CASTÍSSIMO

Terno escuro e fechado, chapéu de massa, passo medido e compassado. Na mão direita, o Livro Santo.

Cortava as ruas, sempre sereno e um pouco cabisbaixo; nos lábios, como se um soletrar baixinho de salmos e de passagens bíblicas.
Senhor da Casa Azul, sobrado alto, vetusto e imponente na Rua das Quitandas. Construção quase da época do Rei; comentavam. Herança de família, uma das mais tradicionais do Vale das Palmas. No longínquo sertão de dentro, distante léguas e mais quilômetros de lonjuras da dita civilização.
Seu nome: José Damasceno Abreu Rodrigo Costa de Menezes. Sobrenome espichado, para levar, no seu bojo, toda a porção de ramos genealógicos que se misturaram no sangue, na língua e no gênio.
Todas as manhãs, sobraçado com Dona Germânia, o compromisso com a Santa Missa. Na Igreja Matriz de São Jerônimo. No mesmo banco, à primeira hora da matina.
Rodrigo Costa de Menezes chegava antes do pároco, a quem considerava um preguiçoso, confidenciava à sereníssima esposa.
– Acabe com essas coisas, José Damasceno. Respeite o pastor do Senhor! – clamava Dona Germânia. Somente ela o chamava pelos dois primeiros nomes.
– Só respeito quem se dá ao respeito, minha senhora! Olhe o estado que este padreco sobe ao altar: cabelo assanhado, olhos remelentos, voz de quem largou o sono à força. Sem falar no bocejar entre as palavras de Deus. Para mim, que me perdoe o Senhor Deus Pai Todo-poderoso, um amasiado da preguiça.
– José?!… Pelo amor do Nosso Senhor Jesus Cristo! – e ela baixava a cabeça ainda mais, como se a ler o missal.
Rodrigo Costa de Menezes, depois da missa, postava-se na cadeira de balanço no alpendre, e levava horas e horas a abençoar as dezenas de afilhados que acorriam à Casa Azul.
– Bênção, padrinho!
– Deus o abençoe, meu filho. Juízo e temência a Deus, ouviu? Entre e coma alguma coisa. Gertrudes, sirva meu afilhado.
As palavras eram sopradas em uma voz forte, limpa. Ao tempo em que, entre uma xícara e outra de café amargo e forte, Rodrigo Costa de Menezes esticava a mão direita, com o anelão de ouro ofertado ao beijo dos apadrinhados.
Na hora do almoço, a oração de agradecimento ao “pão nosso de cada dia”. Ele servia-se antes de todos, mas com frugalidade; só exagerava quando a sobremesa era o doce de mamão com coco, apurado com rapadura.
– Deste jeito, você ainda acaba comigo, velha Gertrudes! Acaba, acaba… – era mais agradecimento do que admoestação à velha cozinheira.
Da mesa para a rede. Lá, pastoreado pela gata Dalmira, a soneca de meia hora. Sono curto e pesado.
Acordava com os olhos esbugalhados; levantava-se depressa, os pés no chinelão de couro a murmurar contra si próprio.
– Isto são modos. Um cabrão como você, José Damascento, está pegando manha de malandro? Onde já se viu?… Ora, ora!… – e lavava o rosto, a disfarçar o bocejo a abrir-lhe a bocarra, apesar do esforço ao contrário.
– Negro Deusdite? Negro Deusdite? Onde anda este cabra, meu povo?
– Estou aqui fora, Senhor!
– Deixe de conversaria, Deusdite, e vamos para os compromissos. Está tudo pronto para a minha obra de caridade de hoje?
– Claro, tá tudo no lombo das burras. Conforme o senhor me orientou.
– Não é hora de mais trelelê. Minhas promessas com as obras de Cristo são compromissos inadiáveis. Vamos logo embora! Germânia, já estou indo. Só voltarei bem tarde.
– Deus o leve, guarde e traga de volta, meu castíssimo esposo.
A gata Dalmira passava-lhe o rabo felpudo entre as pernas, e Rodrigo Costa de Menezes sentia o arrepio da saída.
Frente ao sobrado, duas burras cardãs carregadas e dois cavalos ajaezados e bem selados. Saíam no meio da tarde, rumo à Freguesia do Lampejo. Lá, dar-se-ia mais uma obra de caridade do herdeiro do velho Costa de Menezes.

***

O retorno na madrugada alta. Negro Deusdite à frente, a puxar o cabresto do cavalo do patrão; e com as duas burras cardãs atrás, a lhe seguirem o passo.
– Dona Germânia, cheguei, seu cas-tís-si-mo! – a voz embargada pelo vinho da caridade, regiamente servido na Freguesia do Lampejo.
Antes de entrar, a gata Dalmira passou-lhe o rabo felpudo entre as pernas bambas, e José Damasceno Abreu Rodrigo Costa de Menezes, cabelo assanhado, olhos remelentos, voz de quem largou o sono à força, sem falar no bocejar entre as palavras de Deus… sentiu o arrepio da chegada.