A despedida de um amor juvenil

Gutenberg Costa – Escritor, pesquisador e folclorista

Hoje, passadas décadas, venho aqui neste domingo contar uma história íntima tão triste. Guardada na memória a sete chaves. Rascunhada e tantas vezes rejeitada por mim mesmo, para torná-la pública aos meus poucos leitores e leitoras. Nada inspirado no grande Nelson Rodrigues ou em Rubem Braga. Nada de ficção, mas pura vivência, a qual muito pode ter acontecido a outros e outras, esses que agora me leem. Aceito as críticas e rejeições dos que só gostam de minhas historietas engraçadas, como também dos que não acreditarem em nada do que vos contarei.

Não se perguntam aos cronistas e memorialistas os pormenores de suas prosas. Não temos o direito de esclarecer tudo. Quem foi tal pessoa? Quando ocorreu e aonde o fato? Reservamos o sagrado direito de espalhar o milagre, sem contar o santo ou santa. Segredo para o túmulo. Confesso que fico chateado quando sou parado por curiosos querendo me jogar na velha fogueira da inquisição por não lhes contar os detalhes e nomes envolvidos em algumas histórias por mim vividas.

Outro dia, até me acusaram de contista. Juro ao amigo Nilo Emerenciano que ainda não escrevi um conto sequer. Como também, infelizmente, não nasci com a arte de Manoel de Barros e Mário Quintana, só para citar dois admirados poetas que já estão no céu, aonde moram os inteligentes, alegres e bons.

Bem, mas vamos lá, meus caros e caras, com meu particular amor juvenil. Namorico do tempo das radiolas de fichas, cabarés alegres da nossa velha Ribeira. Do parque São Luiz, aonde quando tinha dinheiro, lhe dedicava uma música cantada pelos chorões Maurício Reis e Evaldo Braga. Nome disfarçado, é claro, para não comprometer a jovem amada, com sua mãe tão braba, que a todo custo não queria nossa aproximação. Tudo escondido de todos: essa página musical, vai de um alguém apaixonado para uma jovem, vestida de azul…Os beijos eram ligeiros mais ainda. Eu adolescente e ela muito mais jovem do que eu. Mil planos e sonhos de fazer inveja aos filmes românticos, passados nas telas dos finados cines, Nordeste e Rex.

Uma noite, criando coragem, regado a umas cervejas, eu fui a sua casa pedir a sua mãe viúva, que era costureira, para namora-la. Naquele tempo era assim. Pai e mãe eram quem autorizavam o tal namoro público. Duas cadeiras na sala um pouco separadas. Chegávamos depois do jantar e saíamos ligeirinho depois de uma simples tossida do pai ou mãe da namorada. Era um aviso sem combinação. Nove horas, nem precisava o sino da igreja mais próxima bater.

E essa tal sogra quando me viu, sapecou verdadeiros tiros de canhões, usados na primeira guerra mundial, do tipo: Você trabalha, meu jovem? Sim, senhora, desde meus 14 anos. Quem é seu pai e sua mãe e o que eles têm de posses? Tive que, mesmo gaguejando, responder em cima da bucha sem mentiras: Sou filho de seu Geraldo e dona Estela. Papai tem um caminhão velho marca Chevrolet e uma pequena casa na rua da feira do Alecrim. Minha mãe nunca trabalhou, pois desde criança criou com zelo e amor seus 7 filhos, de um total de 10 que teve.

Nem preciso contar que a vassoura de minha quase sogra já estava posta atrás da porta. Fui, então, convidado a retirar-me e nunca mais pisar os meus pés naquela morada e atelier de costuras. A velha queria um futuro genro de família rica e eu, na época, era o que se dizia lá em Pendências: ‘um reles pé rapado’. Eu andava de bolsos vazios. Não tinha aonde cair morto. Pouco tinha o dinheiro dos sorvetes e picolés Kibom, para oferecer as namoradas. Como eu ia presentear a sua filha, no seu aniversário de 15 anos, que em pouco iam comemorar com pompas e requintes.

Uma pena, que essa dita namoradinha não teve a ousadia de minha mãe, a qual aos 14 anos, brincando de bonecas de pano, fugiu de Pendências com meu pai para concretizar a sua aventura e casório em Natal, durante a segunda guerra mundial. Uma guerra ou um romance realizado contra a vontade de seus pais e familiares. Sofreu muito sair do luxo paterno, mas não deu o braço a torcer!

O meu dito namoro continuou como se dizia naquele tempo, ‘arroxado feito nó cego de corda de agave. Tudo às escondidas de minha quase sogra e das candinhas de plantão nas calçadas e janelas. Espionagem alguma, nem o famoso 007, nos achava. Depois, a pressão materna foi mais forte do que as primeiras panelas de pressão, chegadas no antigo e sortido Atraente.

