segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026
InícioArtigosA pandemia que desnuda um planeta agonizante

A pandemia que desnuda um planeta agonizante

Por Paulo Stucchi*

Adoecemos. Definitivamente, 2020 foi o ano em que a humanidade se viu, frente a frente, com sua pequenez e fragilidade. As décadas consecutivas de expansão urbana, inovações na medicina, universalização da Web e planificação dos continentes numa aldeia global fizeram-nos esquecer daquilo que, ano após ano, jogamos para debaixo do tapete junto às nossas promessas de Réveillon: desmatamento em larga escala, fome, miséria, poluição, contaminação do ar e das águas, concentração de renda nas mãos de poucos em detrimento da alienação social de muitos.

Criamos para nós, homens, um mundo doente; um organismo cujo sistema imunológico tem sido minado, dia a dia, ano após ano, pela nossa ação destrutiva, que cresce em um ritmo muito superior à nossa igual capacidade de renovar, embelezar e amar. Então, amigos, convido à reflexão profunda: quem, de fato, esteve doente todos estes anos? Quem, na realidade, respira por aparelhos há muito tempo, lutando para recuperar seus recursos diante do voraz apetite humano por exploração, extração e consumo?

Criamos guerras, matamos nossos iguais sob pretextos diversos (crenças, cor da pele, origem, classe social); transformamos a política em argumento para o extermínio e o dinheiro em nutriente para a devastação. Mas, como toda escolha, há consequências. Não. Não é apenas a humanidade que adoce. Muito antes, nosso planeta já agonizava, confinado em uma UTI por aqueles que, justamente, deveriam prezar pela sua saúde: nós.

Certamente, demorará para que voltemos à normalidade quando o pico das contaminações por Covid-19 diminuir. Podemos curar nosso corpo, mas nossos espíritos ainda estarão letárgicos em apagar os meses de angústia, isolamento e introspecção obrigatória. Contudo, nesse meio tempo, nosso planeta respira; mais do que isso, ele se cura.

Arrisco dizer, sem obviamente desconsiderar o sofrimento humano que os sintomas e a morte causam, que foi necessário a humanidade adoecer para que o mundo iniciasse sua regeneração. Ao longo de séculos o corpo estranho, o organismo infeccioso que mata seu hospedeiro, fomos nós, homens. E, de tempos em tempos, pestes após pestes, a Terra nos lembra que, mesmo que desapareçamos, a beleza da vida continuará a existir de outras maneiras.

A boa notícia é que ainda temos tempo: para refletir, mudar nossos hábitos, relativizar nossa ganância e pensar em um desenvolvimento de mão dupla – que permita, sim, o usufruto do capital e dos bens, mas que também abra espaço para que nosso mundo respire sem ajuda de aparelhos, e que mais sorrisos de seres humanos sejam vistos através de uma distribuição mais igualitária de oportunidades.

Aprendemos, pela religião e pela nossa necessidade intrínseca de mitos, salvadores e mártires, que milagres curam; que eles acontecem em momentos de extremo desespero e nos salvam. Contudo, nos esquecemos bisonhamente de que esses milagres sempre ocorrem da maneira mais singela, quando o homem se conecta com o grande mundo do qual faz parte, e deixa fluir o que nele há de melhor.

As sociedades não preexistem; elas são criadas, são frutos de uma estrutura pensada, de uma engrenagem complexa e meramente humana. Então, está em nossas mãos o leme do destino. Até lá, o planeta sempre nos lembrará, através da dor (depois de tanto amor dedicado) que nada somos diante da grandeza do ecossistema universal.

*Paulo Stucchi é jornalista e psicanalista, divide seu tempo entre o trabalho de assessor de comunicação e sua paixão pela literatura, principalmente, romances históricos. É autor de A Filha do Reich, Menina – Mitacuña, O Triste Amor de Augusto Ramonet, Natal sem Mamãe e A Fonte.

NOTÍCIAS RELACIONADAS

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui
Captcha verification failed!
Falha na pontuação do usuário captcha. Por favor, entre em contato conosco!
- Advertisment -

Notícias Recentes