tratou, o senhor também se apegou ao Carlão, não é?

— &…%…*… — mordi cada letra que queria sair dos meus lábios possessos, tão bela dama não merecia nenhum desaforo de minha parte.

— Muito prazer. Sou a doutora Diana; o Carlão já concluiu sua missão. Estou aqui para avaliá-lo, a fim de dar sua alta, pondo fim à quarentena.

“Diana, a rainha da caça, a deusa da caça! E eu tão caçador…”, pensei comigo mesmo, com vergonha de minhas pulsões, encobertas por versos tão… Chega de poesia!, lembrei-me do tratante do Acácio.

— Para dar-lhe alta, senhor Clauder Arcanjo, não precisarei analisar suas nádegas. Muito menos sou proctologista — anunciou doutora Diana, não sem antes me pespegar uma sonora palmada nos glúteos.

Subi as calças e, depressa, sentei-me na cama.

Tudo não durou mais do que cinco minutos. Dias atrás, o veterinário havia colhido uma amostra do meu sangue, e o resultado do laboratório ela já examinara antes de vir para o exame clínico.

Com pouco, doutora Diana me pediu para ficar de pé; fez uma série de perguntas, mas eu só tinha olhos para os seus olhos. De um verde esmeralda, sem mencionar a tez de alabastro. E os cabelos castanhos; assanhados, me assanhavam. Tive vergonha dos meus pensamentos libidinosos. Mas a culpa era do fogo da beleza de Diana, desculpava-me.

— Senhor Arcanjo? Senhor Arcanjo?!…

— Hã, hã… Sim…

— O senhor não respondeu a minha última pergunta. Vou repeti-la: quer ir para casa?

— Claro que sim, minha deus… digo, minha doutora.

— Está liberado. Vou ligar para o seu amigo Acácio. Ele parece ansioso para revê-lo.

Quando Diana fez menção de pegar o celular, eu a interrompi:

— Não me prive da surpresa de dar-lhe tão gratificante notícia. Pessoalmente.

Após lavar o rosto, pedi-lhe um abraço. Antes de conceder-me, doutora Diana declarou:

— É raro alguém escapar de um quadro de raiva. O estudo do seu caso será publicado na revista Nature, isso se o senhor permitir. Penso que merece um abraço de todos; e, no nosso caso, como ambos estamos com os anticorpos contra a Covid-19, por que não?

Abraçamo-nos. Ela, de forma pudenda e contida; eu, faminto, com o rosto em brasa no seu colo, a haurir o hálito de divina caçadora. Com os olhos fechados, a sonhar em ser Acteão; pouco me importando com o fatal desfecho, desde que a visse nua. Minhas desculpas, caro leitor, porém a paixão é ávida e ousada.

Doutora Diana me afastou polidamente. E, então, assinou o atestado de alta médica.

— Aqui, senhor Clauder, a sua medicação. Deve segui-la nos próximos quinze dias. Também anotei o número do consultório; ligue-me, caso sinta algo.

— Eu sinto tanto amo… — balbuciei.

— Falou algo?

— Não, não. Está tudo bem com este… caçador. Digo, doutora Diana, comigo.

— Sim, antes que esqueça: no dia em que fomos ao seu hotel pegar algumas coisas suas, eles haviam recebido esta correspondência.

Entregou-ma com aqueles dedos tão lindos e… Segurei mais aquela mão suave do que o envelope. Com jeito, ela retirou-a e saiu.

Ganhei a rua, o mundo me parecia estranho. A luminosidade doía-me nos olhos, a sentir minha roupa folgada. Sim, emagrecera sobremaneira naquele maldito confinamento.

Junto à calçada, um veículo. No banco de trás, sentado hieraticamente… o canalha do Acácio.

— Favor entrar, Clauder Arcanjo, não fuja dos amigos.

— Seu filho de uma ég…

— Antes de tudo, como sempre lhe ensinei, dê-nos um bom-dia.

— Bom dia o quê, seu reles, velhaco…?

— Entre, e deixe de dizer impropérios no meio da rua. Caso não, estará sujeito a outra internação, pois isso representará sinais inequívocos de recidiva da raiva. Entre, temos muito o que conversar — ordenou-me.

Companheiro, não sei por que cargas d’água, sempre manteve uma ascendência sobre minha pessoa. Ao dar por mim, estava ao seu lado, no banco traseiro daquele automóvel desconhecido.

Quando o veículo saiu é que percebi quem era o motorista. Sim, o veterinário Carlão. Agora — você nem imagina, caro leitor! —, todo vestido a caráter, como se a conduzir o governador, ou um dos medalhões da terra capixaba.

— Como precisamos de privacidade; e o senhor, Clauder Arcanjo, está com a boca suja como nunca, escolhi um local bem interessante para ajustarmos nossas contas: o Convento da Penha.

— Vamos, é bom até contar com os santos para testemunharem minha vingan… meus argumentos — concordei, a rilhar os dentes de fúria.

No caminho, resolvi abrir a carta que recebera das mãos da doutora Diana. Antes de lê-la, cheirei o envelope, como a tentar sugar o perfume daqueles lindos dedos.

— Você não perde a mania de a tudo cheirar, senhor Arcanjo. Durante o tratamento, não foram poucas as vezes, eu reparei que cheirar tudo é uma das suas pulsões. Tal qual um bom pastor alemão — falou-me Carlão.

Acácio, de pronto, o repreendeu:

— Senhor Carlos, atenha-se, hoje, ao seu ofício de motorista. Fui claro?

— Sim, senhor Acácio. O fato não mais se repetirá, serei um túmulo.

