sexta-feira, 30 de janeiro de 2026
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Parolin: a COP26 deve afirmar a centralidade do multilateralismo e da ação

Mais de 30 mil delegados se reunirão, em Glasgow, na Escócia, de amanhã, 31 de outubro, até 12 de novembro, para a XXVI Conferência da ONU sobre Mudanças Climáticas. “Temos os meios e os recursos para mudar de rumo”, disse o secretário de Estado da Santa Sé, cardeal Pietro Parolin, à mídia vaticana.

MASSIMILIANO MENICHETTI

Será a maior cúpula internacional que o Reino Unido já sediou. No cenário vitoriano de Glasgow, mais de 30 mil delegados, quase 200 líderes mundiais, especialistas em clima e ativistas se reunirão em torno da mesa da 26ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas. O objetivo será atualizar os planos de redução de emissões para combater os níveis de aquecimento global. Em 26 de outubro, o secretário-geral da ONU, Antônio Guterres, lançou um novo alarme, pedindo ações concretas para proteger o planeta: “Estamos no caminho certo para uma catástrofe climática”, disse ele, comentando o Relatório de 2021 sobre a Lacuna de Emissões. A era das meias-medidas e falsas promessas deve terminar e o tempo para fechar a lacuna de liderança deve começar em Glasgow”. Na última sexta-feira (29/10), numa mensagem de áudio-vídeo para a BBC, olhando para a conferência a ser realizada na cidade escocesa, o Papa Francisco convidou a “escolhas radicais” para tirar a humanidade das muitas crises transversais e interconectadas pelas quais está passando. O cardeal Pietro Parolin guiará a delegação da Santa Sé em Glasgow. Eis o que disse na entrevista à Rádio Vaticano-Vatican News.

Sua Eminência, abre-se a Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas Cop26. Com que objetivo a Santa Sé estará presente?

Cardeal Parolin: A COP26 é a primeira Conferência da Convenção-Quadro da ONU sobre Mudanças Climáticas a ser realizada depois da difusão da Covid-19, bem como a Conferência que deve sancionar as formas concretas de implementar os compromissos previstos no Acordo de Paris de 2015. Sabe-se que o percurso para sua implementação eficaz, também à luz da pandemia, é bastante complexo e incerto. É verdade que foi iniciado um processo de transição para um modelo de desenvolvimento livre de tecnologias e comportamentos que incidem nas emissões de gás de efeito estufa; a principal questão é quanto será rápido esse processo de transição e se será capaz de respeitar os prazos ditados pela ciência. A Santa Sé espera que a COP26 possa realmente reafirmar a centralidade do multilateralismo e da ação, inclusive através de agentes não-estatais. Dado o ritmo lento do progresso, a importância da Conferência de Glasgow é significativa, pois através dela a vontade coletiva e o nível de ambição dos Estados podem ser medidos e estimulados.

A edição anterior em Madri foi encerrada com um convite a “esforços mais ambiciosos”. O senhor disse: “Este é um desafio para a civilização”. O que está no horizonte agora?

Cardeal Parolin: Estamos vivendo um momento significativo de nossa história. As respostas à Covid-19 e às mudanças climáticas podem realmente dar seguimento à esperança expressa pelo Papa Francisco na Laudato si’ que, “enquanto a humanidade do período pós-industrial talvez seja lembrada como uma das mais irresponsáveis da história, espera-se que a humanidade do início do século XXI possa ser lembrada por ter assumido generosamente suas graves responsabilidades”. Este é um desafio de civilização em favor do bem comum e de uma mudança de perspectiva, que deve colocar a dignidade humana no centro de toda ação. Fenômenos globais e transversais como a pandemia e as mudanças climáticas destacam cada vez mais a mudança de rumo solicitada pelo Papa Francisco, com base na consciência de que devemos trabalhar todos juntos para fortalecer a aliança entre o ser humano e o ambiente natural, com especial atenção às populações mais vulneráveis.

Em sua encíclica “Laudato si”, Francisco defende uma ecologia integral na qual o cuidado da criação, a atenção aos pobres, o compromisso com a sociedade e a construção da paz são inseparáveis. Quais são as urgências?

Cardeal Parolin: É agora profundamente evidente que a degradação ambiental e a degradação social estão fortemente inter-relacionadas. Este é também um dos conceitos-chave da ecologia integral: “paz, justiça e proteção da criação são três questões totalmente interligadas, que não podem ser separadas para serem tratadas individualmente, sob pena de cair de novo no reducionismo”. Por esta razão, é importante que uma resposta coletiva clara também surja na COP26, não apenas para encorajar as atividades de mitigação e adaptação às mudanças climáticas por todos os países, mas também para ajudar os mais vulneráveis a enfrentar os danos e perdas resultantes das mudanças climáticas, que infelizmente já são uma realidade em muitos contextos.

O apelo constante do Papa é de adotar comportamentos e ações modelados na interdependência e corresponsabilidade, em um mundo no qual “tudo está conectado” e no qual os objetivos de redução da poluição, de eco-sustentabilidade, estabelecidos no Acordo de Paris de 2015, ainda parecem muito distantes. Quais são os caminhos a seguir?

Cardeal Parolin: Durante o encontro com líderes religiosos e cientistas em 4 de outubro para fazer um apelo conjunto à COP26, o Santo Padre destacou a importância de adotar uma visão de interdependência e partilha. “Não podemos agir sozinhos, mas é essencial que cada um de nós se comprometa a cuidar dos outros e do meio ambiente a fim de provocar uma mudança tão urgente de rumo; um compromisso que também deve ser alimentado por nossa fé e espiritualidade […] Um compromisso que deve ser continuamente estimulado pelo ‘motor do amor'”, que deve ser reavivado dia a dia. Este é um desafio que surge da necessidade de combater a “cultura do descarte” que prevalece em nossa sociedade e é alimentada pelo que o Apelo Conjunto chama de “sementes de conflito: ganância, indiferença, ignorância, medo, injustiça, insegurança e violência”. Portanto, o caminho tanto para alcançar as metas de eco-sustentabilidade quanto para perseguir a luta contra a degradação socioambiental deve partir desta consciência de passar de uma “cultura do descarte” para uma “cultura do cuidado”. Esta é a única maneira de tornar o que está escrito no Acordo de Paris verdadeiramente eficaz.

O Santo Padre, olhando para o que ele chamou de “transição ecológica” que estamos vivendo, falou de uma “obrigação de virada”, guiados pela esperança de que “podemos sempre mudar de rumo”. O que se espera concretamente desta Conferência das Nações Unidas?

Cardeal Parolin: Os dados mais recentes provenientes dos vários organismos científicos internacionais não são nada encorajadores sobre o caminho que a Comunidade internacional está tomando para alcançar os objetivos do Acordo de Paris. Isto destaca as dificuldades desta mudança de rumo, mas, ao mesmo tempo, a torna cada vez mais urgente. Temos os meios e recursos para esta mudança de rumo; o que ainda parece estar faltando é uma clara vontade política. Esta mudança de rumo deve envolver a todos; ninguém pode ser deixado para trás, nem ninguém pode evitar se envolver conscientemente neste grande desafio. Os jovens são os primeiros a perceber isto. Como diz o Apelo assinado pelos líderes religiosos, “herdamos um jardim: não devemos deixar um deserto para nossos filhos”. A COP26 é um momento importante para reiterar em termos concretos as modalidades de realização desses desejos.

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