A Arcádia Lítero-Cívica de Mossoró

Geraldo Maia do Nascimento - [email protected]

As Arcádias eram sociedades literárias, típicas da última fase do classicismo. Mossoró teve uma dessas sociedades, que se caracterizou como sendo a primeira instituição cultural da cidade e que se destinava a congregar o que a cidade possuía de maior projeção intelectual, com a finalidade de promover reuniões cívicas em datas históricas, com a cooperação de musicistas e elementos sociais para a promoção de recitais, como nos explica o jornalista Lauro da Escóssia.

Segundo sua ata de fundação, “a 3 de junho de 1923, às 15h, num dos salões do edifício da Escola Normal, era oficialmente criada a “Arcádia Lítero-Cívica de Moçoró”, que tinha como presidente o jornalista Quintela Júnior, vice-presidente e orador o Dr. Eliseu Viana e secretário Odilon Coelho.”

O objetivo da sociedade era o desenvolvimento do civismo e do culto da Pátria e seus heróis. Tinha por base os 10 mandamentos cívicos do escritor Coelho Neto, os quais se resumiam em dois: Amar a Pátria sobre todas as coisas.

Os sócios fundadores eram somente doze: 1 – Reverendo Padre Manoel Gadelha, vigário da freguesia de Santa Luzia de Mossoró; 2 –  Dr. Eliseu Viana, diretor da Escola Normal; 3 –  Eufrásio Mário de Oliveira, bacharel, professor da Escola Normal e Juiz de Direito da Comarca de Mossoró; 4 –  Dr. Odilon Coelho, Desembargador, que foi vice-presidente e presidente do Tribunal de Justiça do Estado; 5 – professor Manuel João; 6 –  jornalista Quintela Júnior; 7 – José Martins de Vasconcelos; 8 – padre Luís da Mota; 9 – Tibério Burlamarqui; 10 –  D. Ilnah Mello; 11 – D. Bertide Soares Guerra, filha do Desembargador Felipe Guerra e professora da Escola Normal de Mossoró e 12 – Dr. Antônio Brasil, cirurgião dentista, escritor, jornalista e professor. Foi comunicado, no ato da fundação, que todos aqueles que quisessem se associar deveria apresentar um trabalho literário. Outros literatos aderiram a Arcádia, como o Monsenhor Almeida Barreto, o professor Abel Coelho e Vicente de Almeida. Todos esses intelectuais formavam uma equipe de vanguarda, fortalecida pelo apoio da juventude escolar, sempre solidária aos entretenimentos sociais quando da realização das noites de arte e cultura.

As reuniões da Arcádia aconteciam quinzenalmente e todas as grandes datas nacionais eram comemoradas.

Segundo as palavras do escritor Raimundo Nonato, “a composição do quadro da Arcádia Lítero-Cívica de Moçoró era um desses tapetes, onde se ajustavam todo os que demostravam boa vontade e intenção de cooperar com os planos de uma entidade que elevava o nome e o progresso do lugar. Assim é que, lá estava nos registros dos seus trabalhos: professores, dentistas, poetas, sacerdotes, jornalistas, comerciantes e doutores.” E a Arcádia teve lá seus grandes dias. Promoveu sessões, festas cívicas e tertúlias literárias.

Em 11 de novembro de 1925 houve, no Cine Teatro Almeida Castro, um festival de poesia e arte, tendo como palestrante o imortal Olegário Mariano, figura de primeira grandeza da intelectualidade brasileira e membro efetivo da Academia Brasileira de Letras. Após a palestra, que teve como tema “a cidade maravilhosa”, o conferencista recitou ainda belos poemas de sua autoria, sendo bastante aplaudido pelos presentes. Nessa época, estava na presidência da instituição o Monsenhor Manuel Barreto.

Um incidente, porém, contribuiu para que a instituição não tivesse vida longa. Consta que em uma de suas memoráveis sessões, o sócio Antônio Alves Brasil, uma das mentes brilhantes da instituição e sócio fundador, pronunciou um discurso humorístico, cheio de trocadilhos, onde todos apontavam os nomes das personagens que iam desfilando no seu jogo de frases. O mal-estar foi geral.

No outro dia a cidade amanheceu em alvoroço, com as pessoas ofendidas exigindo do presidente da Academia que aquele indivíduo tão inconveniente se retratasse publicamente e que o mesmo fosse expulso da instituição. Mas os demais membros, numa atitude de solidariedade ao confrade, optaram pela não punição do árcade Antônio Brasil. Era preferível extinguir a instituição. E essa foi a última sessão da Arcádia Lítero-Cívica de Mossoró.

Como sentenciou Rui Barbosa: “Nada mais tolo do que o orgulho, nada mais duro e odioso que a intolerância, nada mais perigoso ou ridículo do que a vaidade”.