A MUSA NÃO BOTA PÃO NA MESA NEM UÍSQUE NA XÍCARA

CID AUGUSTO

Nada de novo. Nada muda. Ou seria tudo se repete? Cansado. Na verdade, exausto. Dia a dia, a luta velha se reapresenta de maquiagem nova, corte de cabelo da moda e roupas do momento, mas com os cheiros de anteontem. E o que sobra é lutá-la arreganhando os dentes com o sorriso do primeiro enfrentamento. A despeito do cansaço. Apesar da impaciência.

Assim, vou à luta, rogando todo santo dia, e todo dia de cão também, que essa peleja de culpados e inocentes afaste-se da minha pena e me deixe partir. Na verdade, voltar. A exemplo de Ulisses, prefiro a ilha primordial, prefiro a inquietação de Ítaca ao conforto da imortalidade e ao gozo da ninfa de Calipso. Certas ilhas, disse-me um gauche, “perdem o homem”.

Vem daí a dificuldade de juntar dois ou três punhados de palavras que não carreguem na alma aquele complexo de petição, para arremessá-las e vê-las escorregar de unhas cravadas na tela estática do computador, rasgando entrelinhas abissais inundadas de suor no dorso de uma crônica indecente capaz de seduzir às profundezas e desemoçar os sentidos.

Bandeira, Bandeira! Fartei-me do lirismo estrito do artigo 5º e da erudição asseada dos doutores. Excelência, para mim, sempre foi a prosa do Beco da Bosta. E viva Dorian, que nunca disse, mas ensinou, na prática, que a glória do cronista é a indecência do texto nu, com vergonhas à mostra, despido de todos os salamaleques em direito admitidos ou exigidos.

O que se escreve e não liberta, antes angustia. Nem orgulha nem toca. Um tempo, Cid Augusto, jornalista por amor, advogado por necessidade, tangedor de prosa e poeta quando bebe, só escreverá o que quiser. Se quiser. Quando quiser. Por hoje, entretanto, há de sufocar a rebelião entre as penas, porque a musa não bota pão na mesa nem uísque na xícara.