Passou um tempo e já com meus 18 anos, reencontrei a bela jovem em uma madrugada no velho restaurante/bar ‘Peixada Potengi’, da rua Tavares de Lira, no bairro boêmio da Ribeira, de tantos cabarés. Um deles, era o famoso e popular ‘Arpeje’, hoje, nem paredes, devido o descaso do cruel tempo com nosso passado arquitetônico natalense.

A referida Peixada era aberta 24 horas e, nas madrugadas, uma espécie de hospital da ressaca, com seus milagrosos quentes e suculentos caldos de peixes. Serviam também sopas revigorantes em suas dezenas de mesas, cobertas com toalhas de cores variadas. Eu chegava ali acompanhando de uns três amigos integrantes também do bloco carnavalesco Magnatas. A data anotei, como anoto tudo na minha vida. Fevereiro de 1978. Durante a nossa farra, com a música de Waldick Soriano dominando o ambiente, eis que chega um grupo de raparigas, ainda jovens e vindas do mencionado ‘Arpeje’. De supetão reconheço a voz de uma delas. Um choque no passado do dois. Era a própria minha namoradinha, magrinha, de cabelos pretos, longos e lisos. Olhos pretos, diferentemente da Capitu de Machado de Assis.

Ela, envergonhada, começou a soluçar e fomos ocupar uma mesa, só nos dois. O passado nos pertencia, como o amor-paixão juvenil vivido. Sua mãe falecera e nada deixara em bens para a filha única, a qual já era órfã de pai desde criança. Mudara de bairro e, tragicamente, de vida. Como maldosamente diziam ‘caiu na zona’, literalmente, para poder sobreviver. Agora estava um pouco velha para a sua idade. Demasiadamente marcada pelas noites e violências da sua vida não tão ‘fácil’. Só lhe restava a sua voz meiga e calma do nosso passado. Choramos juntos, diante de todos os presentes. Esses não entenderiam nossos gestos naquele momento. Eu, com certa importância em dinheiro no bolso, ela lisa e com fome àquela hora, quase amanhecendo o dia. Pedi uma janta para a mesma que, ao chorar copiosamente, quase não engole o que veio lhe ser servido no prato.

Para encerrar esse drama, disse-me que havia causado um antigo aborto por ingerência de sua ranzinza e orgulhosa genitora. E o pior e trágico de tudo, esse assassinato, imposto a seu contra gosto, impedira que nosso filho ou filha viesse ao mundo. Haja cervejas e choro de ambos até o sol bater em nossos rostos. Nada prometi a pobre com destino tão sofrido. Apenas disse-lhe que voltaria sempre aquele bar para encontrá-la e ajudá-la financeiramente no que eu pudesse. Nem só na semana santa, sofrem as ditas prostitutas. Um dia é da caça e outro da caçadora. Certas coisas ficam difíceis voltar ao começo. Na época, já sabia que muitas mulheres oriundas de dona ‘Maria Boa’ eram fiéis donas de casa. Bem casadas e mães amorosas para seus filhos e netos.

Voltei logo depois e muito decidido: ia tirá-la daquele lugar e casar com meu antigo amor, mesmo contra o mundo. Minha mãe iria me apoiar, papai, com certeza, não. Nenhum garçom tinha mais a visto. Fui até o tal ‘Arpeje’ e, seu garçom, apelidado de ‘pé’ de pombo, por causa de um defeito físico em seus pés, me contara o seu fim. Ela, depois do nosso encontro, muito envergonhada e triste, teria saído de Natal, de mala e cuia, para uma cidade distante, sem avisar o roteiro as amigas. E diante da notícia da triste partida, daquela que foi meu grande amor juvenil, pedi uma cerveja bem gelada e umas cinco fichas da radiola brilhante do cabaré, escolhendo a música cantada por Odair José, a qual não posso escutar ainda hoje, sem voltar o disco, como se diz: “Eu vou tirar você desse lugar/ Eu vou levar você pra ficar comigo/ E não interessa os que os outros vão falar…”.

Não sei se a mesma ainda vive nesse mundo. Se vive, espero que esteja muito bem de vida. Se já partiu desta, que Santa Madalena a proteja das pedras que lhe foram jogadas no passado. Eu, sem dinheiro, nunca lhe dei flores, só chocolate, tipo ‘zorro’, nos nossos encontros. Hoje, eu sigo adiante, escrevendo besteiras para passar o tempo. Sem traumas e remorso algum, deixado para trás! Sempre, com um olho no peixe e outro no gato, aliás, um pé no passado e outro no presente. Feliz e calmo, como as águas da Lagoa Papary, ali em baixo!

 

Morada São Saruê, Nísia Floresta/RN.