A política contemporânea é marcada, em parte, por disputas simbólicas em torno da definição da importância dos problemas públicos. Em um ambiente altamente midiatizado, o impacto político de um acontecimento não depende apenas do fato em si, mas da capacidade de determinados atores de reenquadrar episódios emocionalmente carregados e convertê-los em capital político, especialmente no ambiente digital.
A morte do cão comunitário Orelha, em Florianópolis, gerou forte comoção nas redes sociais e mobilizou sentimentos legítimos de indignação e revolta. A partir desse episódio, Nikolas Ferreira promoveu um deslocamento discursivo que rapidamente extrapolou o debate inicial sobre maus-tratos a animais e responsabilização individual. O caso passou a ser apresentado como evidência de uma suposta falência estrutural do Estatuto da Criança e do Adolescente e convertido em argumento central para a defesa da redução da maioridade penal para 16 anos. Nikolas não cria o problema, mas redefine sua centralidade ao deslocar a comoção social para uma agenda ideológica específica.
Em vídeo amplamente difundidos, 9 milhões de visualizações, 32 mil comentários e mais de 68 mil compartilhamentos, o parlamentar argumenta que jovens de 16 anos podem votar, trabalhar e casar, mas hoje não respondem criminalmente por seus atos. Outro elemento central foi a exploração estratégica da comoção social como mecanismo de amplificação do alcance. O caso Orelha foi ressignificado como símbolo de uma ameaça difusa à ordem social e como gatilho para a reafirmação de valores morais caros à direita conservadora. Essa operação discursiva é eficaz porque reativa dicotomias estruturantes do debate político, como, por exemplo, conservadores versus progressistas e nós versus eles, produzindo alinhamentos rápidos e altamente mobilizadores.
Esse reenquadramento encontrou terreno fértil em um ecossistema digital no qual Nikolas já detém elevado poder. O deputado se consolidou como um dos políticos brasileiros com maior alcance nas redes sociais, o que lhe permite impor temas, pressionar a mídia tradicional e forçar a reatividade de adversários, mesmo sem apresentar propostas legislativas concretas, como fez no 8 de Março, Dia Internacional das Mulheres, ao tratar da questão da mulher trans.
A polarização deliberada completa a estratégia. Ao interpelar o público com perguntas como “de que lado você está?”, uma discussão jurídico-institucional complexa é transformada em dilema moral binário. O espaço para análises baseadas em evidências empíricas se estreita, e o debate é reposicionado no campo da identidade, da emoção e da moralidade política.
O episódio confirma um padrão recorrente da nova direita digital: a conversão de acontecimentos de forte impacto emocional em atalhos cognitivos para a defesa de agendas punitivas e altamente polarizadas. O sucesso desse movimento não depende da viabilidade imediata de uma proposta, mas da capacidade de dominar a agenda pública e definir o sentido dos acontecimentos. Mais do que sobre maioridade penal, o caso Orelha evidencia como, na política contemporânea, a disputa central se dá em torno de quem consegue enquadrar a realidade e orientar a indignação social em determinada direção.
Por Vanessa Marques- jornalista
Foto: Mario Agra/Câmara dos Deputados




