A estupidez da polarização política

Tomislav R. Femenick – Historiador e jornalista

Há pensadores que, pela relevância de suas ideias, tornam-se universais e atemporais. Suas formulações abstratas da representação do concreto extravasam lugares e épocas. Esse seria o caso do filósofo alemão Immanuel Kant. Seu livro mais conhecido – muito citado e pouco lido e entendido –  é “Crítica da Razão Pura” (São Paulo: Publicações Brasil, 1958). Muito referenciados nos meios acadêmicos, o autor e o livro, no entanto, têm quase tantas interpretações quanto são as citações. O limite da diversidade numérica está na repetição dos entendimentos que encontramos nos trabalhos de conclusão de bacharelado, nas dissertações de mestrados e nas teses de doutorado. No mais é “passeio na maionese”, como se dizia no meu tempo de estudante. Não que não haja trabalhos sérios. Mas somente servem para confirmar a regra: Kant é um incompreendido.

Confesso que não sou um “insider”, um especialista no assunto. Quem me chamou a atenção para o fato foi o doutor Geraldo Müller, meu professor de Metodologia Científica, no curso de Mestrado da PUC-SP. Segundo ele, por aqui, basta alguém produzir alguns “papers”, publicá-los em qualquer lugar e, pronto, é um entendido no tema. E isso seria recorrente em relação a Immanuel Kant. Um amigo nosso chegou a elencar oito interpretações conflitantes entre si, sobre o seu pensamento.

Foi a atual situação do nosso país que me levou ao assunto. A polarização política, a estupidez com que são tratados os que discordam das posições de cada grupo, o desprezo pela opinião dos outros e a pobreza dos argumentos em defesa das próprias opiniões, tudo isso indica um estado crítico de embrutecimento mental.

A oposição petista diz que Lula, José Dirceu, José Genoíno e todos os outros são inocentes de tudo, mas não apresenta elementos que embasem sua argumentação de inocência. Os “bolsonaristas inveterados” dizem que o Flávio Bolsonaro é inocente, como o são Queiroz, os irmãos daquele e toda a família, mas não apresentam fatos concretos que confirmem a inocência de suas excelências.

Voltemos a Kant. Sinteticamente, podemos dizer que a base do pensamento do filósofo alemão está na dualidade que ele chamou de “juízos sintéticos” e “juízos analíticos”. No primeiro caso, no juízo sintético, devem-se juntar informações diferentes para se chegar a um novo patamar de conhecimento. Construamos um exemplo: se um político, ou qualquer cidadão que seja, não dispõe de fonte de renda que lhe permita possuir um grande patrimônio, mas o tem, deve-se concluir que houve algo de desonesto. No segundo caso, no juízo analítico, é mister que se divida um fato, uma informação, em tantas partes quando ele tenha, visando a entende-las separadamente, para comprovar o todo. Vamos novamente tomar um exemplo: se alguém diz que seu patrimônio é formado por heranças e ganhos pessoais, deve-se confirmar a origem e mensurar em valores o montante das heranças e dos ganhos.

A argamassa que solidifica essas duas proposições teóricas é a não aceitação de conceitos estabelecidos “a priori”. Assim, não é por ser político ou parente de político, milionário ou parente de milionário, celebridade ou parente de celebridade, que sua inocência ou culpa deva ser aceita como coisa certa e estabelecida (os exemplos dados o foram por se mostrarem mais fáceis de serem entendidos). Cabe um alerta: não estou falando de procedimentos jurídicos, portanto não cabe aqui o princípio de “in dubio pro reo”.

Agora voltemos à realidade brasileira. Enquanto a política for conduzida por grupos radicais e acéfalos, enquanto as discussões tiverem por motivo apenas a imposição das ideias dos contendores, estaremos mais para gladiadores romanos que para filósofos gregos. Quando se discute, deve-se buscar a verdade, pois “nem sempre a minha ideia é a mais correta”.

Mesmo quando se discute futebol, não se deve ser radical. Isso não leva a nenhuma verdade. A única exceção aceita é quando o Flamengo está envolvido. Se ganha, é porque sempre foi o melhor; se empata, é somente o resultado de um erro tático de jogo; se perde, a culpa é do juiz.