Há algo profundamente triste e perigoso quando a política se transforma num exercício de conveniência. Quando a palavra pública perde valor. Quando o discurso muda não por reflexão ou coerência, mas porque o cenário eleitoral mudou. É essa tristeza que se impõe ao eleitor ao observar a postura recente do deputado Hermano Morais.
Durante oito anos, Hermano integrou a base do governo Fátima Bezerra. Não foi um aliado ocasional. Foi um defensor ativo, presente nos momentos mais delicados da gestão. Em plenário, em entrevistas e em posicionamentos públicos, sustentou a narrativa de que o governo havia herdado um Estado quebrado, desorganizado financeiramente, e que, apesar das dificuldades, estava promovendo a reorganização administrativa, colocando salários em dia e recuperando a capacidade de governar do Rio Grande do Norte.
Quando as críticas à segurança pública se intensificaram, Hermano repetiu o discurso de que os problemas eram estruturais, fruto de gestões anteriores, e que o governo fazia o que estava ao alcance dentro das limitações orçamentárias. Não houve ruptura. Não houve denúncia. Houve defesa.
Nos momentos de maior desgaste nas áreas da saúde, da infraestrutura e da condução política do governo, o deputado optou pelo caminho da lealdade. Silenciou quando era mais confortável silenciar. Blindou quando blindar era politicamente conveniente. Permaneceu na base, sustentando institucionalmente a governadora, reconhecendo publicamente sua legitimidade e tratando-a como uma gestora comprometida e responsável.
Esse dado é incontornável: oito anos na base.
Quem discorda profundamente de um governo rompe. Se afasta. Vota contra. Denuncia. Hermano fez exatamente o oposto.
Agora, porém, quando a conveniência aponta para outro lado, o discurso muda. Indicado como pré-candidato a vice-governador na chapa de Alyson Bezerra, até aqui líder nas pesquisas para o Governo do Estado, Hermano passou a criticar com dureza exatamente aquilo que defendeu, elogiou ou silenciou por quase uma década.
A contradição não está em mudar de posição. A democracia permite e até exige revisões. A contradição está em fingir que o passado não existiu, em agir como se discursos não tivessem sido feitos, como se a história pudesse ser apagada a cada novo palanque. Não há, até agora, qualquer gesto público de autocrítica, de reconhecimento ou de explicação ao eleitor sobre essa mudança abrupta.
Triste é a situação da população que fica à mercê de políticos que tratam a palavra como algo descartável. Que falam conforme o vento, conforme a pesquisa, conforme o projeto pessoal de poder. Triste é perceber que a lealdade não é a princípios, mas à conveniência do momento.
Essa tristeza se amplia quando lembramos que essa prática não é isolada. O vice-governador Walter Alves também simboliza, para muitos eleitores, esse jogo de alianças flexíveis, onde o discurso se adapta conforme o governo, o cargo e a oportunidade.
E aqui cabe uma reflexão direta ao eleitor: se esses políticos fazem isso com aliados, com governadores, com prefeitos e com figuras poderosas… imagine o que fazem com você, que só é lembrado a cada quatro anos.
A política não pode ser um teatro permanente de conveniência. A palavra pública precisa ter peso. A história precisa ser assumida. Porque quando um político não sustenta o que disse ontem, não há qualquer garantia de que sustentará o que promete hoje.
E talvez essa seja a maior crise da política contemporânea: não a falta de projetos, mas a falta de compromisso com a própria palavra.