A carta fora remetida por João Américo, espécie de protofilósofo das terras de Licânia, querido torrão natal. Como ele descobrira o meu endereço em Vitória, suspeito que somente o Sherlock Holmes de Licânia desvendaria tal mistério. Mas, isso não vem ao acaso. Meti-me, então, por entre as letras cursivas da longa missiva:

Licânia-CE, 2 de maio de 2020

Estimado Clauder Arcanjo:

Nossa dileta província, tão acossada por males de outrora, vê-se mergulhada nos dias atuais numa pandemia infame. Escrevo-lhe isolado na minha masmorra caseira, com receio de que você não mais me encontre ao aqui retornar. Explico.

Meu estoque de alimentos ainda é suficiente para mais dois meses de isolamento total; no entanto o meu líquido essencial, você bem sabe do que estou falando: o néctar da cana-de-açúcar, não é bastante nem para uma semana mais.

Como a pandemia se alastrou em nossas casas?!, ouço você me inquirir. Darei detalhes nesta missiva.

Quando a China deu os primeiros sinais do vírus, entrei, de imediato, com uma solicitação, junto à Câmara de Vereadores, para que fosse decretado o estado de lockdown em nossa urbe.

Nossos muares edis, você nem acredita, passaram quase um mês para descobrir o verdadeiro sentido de tal expressão inglesa. Um deles, creia-me, pensou que se tratasse de uma nova comenda para o chefe político de quem ele coçava os bagos diuturnamente, com sua verborreia claudicante de vassalo analfabeto.

Pois muito bem, enquanto isso, Arcanjo, a peste se aproximava de nossos limites territoriais. Em Fortaleza, em Paracuru, em Amontada, em São Luís do Curu, em Itapajé… Ao chegar à vizinha cidade de Sobral, fui à praça pública e assumi foros de Demóstenes.

Proferi um discurso de uma hora, no pico do meio-dia, conclamando a todos para o isolamento social como forma de evitar o desaparecimento de nosso povo, cabeças chatas da ribeira de Licânia.

Se me deram ouvidos?! Suspeito de que não, apenas o Batista do Zé Aguiar, na sombra mais próxima, aplaudia-me, sob os eflúvios da última carraspana que tomara no Bar do Edi.

Quando o primeiro contaminado em Covid-19 foi anunciado pelo doutor João Victor, depois de ser realizada a contraprova, percebi que a coisa assumia tintas de desgraça. Fechei-me, então, no sótão da minha residência, não sem antes reforçar meu suprimento, alimentar e etílico, e travar todas as portas e janelas com cadeados, correntes, tramelas, ferrolhos… Sem relatar as duas espingardas soca-soca carregadas com chumbo grosso, assim como as sete baladeiras, disponíveis para o combate ao inimigo público.

O pior ainda viria, e aqui reforço mais uma vez a minha condição de cidadão rematadamente agnóstico. Se morrer, Clauder Arcanjo, não me chame nenhum pároco, entregue-me, de corpo nu e pecador, ao chão de Licânia. Porém, sigamos.

Com o ex-prefeito de Licânia, o Totonho, dando positivo ao exame da Covid, as beatas entraram em pânico e acorreram à casa paroquial, solicitando a intercessão de Sant’Anna e da Virgem Maria. O padre Serafim, de início, fez ouvidos moucos. Aliás, mais mouco do que de costume.

No entanto, com a crise chegando à casa paroquial — o sacristão fora isolado com sintomas do coronavírus —, o padre houve por bem clamar pela intercessão dos céus.

Na radiadora, ao longo de dois dias, foi expedida a ordem: “Todos se recolham. No dia primeiro de maio, o padre Serafim e Nossa Senhora sairão às ruas para abençoar e benzer a todos, afastando de vez a maléfica peste. Deus e Virgem Maria haverão de nos proteger!”

E assim ocorreu: no 1º de maio, uma picape azul percorreu as ruas de Licânia; sobre ela, a figura obesa do Padre Serafim e a imagem de Virgem Maria, com suas vestes imaculadas. Ao lado do pároco, um balde com água benta. Frente a todas as residências, ele parava, a fazer o nome do pai e a aspergir o líquido santo sobre os moradores.

Ao fim da tarde, a cidade recolheu-se e dormiu tranquila. Somente eu, confesso incréu, não seria salvo, pois não fui benzido, fuxicaram as beatas.

Até que, um dia depois, estourou a bomba: “O padre Serafim deu positivo no exame da Covid-19”.

E o pior, todos os que foram abençoados estão em polvorosa, propagando aos céus que morrerão devido “A Peste do Padre”.

Pelo jeito, aqui somente eu escaparei como Cristo. Digno, ateu.

No mais, volte logo. Precisamos de seus préstimos de orador, a fim de convencer o povo licaniense a confiar mais no lockdown e na ciência.

Do estimado amigo, e cada vez mais agnóstico,

João Américo.

P.S.: O Chirico do Gálio, assustado que estava com o coronavírus, tomou quase um banho quando da bênção do Padre Serafim. Soube há pouco que, desde então, ele está acamado, espirrando e tossindo como nunca. Que não volte ao pó nem tão cedo!

Companheiro Acácio, ao meu lado, que lera tudo com o canto dos olhos, espocou em riso frouxo. Melhor, espocamos, abraçados, em pacificadoras gargalhadas.

Clauder Arcanjo

Clauder Arcanjo

Clauder Arcanjo é escritor, membro da Academia de Letras do Brasil. Autor das obras Licânia, Novenário de espinhos, Uma garça no asfalto, Cambono, O Fantasma de Licânia, entre outras.

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