sábado, 31 de janeiro de 2026
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Clauder Arcanjo: Pílulas para o Silêncio (Parte CLXIV)

                                                                                                           Clauder Arcanjo*

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(A verdade saindo do poço, de Jean-Léon Gérôme)

 

De dia, uma carta aberta com loas aos donos do poder. À noite, uma oração clemente aos donos do Céu. Para uns, um homem pragmático de ofício; para outros, um cidadão, in extremis, a serviço de Deus. 

 

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— De onde tu trazes tanta volúpia? 

Useiro e vezeiro desta pergunta. Levava-a na algibeira, assacando-a em qualquer situação. 

Certo dia, cercado de reles asseclas, soltou a revelha interrogativa em meio ao assunto em pauta. 

Um adolescente que por lá passava, ao ouvir a sentença, exaltou: 

— Este homem falou igualzinho a uma personagem feminina de um livro erótico que li ontem. 

 

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Na faina dos impuros, ele sempre se mostrava o mais recolhido e tímido. Na sanha dos ingratos, apresentava-se cordato e reverente aos que lhe serviam. Na lógica dos incensados, apiedava-se dos que outorgavam-se meritórios, a revelar-se na condição de eterno aprendiz. 

Semana passada, a notícia: ele foi sumariamente expulso da confraria, julgado como um ser mesquinho e sem nenhum escrúpulo. 

 

&&&

 

— Não percamos tempo, a vida urge. 

— Mas eu não estou preparado… 

— O mundo está imerso em uma onda em eterna mudança. 

— Eu não sei nadar e… 

— Jogue-se n’água, o hábito faz o monge. 

— Glu… glu… Socorro!, glu… glu… estou morrendo afogado. 

— Seu reino por uma boia. Desculpe-me, nada posso fazer, eu também nunca aprendi a nadar. 

— Glu… glu… Seu filho de uma ég… glu… 

— Coitado, morreu. Mas se mostrou um bravo, pois morreu lutando. 

 

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Uma mentira na rua vale uma risada. Uma mentira na religião, a depender do tamanho do milagre, vale um dogma. No entanto, uma mentira propagada pelos homens da corte vale… Apenas uma mentira. Ou seja, nada vezes nada. 

 

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Queria ser escritor sem ler os grandes mestres. 

— Terei a escrita pura. 

Ele continua até hoje na condição de puríssimo, detentor de meras páginas brancas.

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