sábado, 31 de janeiro de 2026
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Clauder Arcanjo: PÍLULAS PARA O SILÊNCIO (PARTE CXCIX)

(Foto: “Equilíbrio”, de Marcão Melo).

Ao acordar, mal pôs os pés no chão, sentiu algo de errado consigo. O corpo não se aguentava sobre si, como se houvesse perdido o equilíbrio.

Respirou fundo, fechou as pálpebras, em busca de se sentir melhor. Qual nada! O mundo girou em torno dele.

Abriu os olhos depressa e deu com o vulto trêmulo da companheira.

— Filha?!

Nenhuma resposta.

Ao tentar se pôr de pé, o corpo caiu sobre o chão frio do quarto.

— Não estou passando bem.

De repente, o rádio do vizinho, às alturas: “Você pensa que cachaça é água/ cachaça não é água não…”

A boca a espumar, torta. A raiva como sua última força.

 

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Quando conheceu o mar, Federardo irritou-se com o Deus do padre Araquento.

— Para que tanto despotismo de água, Senhor? E o sertão de Licânia, seco que nem língua de papagaio.

E as ondas molharam os seus pés esturricados, o oceano indiferente ao seu desabafo.

 

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Em regra, um cavaleiro precisa de muito equilíbrio para se transformar em um cavalheiro.

 

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Alcides se apresentou para o terço do fim da tarde com o cabelo em desalinho e a camisa toda amassada.

— Que exemplo para os nossos paroquianos! — reclamou o velho pároco.

As beatas benzeram-se, ainda mais em fogo quando deram pela chegada de Matilde, com uma flor de riso na comissura dos lábios grossos.

— Salve Rainha, mãe de… misericórdia… — rezou o sacristão.

 

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Toda vez que pensava em se “consertar”, atendendo aos anseios da namorada Querubina, Laurêncio lembrava as noitadas no Caneco Amassado e voltava a entregar corpo e alma ao fogo da “demônia da Cidoca”.

 

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Ao ler, no conto “Guy de Maupassant”, de Isaac Babel: “Quando uma frase nasce, não é nem boa nem tão ruim”, animou-se.

Duas horas depois, o seu conto não avançava, preso à frase de largada.

Resolveu, então, continuar a leitura do trecho de Babel: “O segredo do seu sucesso está em um ponto crucial que mal se pode discernir. Devemos pegar a chave desse enigma gentilmente com os dedos, esquentando-a. E depois a chave deve dar uma volta, e não duas.”

Constatou que estava sem chave. Com pouco, esquentando os dedos, deu uma volta no papel sobre a escrivaninha, jogando-o gentilmente no cesto do lixo.

 

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Escreva com dois dedos, mas com a alma inteira. E dê a vida pelo que for escrito, se for necessário.

 

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Desceu do ônibus, correu os olhos pelas ruas da província e, ao ajustar a maquilagem, flagrou uma lágrima furtiva na face. A certeza de que Osmundo não a perdoaria na volta àquelas paragens.

 

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Herculino nunca quis domar o tempo, sabia-o bicho enfezado: “Melhor fingir que não se percebe a sua corrida desembestada!”.

 

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Quanto mais fugia de si, mais se revisitava. Ninguém consegue se livrar de si mesmo.

 

*Clauder Arcanjo é escritor e editor, membro da Academia Norte-rio-grandense de Letras.

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